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Jaime Cravo, 36 anos e metade da vida dedicada ao jornalismo. “Contar histórias maiores do que a vida” trouxe 17 prémios ao jornalista e ao ReporTV, exemplos quase únicos da reportagem desportiva televisiva em Portugal.

Jaime Cravo

Começo com a pergunta da praxe: quem é o Jaime Cravo e que percurso fez até chegar ao ReporTV?
Sou uma pessoa banal, como todas as outras. Sou casado, tenho filhos… o habitual. Desde cedo soube que queria o jornalismo. Em criança já recortava jornais e notícias, fazia o meu próprio jornal e escrevia as minhas notícias. É com esse tipo de coisas que começamos a perceber o que é que vamos querer fazer no futuro. E assim foi. Mesmo durante a vida académica, na Universidade Lusófona, fiz um jornal chamado “Novo Lusófono” com mais dois amigos. Era uma coisa revolucionária, muito por causa da juventude inquieta. Tanto que um dos visados pelas nossas críticas levou as coisas mesmo a sério e colocou-nos um processo em tribunal. Até fui prestar declarações à Polícia Judiciária sozinho, com 18 anos, algo que não é permitido sem a presença de um advogado. Bem, acabou por não haver problema porque o caso se resolveu sem males maiores. No segundo ano da faculdade o bichinho já tinha tomado conta de mim e entrei no “Manhã Popular”, um diário que nasceu na altura. Aí, fiz sociedade, crime e educação. O jornal acabou por fechar e fui para a revista “Factos”, mas estive ainda no “Semanário” e “Política Moderna”, uma espécie de “George” à portuguesa.

Já nessa altura tinha o sonho de fazer televisão?
Não, não. A verdade é que televisão é o meio mais “vaidoso” de toda a comunicação social. Há um encanto das pessoas pelo aparecer, pelo estar e conversar com figuras públicas. E a televisão é um meio muito poderoso, porque junta imagem, voz, música… Uma boa ou má escolha da música, por exemplo, pode fazer uma imagem “normal” brilhar ou tornar uma grande imagem em mais uma apenas.

Então como é que surgiu a oportunidade de entrar para a SportTV?
No terceiro ano de faculdade, fui para o CENJOR (Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas) fazer um curso intensivo sobre televisão durante três semanas. Confesso que fui um dos melhores nesse pequeno curso e foi aí que o José Gabriel Quaresma – formador do curso e actual jornalista da TVI24 – me recomendou à SportTV, em 2000. Quando entrei fazia aquela coisa rotineira de ir aos treinos das equipas de futebol, às conferências de imprensa… Mas já aí tentava dar ao telespectador uma visão alternativa. Para isto era, e é, muito importante ter uma grande confiança com o operador de câmara. Lembro-me que tentávamos oferecer sempre uma visão mais “lúdica” às pessoas. Numa das vezes reparei numa teia de aranha durante um treino e filmámo-la, para depois cruzar com outras ideias que me iam surgindo. Desde sempre, tento procurar um ângulo jornalístico diferente do que já era feito pelos outros. É desafiante passar quinze ou trinta minutos de treino para um minuto e meio diferente mas com interesse.

E no caso do ReporTV, como é feita a selecção das imagens?
Bem, neste caso tenho por volta de oito horas de filmagens em bruto. Primeiro vejo tudo e tento seleccionar aquilo que acho que pode ser interessante e novo para quem vai ver. Procuro sempre mostrar o lado que ainda ninguém viu. Depois começa o trabalho de edição de imagem, a elaboração da voz off e a escolha da banda sonora, que é muito importante.

É depois dessa primeira experiência no canal que integra o programa?
Estamos a falar de 2000, portanto altura dos Jogos Olímpicos de Sidney e com representação portuguesa. A SportTV criou, na altura, um programa chamado “Filhos do Olimpo” como espécie de antevisão da competição. Aí, o ReporTV era feito “à vez” por um grupo de cinco ou seis pessoas e o Luís Miguel Pereira – criador do ReporTV e actual chefe de redacção – chamou-me. Percorri o país de norte a sul a contar curiosidades, desde o Carlos Calado ao Nuno Delgado. Além disso, fazíamos o “abc” do programa para integrar e dar a conhecer melhor as modalidades menos conhecidas e os seus termos mais técnicos às pessoas, como o caso do judo.

Como é que o ReporTV passa, então, a ser “seu”?
Desde a minha entrada para o canal que gostaram sempre do meu trabalho, eu sabia disso. Aí por altura desses Jogos Olímpicos, o Luís Miguel Pereira deixou a chefia do ReporTV para passar a chefe de redacção. Foi uma sucessão natural e eu fiquei com a pasta do programa.

