– O respeitinho é muito bonito: de Vítor Damas a Manuel Fernandes –

“Porra, é um orgulho carregar a mala deste senhor!”

BnR: Para situar os leitores, falamos da época 84/85, na qual dividias o balneário com nomes míticos do clube leonino e do futebol português. Ainda sentes o latejar do “chapadão” de Vítor Damas quando cortaste aquela bola para o canto que deu golo do Bilbao?

Fernando Mendes: Aaai… Na altura, havia uma coisa que hoje em dia se perdeu um pouco… Nós, miúdos, que chegávamos a uma equipa como o Sporting, mesmo nas camadas jovens, cruzávamo-nos sistematicamente com a equipa A. Nós íamos treinar e eles iam a sair, ou da porta 10A, ou da 8A, e habituavas-te a ver os teus ídolos. Hoje não, os jogadores parecem estar num casulo. Lembro-me de ser juvenil, ver aquela linha avançada do Sporting: Manuel Fernandes, Rui Jordão e António Oliveira. Aquilo era uma coisa do outro mundo, vais-te habituando a ver aqueles jogadores e de um momento para o outro estás a vestir-te com eles. Em relação à história do Bilbao, foi um cruzamento do meu lado, só que não estava na lateral, estava mais para dentro. O Damas gritou “larga, larga, que é minha!” e eu não ouvi ou não quis saber e cabeceei a bola para canto. Entretanto, estou agarrado ao poste e pumba! (…) Hoje em dia é outra coisa que também não há: jogadores agarrados ao poste e é curioso que há muitos golos por ali. Se calhar eram evitados por jogadores naquela posição.

BnR: Atualmente, faz-se mais “zona”.

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Fernando Mendes: Pois, agora são essas mariquices todas. Ah, e outra coisa: as balizas antigamente eram de ferro e eu lembro-me de, por não ser alto, estar com as mãos nas redes para me empoleirar nelas e subir caso fosse preciso. Estava com a cara encostada ao poste, o canto é batido e o Julio Salinas marca. Nessa altura, lembro-me de levar assim com uma luva na cara e bater com ela no poste ao qual estava encostado. Mas repara, são coisas do momento e acabam por passar. Atenção: o Damas era fantástico e um grande guarda-redes!

BnR: O serviço de estafeta das malas do Damas no aeroporto foi antes ou depois desse episódio?

Fernando Mendes: Foi depois, foi depois! Isso foi na minha primeira digressão, era o João Rocha o presidente. Fomos fazer uns jogos fora para ganhar algum dinheiro… Antigamente fazia-se muito isso.

BnR: Aos Estados Unidos?

Fernando Mendes: Exato. O João Rocha tinha lá dois ou três canais de televisão e alguns conhecimentos. Lembro-me de estar a sair do autocarro antigo – ainda era o Viegas o motorista, que se reformou passados uns quarenta anos [risos] – com o Manuel Marques [ex-massagista do Sporting] em direção à porta de embarque e o Damas virou-se para mim e perguntou-me para onde é que eu ia. Respondi-lhe que ia para o avião e ele disse-me “Ai vais? Então vais, mas levas a minha malinha”. Então lá tive de ir com a mala do senhor Vítor Damas e ele todo elegante. Mas sabes uma coisa? Não sei se era uma praxe ou não, mas aceitavas aquilo com um gosto tremendo. Lembro-me de pensar “Porra, é um orgulho carregar a mala deste senhor!” e ficava muito contente.

BnR: As botas também eram os mais novos que as “batiam”, antes dos seniores as estrearem.

Fernando Mendes: Certo. Nos juniores e nos juvenis acontecia muito. Hoje em dia calças umas novas e nem sentes, antes andavas uns três ou quatro dias a “bater” as botas nos campos para depois os craques ao domingo irem jogar sem dores.

BnR: Para compensar, o Manuel Fernandes dava-te boleia diariamente para os treinos…

Fernando Mendes: Tive sorte também porque, quando voltei para a casa dos meus pais no meu primeiro ano de sénior, o Manuel Fernandes – que também é uma pessoa fantástica – dava-me boleia, porque morávamos relativamente perto, o que facilitou a minha adaptação e integração, uma vez que ia e vinha todos os dias com o capitão, com o grande cérebro daquela equipa. Mas havia uma coisa: muito respeito!

BnR: Ao serviço do Sporting, conquistaste “apenas” uma Supertaça, mas estiveste presente em tantos outros marcos históricos, como o jogo do 7-1. Que explicação tens para o que aconteceu?

Fernando Mendes: Para já é um jogo que fica na história. É um jogo que penso que dificilmente irá repetir-se… São coisas que acontecem e o jogo nem tinha começado bem para nós: salvo erro, penso que marcámos primeiro, mas o Benfica reduz pelo Wando. A partir daí, e de um momento para o outro, até porque o jogo não estava fácil, começámos a fazer golos e nunca mais parou. Se do nosso lado se viu uma equipa confiante, sempre à procura de mais, do lado do Benfica via-se uma equipa de grandes jogadores – o Silvino, o Veloso, o Carlos Manuel, o Diamantino, o Rui Águas… Enfim, aquela equipa era quase a seleção nacional -, mas completamente arrasados, sem reação alguma. Estavam mortinhos que o jogo acabasse, nós insistimos e não foram mais porque o jogo acabou. Apesar de não nos ter valido de muito [o Benfica acaba por ser campeão nacional], é um momento histórico: 14 de dezembro de 1986.

BnR: Para fechar o capítulo Sporting, porque é que aquele golo do Mário, no prolongamento frente ao FC Porto nas meias-finais da Taça de Portugal, foi o momento que mais te marcou de leão ao peito?

Fernando Mendes: Infelizmente, o Sporting é um clube que nunca conseguiu conquistar muitos títulos e dificilmente, naquela época, nos conseguíamos bater com aquela equipa fantástica do FC Porto campeão europeu. Raramente perdiam e nós conseguimos eliminá-los e passar à final. Com os problemas que o Sporting atravessava na altura, a possibilidade de conquistar um troféu ou de ficar mais perto do objetivo final era coisa rara e ainda se transporta para os dias de hoje.