Tem um gosto especial pelo exotismo e pela experiência. Para ele, treinar na China ou fazer uma pausa na carreira não é um passo atrás, mas sim uma forma de crescer. André Villas Boas mexeu com o mundo do futebol ao ser o mais jovem treinador da história a ganhar uma competição europeia. Com passagens por FC Porto, Chelsea, Tottenham ou Zenit, o treinador português regressou a Portugal para a Web Summit e falou connosco sobre o presente e o futuro: do seu regresso, do sonho japonês ou da paixão pelos motores.

Bola na Rede (BnR): Já passaram sete anos desde que abandonou o futebol português como treinador. Quais as principais diferenças que encontra de então para agora?

André Villas Boas (AVB): Como estive no estrangeiro tantos anos, não é fácil fazer um resumo das mudanças que estão a ser feitas no futebol português. Acho que a Liga mudou para melhor, está mais bem organizada; a Seleção também, em consequência dos sucessos que tem tido nas competições, não só a Seleção A como também as jovens. Eu acho que a grande diferença que se nota no futebol português é o impacto cada vez maior dos media, um interesse diário dos media, uma série de novos programas desportivos orientados para o que se vive no futebol português…

BnR: E acha que esse maior interesse dos media ajudou a promover o nosso futebol?

AVB: De certa forma criou um ambiente mais hostil, para não falar em violento. Vieram aumentar um pouco a quantidade de controvérsias em torno do futebol português e penso que isso não era necessário. Mas esses programas existem para criar controvérsia e disputa e não a amigável competitividade que deviam ter os clubes entre si. De certa forma ajuda a propagar a mensagem do futebol português, mas seria melhor se fosse de uma forma positiva. Sendo da forma que está a ser, negativa, hostil e agressiva, não é positivo. A acrescentar a isso, a possibilidade de estarmos perante um grande escândalo de corrupção desportiva, que estará por provar, deixa também alguma mancha sobre estes últimos quatro ou cinco anos.

BnR: Olhando ainda para o nosso futebol: quais as maiores diferenças entre o futebol português e o futebol inglês? Dentro e fora das quatro linhas.

AVB:  No aspeto das estruturas de das competências, acho que o futebol português é superior. Os grandes clubes ingleses estão rodeados de estruturas que, na minha opinião, não têm a competência que têm as dos clubes portugueses, falando na minha experiência, por exemplo, que o FC Porto tem. Nesse aspeto estava à espera de mais. Obviamente que depois, no campo desportivo, não há comparação. Há maior competitividade, o ambiente que se vive nos estádios, a qualidade das equipas, dos jogadores e não se compara a expansão da mensagem do que é o futebol inglês e do que representa para o mundo.

André Villas Boas falou connosco na Web Summit, onde esteve a falar sobre os treinadores que nunca jogaram futebol
Fonte: Bola na Rede

BnR: Ainda olhando para o futebol, falemos de tecnologia, visto que estamos na Web Summit. Foi introduzido o VAR (vídeo-árbitro), não só em Portugal: vê isso como algo positivo para o futebol? Uma vez que a maior parte dos adeptos não o vê.

AVB: Eu vejo como uma boa decisão. Obviamente que a única coisa que não pode acontecer é o VAR não tomar bem as decisões que são óbvias. Ele existe para ser justo e para não deixar dúvidas e tem que funcionar. Existe uma coisa que eu mudaria: daria a cada clube a opção de usar apenas duas vezes a requisição do VAR e não ao árbitro, assim limitava-se a quantidade de vezes que o árbitro o requer e dava-se aos clubes a oportunidade de o usarem quando querem. Seria como no ténis, onde cada jogador só tem direito a requisitar a repetição três vezes. Uma coisa parecida penso que faria sentido, talvez uma por cada equipa, por parte. Mas acho positiva a introdução do VAR, não o retiraria, a única coisa que acrescentaria seria dar a oportunidade aos clubes de recorrerem a ele quando se sentem lesados.

BnR: Ontem falou dos treinadores portugueses e da “boa fornada” atual. Há algum em particular que, neste momento, lhe encha as medidas?

AVB: Eu acho que não podemos referir só um. Tudo começa num processo de aprendizagem a partir de 2003/04 com José Mourinho. Este começou a gerar uma vaga de treinadores e uma vontade nas pessoas que quererem ser treinadores profissionais, sem passar sequer pela carreira desportiva, pois normalmente estão ligadas à carreira desportiva, à educação física, ao futebol. A era de José Mourinho foi um marco e a partir daí penso que temos uma série de bons treinadores. É uma geração muito boa que vai desde Leonardo Jardim ao Marco Silva, passando por Nuno Espírito Santo e Paulo Fonseca, por aí fora. O treinador português é um treinador que facilmente se adapta a outras culturas – tem flexibilidade de aprendizagem de novas línguas, o que emite um pouco a nossa cultura de conquistadores dos séculos XIV e XV: chegam e vencem, conseguem implementar as suas ideias, e acho que isso é positivo, tem mercados em todo o mundo. Acho que merecemos esse destaque enquanto escola de treinadores.

«o VÍDEO-ÁRBITRO DEVIA SER PEDIDO PELAS EQUIPAS, COMO SE FAZ NO TÉNIS. TALVEZ UMA REQUISIÇÃO POR EQUIPA, POR PARTE»

BnR: Nos últimos anos têm sido formados e têm saído muitos bons jovens de Portugal. Isso poderá estar relacionado com a qualidade dos treinadores também?