De que forma lhe chegam estas histórias às mãos?
Um pouco de todas as formas, acredita. Desde carta, como foi o caso do Paulo Azevedo (“O melhor jogador do mundo”), até um simples e-mail, tudo serve. Também acontece estar no terreno em filmagens e ficar a conhecer outras histórias que me parecem interessantes. Aí, fico com o contacto das pessoas em questão e fico a pensar na ideia. Até já me aconteceu a ideia surgir numa simples conversa com o meu operador de câmara, quando íamos para fora em reportagem. No carro, começámos a falar do desaparecimento do futebol de rua e do talento que já não existe e foi assim que surgiu o “Do meio da rua”. Confesso que foi um dos programas que mais trabalho deu a toda a equipa, perdi a conta às pessoas com quem falámos. Conheço inúmeras histórias mas, claro, a escolha passa sempre por mim: a história tem de ser interessante mas as pessoas também.

Como é que encontra estes ângulos tão alternativos, que são verdadeiras “lufadas de ar fresco” na reportagem televisiva em Portugal? Sente que o Reportv é uma forma de pegar nas histórias que as pessoas conhecem mas não têm “coragem” para contar?
Em Portugal há muito pouca abertura à reportagem desportiva. O pensamento geral é o de “ah, futebol, isso…” e é por isso que a reportagem desportiva é tão pouco explorada. A verdade é que estamos num país que vive o futebol e o desporto com paixão e de forma emocionante. Aliás, todo o desporto é emoção e só temos de aceitar essa condição, somos assim e pronto. Não vai mudar! Mais do que contar vidas, tento contar histórias maiores do que a vida e acredito que qualquer pessoa pode dar uma boa história. Procuro focar-me em duas ou três pessoas e depois contar a história a partir daí. Sempre do particular para o geral, nunca o contrário.
O facto de passar num canal pago também influencia a força do programa, não o posso negar. Não tenho dúvidas de que em canal aberto, o ReporTV seria um tremendo sucesso. Posso dar um exemplo… Um ano antes de a SIC fazer a reportagem sobre o Paulo Azevedo (rapaz sem braços e sem pernas que leva uma vida normal), tinha eu feito a minha. E a SIC teve 1.200.000 pessoas a assistir à reportagem na altura… O ReporTV é pouco conhecido até dentro do próprio mundo do jornalismo, excepto no caso dos jornalistas desportivos.

Qual foi a reportagem que mais prazer lhe deu? Porquê?
Bem… pergunta muito difícil. (Pausa) É mesmo muito difícil escolher porque já foram tantas, em quinze anos de programas… Esta do Gil Vicente (“Deus, Fiúza e outras estórias”, emitida dia 5 de Dezembro) vai ser boa, o Fiúza (presidente do clube) é uma verdadeira personagem. O programa sobre a pior equipa dos campeonatos distritais portugueses também foi muito bom, pela forma como as pessoas de Aljustrel se ligavam àquele clube e a relação entre o trabalho nas minas locais e o próprio clube.
E acho que a próxima, que vai para o ar em Janeiro, também vai ser excelente: vamos ao primeiro jogo do campeonato de uma equipa que foi bicampeã no campeonato da INATEL do Algarve e decidiu integrar o campeonato distrital. Acontece que eles não treinam, apenas se juntam para jogar ao domingo. É uma aldeia mesmo muito pequena e com pouca população, perdida no Algarve. Lembro-me também do “Pedro maluco”, um homem completamente fanático pelo Benfica. Tinha o sonho de construir uma réplica do antigo Estádio da Luz no jardim de casa e andava de mota pela aldeia com um megafone a transmitir relatos de golos do clube. Uma coisa do outro mundo. Depois de conhecer esse caso, tentámos concretizar o sonho do Pedro. E conseguimos. Até o Mário Dias (antigo vice-presidente e um nome incontornável na construção do Estádio da Luz) lá foi!

Sente que os 17 prémios que o ReporTV já ganhou funcionam como uma “rede” de confiança do programa em relação aos entrevistados?
Claro que sim. É um cliché mas toda a gente gosta de ver o seu trabalho conhecido, não o nego. Mas a atitude tem de continuar a mesma, porque as pessoas esquecem-se dos prémios, amanhã é outro dia e há mais histórias para contar. É claro que este reconhecimento que ganhámos nos traz um maior conforto e proximidade com os próximos entrevistados. Já sabem ao que vão porque conhecem o estilo característico do programa. Isto permite-nos sempre ter uma maior abertura dos clubes e das pessoas em si.

Numa palavra ou expressão:

Jornalismo desportivo português
(Pausa) Menosprezado e mal aproveitado
ReporTV
Oásis
Equipa com que trabalha
Super-equipa, um “teamaço”
Prémios que ganhou
Relativizo-os
Paulo Azevedo em “O melhor jogador do mundo”
É um puto, um super-puto
“Livre a correr” (História de Hugo Pinto, antiga esperança do atletismo português, que foi preso por tráfico de droga mas continuou a treinar num pátio de 150 metros, na prisão)
Lição de vida
O futuro
Continuar a contar histórias

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