O Bola na Rede esteve à conversa com Dani, o prodígio que é descoberto por Aurélio Pereira na praia em Tróia, com apenas oito anos. Da ocidental praia lusitana, ruma, por caminhos já outrora percorridos, até ao relvado de Alvalade, onde faz toda a formação e se estreia na equipa principal, com apenas 17 anos. Brilha nas seleções jovens, onde passa além da fronteira para conquistar um Campeonato da Europa de sub-18 e encantar tudo e todos no Mundial de sub-20 no Qatar. Em dificuldades e disputas esforçadas, passa meia época no West Ham, mas é no Ajax que alcança mais do que prometia até então. Entre gente remota que nada edificou, passa pelo Benfica e segue para o Atlético de Madrid pela mão de Futre, o seu ídolo de infância. Na capital espanhola, leva o Atlético de volta à Primeira Divisão, naquele que é o último gesto sublime de uma carreira que acaba precocemente. Nesta conversa, está a prova de que há em Dani muito mais do que uma promessa falhada. As palavras fazem-lhe justiça.

– Do areal de Tróia para o relvado de Alvalade –

Bola na Rede [BnR]: Como e quando chegas às camadas jovens do Sporting?

Dani [D]: Chego à formação do Sporting CP com oito anos, através do Sr. Aurélio Pereira, que me viu nas férias a jogar na praia. Ele pediu-me para eu dar uns toques, e passado um bocado diz-me “Posso falar com o teu pai?”. Chamei o meu pai, eles falaram e fui fazer testes ao Sporting.

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BnR: Foi nas férias de verão?

D: Sim, em Tróia. Foi engraçado, eu já tinha tentado ir à experiência ao Sporting, mas disseram-me que era muito novo e para voltar quando tivesse dez anos. Nem fiz os testes. Depois fui de férias e aconteceu isto.

BnR: Jogas a que posição na formação?

D: Comecei a lateral esquerdo nos infantis, com o César Nascimento e o Osvaldo Silva. Foi o Osvaldo Silva que me pôs a alcunha, porque eu era muito pequenino, muito magrinho, muito novo comparado com os outros que tinham 11 e 12 anos.

BnR: Como é que começas a jogar mais à frente?

D: Foi uma evolução natural. Fui crescendo, melhorando as minhas qualidades e, desde que comecei a jogar com os da minha idade, passei para médio e extremo esquerdo. Depois, entre os iniciados e os juvenis, passo para extremo, ou “10”, para andar solto. Nos juvenis de primeiro ano, já jogava com os de segundo ano, e nos juniores também.

BnR: Quem são os teus ídolos em miúdo?

D: Futre. Foi logo o primeiro, tinha uma adoração por ele. O pé esquerdo, a técnica, a forma como se comportava dentro de campo… Era uma coisa que me deixava de boca aberta. Maradona também, quando foi o Mundial do México, em ’86. Eu tinha 10 anos e vi-o. Fiquei doido com as exibições dele.

BnR: Campeão da Europa de sub-18, em 1994. Que memórias tens dessa competição?

D: Tínhamos uma equipa… Eu era o mais novo até, mas tínhamos uma seleção que trabalhava muito, que lutava muito, e tínhamos um grupo muito unido. Estávamos há vários anos e tínhamos um núcleo forte: jogadores de Sporting, Benfica, Porto, Boavista…

BnR: Quem eram os outros craques desta geração?

D: Todos (risos). Nuno Gomes, Bruno Caires, Beto, Quim, Madureira. Jogadores de talento, mas de muito trabalho, muito querer e muita garra. Dávamo-nos todos muito bem, tínhamos uma alma enorme. Os treinadores também – Rui Caçador, Nelo Vingada e Agostinho Oliveira. Passávamos muito tempo em estágios, torneios, e, com aquela idade, os estágios davam-nos uma irmandade, uma capacidade de lutar uns pelos outros.

BnR: Temos de falar inevitavelmente daquele lance icónico pelos sub-20, frente à Holanda, no Mundial do Qatar em 1995.

D: Tínhamos treinado aquilo várias vezes, mas nunca o tínhamos feito em jogo. Nunca se tinha proporcionado o momento em que pudéssemos juntar a concentração e as necessidades do jogo com uma jogada que sai um bocadinho da caixa. Há um vídeo, da Eurosport creio, que filma por trás de mim e do Bruno Caires, e ouve-se perfeitamente o relato em inglês “Mas o que é isto? Enganaram-se! O que se está a passar?”. E, se olharmos com atenção, os jogadores holandeses na barreira relaxam os braços e o guarda-redes também. Fica tipo “O que é que se está a passar?”. Eu rapidamente marco o livre, e havia duas opções: ou ia direto à baliza, ou então havia jogadores para cabecear. Por norma, os centrais subiam. O Bóia, o Beto, o José Soares, o Carlos Filipe também cabeceava muito bem. E o Agostinho também aparecia como apareceu nesse lance, a cabecear lá para dentro. Foi um momento fantástico, e nesse jogo eu também marquei um golo de canto direto. Saiu-nos tudo bem.