AVB: Sim, com a qualidade do treino, tanto nas camadas jovens como nas seleções. Pelo menos para um país tão pequeno continuamos a gerar talento suficiente para continuar a alimentar as nossas seleções e os nossos clubes. O salto mais dificil será sempre o das camadas jovens para o plantel principal. Acho que nesse aspeto o Benfica e o Sporting têm dado mais oportunidades aos jovens de o FC Porto. O Porto continua a pecar nesse aspeto, mas tivemos recentemente a saída do Diogo Dalot, que é escola FC Porto, para o Manchester United. O mais importante para nós é continuar a formar esses talentos, eles existem e existem também porque a qualidade de treino é superior.

BnR: Compreendo aquilo que está dizer mas no caso dos três grandes, do FC Porto, do SL Benfica e do Sporting CP, não será mais importante “ganhar títulos” do que apostar nos jovens?

AVB: Eu acho que faz tudo parte. Os clubes portugueses, especialmente os três grandes, estão o todos numa situação financeira caótica, portanto neste momento precisam também de promover as suas estruturas de scouting para apostar de forma certa e para poderem ter rendimento e vender. Portanto, serão sempre, infelizmente, clubes vendedores. Felizmente para nós, recentemente, ainda se tem conseguido sucesso europeu, no caso do FC Porto em 2011. Mas eu acho que não podem nem devem viver sem os jovens porque o que está em causa aqui é a viabilidade financeira dos clubes para o futuro e os clubes portugueses não podem viver com passivos de 500 milhões de euros, porque não gerem receitas suficientes. Infelizmente esse desequilíbrio pode notar-se nas gerações futuras e espero que se note com uma aposta mais forte nos jovens. Os treinadores temos, as estruturas temos, os quadros competitivos já temos – não há noutros países quadros competitivos como os nossos -, competências também. O salto mais difícil é sempre esse do jovem para o plantel principal, portanto espero que haja mais aposta nesse sentido.

BnR: Pegando nas diferenças financeiras, olhemos para Superliga Europeia: tem-se falado na sua criação e parece que até ao momento não se pensa em nenhum clube português como participante. Acha que seria algo benéfico para o futebol termos algum clube português na competição?

BnR: A criação desses e de outros projetos, até mesmo o final da Taça das Taças e a criação das Liga dos Campeões, acaba por tornar cada vez mais o futebol-espetáculo em futebol-negócio.

AVB: Sim, mas isso, infelizmente, já é assim. O futebol já não passa disso. O que liga as pessoas ao jogo são as emoções. O mais puro que há no jogo é a paixão que nos abrange desde nascença por algum clube, através da nossa família, dos valores e dos gostos que nos são passados pelos nossos familiares ou até mais tarde, quando nos tornamos sócios e temos uma empatia por um determinado clube. Temos empatia pelo desporto e depois mais tarde por um determinado clube e tornamo-nos fãs e adeptos dele. Esse purismo tem que ser defendido, não se deve perder. Agora que o futebol é uma arma de negócio, isso é, já ninguém tem dúvidas. Infelizmente é a realidade com a qual nos deparamos. Repare que o perfil do dirigente de futebol em Portugal continua ligado a um certo padrão de eleição, é um presidente eleito. No futebol inglês são proprietários. O perfil dos gestores e dos executivos mudou para pessoas que  são extravagantes, são bilionários que acabam por ter acesso à compra de clubes e com eles vem investimento e vem ideias de resultados a short term, exigências extravagantes e isso muda muito o perfil e a postura do adepto para com o clube e muda bastante a forma como as pessoas passam a olhar para o futebol.

BnR: E qual deve ser o papel da FIFA e da UEFA nesse sentido?

AVB: Eu acho que cabe à FIFA e UEFA defender o purismo do futebol. O único problema é que tanto a FIFA como a UEFA, como sabemos, estão envolvidas em escândalos de corrupção. Infelizmente são as sociedades em que nós vivemos, são sociedades corruptas. A única coisa que espero é que se continue a fazer uma limpeza do que não está bem para que o purismo que é o amor da criança e do adulto pelo seu clube se mantenha.

BnR: O André deixou o futebol como treinador há algum tempo e dedicou-se ao rali. Porquê os desportos motorizados?

AVB: Sabe que eu tenho uma paixão igual ao futebol que é o desporto automóvel, que está no sangue da minha família há mais anos. A minha família nunca foi uma família de futebol, bem pelo contrário, sempre foi mais ligada ao desporto automóvel e essa paixão sempre esteve presente em mim. A minha profissão é treinador de futebol, a minha grande paixão é o futebol. Mas neste meu ano sabático não fiz clichés e não posso dizer que “fui ver não sei quantos jogos” e “fui ver não sei quantos treinadores”. Isso é uma falácia à qual não me tenho que prestar. Divirto-me com as coisas de que gosto, neste caso o desporto automóvel.

BnR: E gostava de voltar aos grandes palcos como treinador de futebol?

BnR: Gostaria de treinar, preferencialmente, em que liga?

AVB: Eu sou um bocado extravagante nesse aspeto. Eu gostava muito, há muitos anos que tenho esta ideia, de treinar no Japão e espero que isso um dia aconteça, na seleção ou num clube. Espero e estou seguro que que o meu currículo me habilitará para treinar numa liga como a japonesa e a seleção japonesa. Não sei quando é que isso vai acontecer porque também tenho vontade de regressar à Europa. O meu futuro vai, seguramente, continuar no estrangeiro, entre a Europa ou mais virado para o Oriente, ainda não decidi. Tudo depende dos projetos que me são apresentados e da vontade que eu tenho de os aceitar.

BnR: Portanto, Portugal é uma porta fechada?

BnR: E se recebesse um convite para ser selecionador nacional? Aceitava de imediato?

AVB: Primeiro a seleção nacional está muito bem entregue. Mas sim, porque não? Nunca me foi proposto e nunca equacionei, mas porque não?

Foto de Capa: Bola na Rede

Entrevista realizada por: Joana Libertador e André Maia

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