BnR: Quem é que tem a ideia de criar essa jogada?

D: Creio que foi o Nelo Vingada que trabalhou isso connosco.

BnR: Falavas em estágios. Sendo vocês ainda jovens, os selecionadores sabem o que vocês fazem nos tempos livres?

D: Sim. Tínhamos as duas coisas: tínhamos a responsabilidade e a noção de que, quando era para jogar, dávamos tudo dentro do campo; mas depois fora do campo também tínhamos alguma liberdade nos momentos certos. Também tínhamos alguma irreverência para ter alguns comportamentos menos próprios para o momento, mas se fizéssemos algo de errado tínhamos castigos. Vivíamos muito e intensamente, mas o mais importante eram os jogos. Dávamos tudo dentro do campo.

BnR: Disseste que tiveste um ascendente muito rápido no futebol e, por isso, pouco tempo para ter noção do que se estava a passar na tua vida e naquilo que podias representar como jogador de futebol. Olhando agora com os olhos da maturidade, o que é que te afetou negativamente na altura?

D: Eu digo isso com perfeita noção, mas também digo que não estaria a ser intelectualmente honesto agora, passado tantos anos e olhando para a vida de uma forma completamente diferente, estar a dizer que podia ter tido outros comportamentos. Percebo que devia ter tido outros comportamentos em alguns momentos, mas não era próprio da minha maneira de ser e do momento que eu estava a atravessar.

BnR: Estreias-te na equipa principal do Sporting com 17 anos. Que memórias tens desse tempo?

D: Foi contra o Farense, na Taça. Olha, lembro-me perfeitamente de estar no banco, e, na segunda parte, o estádio começar a cantar o meu nome e a bater palmas, a pedir a minha entrada em campo! Mas tínhamos uma equipa muito forte, e ali na minha posição estava o Balakov…

BnR: Ui…

D: (risos) Exato. Eu não me apercebi dos cânticos, que era o meu nome que estavam a cantar, talvez por ser a primeira vez que estava no estádio a ouvir aquilo. No momento em que me levanto para aquecer, o Capucho diz-me “Isto é o teu nome que estão a cantar. É para ti”, e eu fiquei “Que é isto? Que é que se passa?”. Assim que entrei, ovação, muitas palmas e uma expetativa enorme.

BnR: Como é que te correu o jogo?

D: Há uma ou outra situação logo no início. Iam-me passar a bola, mas depois não passam, e ouve-se o estádio “Ahhhhhh”. Havia uma grande ansiedade em verem-me a jogar e a ver como é que eu me iria comportar. Eu senti isso. Estive ali alguns minutos sem receber a bola, e depois, na primeira vez que me passam a bola, uma situação fácil, quando a vou dominar, deixo passar a bola por baixo do pé. E o estádio todo “Ohhhhh”. Que desilusão.

BnR: Acusaste a pressão?

D: Senti isso. Só que eu não tinha muito receio e não sentia muito o peso do momento, porque as coisas aconteciam de dia para dia, de semana para semana, estava sempre a acontecer qualquer coisa na minha vida no futebol. Muita expetativa e muitas situações a acontecerem. Não tinha tempo para parar e ficar com receios ou medos. Então logo que tive oportunidade, peguei na bola, fiz uma tabela com o Balakov, fui por ali fora e, à entrada da área, rematei. A bola saiu a rasar a trave, e a partir dali os adeptos ficaram mais entusiasmados. Houve ali uma ovação e tal, mas foi pouco tempo que joguei também.

BnR: Quem te recebe na equipa principal do Sporting?

D: Fui muito bem recebido. Já treinava algumas vezes com eles, e conhecia o Figo, o Peixe, o Capucho, o Oceano. Estava habituado a vê-los nos corredores de Alvalade! O Oceano era o capitão – era um grande líder.

BnR: Nessa altura, tu, Sá Pinto e Dominguez são apelidados de “Os três Mosqueteiros”. Quem vos deu esta alcunha e porquê?

D: Acho que foi a imprensa. Na altura, o mediatismo estava a começar. Dentro e fora do campo já se começava a sentir o peso da atenção que a imprensa dava aos jogadores. Nós tínhamos uma relação ótima dentro do campo, e fora do campo ainda mais forte. Somos amigos até hoje. Acabámos por fazer algumas coisas que não eram o normal na altura, situações que foram exacerbadas, em que disseram coisas sem sentido. Tentámos sempre fazer o melhor para a sociedade, para o clube, para nós e para a evolução do jogador de futebol, para aquilo que o jogador pode representar na sociedade. Mas algumas coisas não foram vistas da melhor maneira. Desde há uns anos, o jogador de futebol não é só aquilo que faz dentro de campo. Nós apanhámos essa transição de o jogador ser só o jogador e mais nada para aquilo que começou a representar depois.