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Nascido e criado no Montijo, Fernando Manuel Antunes Mendes mudou-se para Alvalade ainda menino e moço, onde se fez jogador. De discurso franco e contagiante, revisitou com o Bola na Rede uma carreira longa e recheada de peripécias dignas da Divina Comédia: no Benfica viveu o Inferno, no Belenenses passou pelo Purgatório e acabou no Paraíso das Antas, sem esquecer a raça boavisteira. Na Amadora não teve a Estrela que viria a encontrar num Setúbal liderado por Jesus, a quem tece rasgados elogios.
– A bênção do king, a infância sacrificada e uma controversa ascensão –
“No futebol, a sorte de uns é o azar de outros”
BnR: Antes de iniciarmos a entrevista, quero agradecer-te por teres aceitado o nosso convite, Fernandes Mendes.
Fernando Mendes: [risos] Quando assinei pelo Benfica, o grande King, o grande Eusébio, não sabia bem o meu nome e chamava-me Fernandes Mendes. Era uma forma carinhosa de me tratar da parte dele.
BnR: “Até que enfim que o Benfica tem um grande extremo-esquerdo!”, disse-te Eusébio quando te viu jogar pela primeira vez. Se é verdade que te afirmaste como lateral, não é menos verdade que, naquele campo ao pé de casa da tua mãe e nos jogos pelo Cancela, jogavas a extremo, até o pai do Futre te atirar para a defesa.
Fernando Mendes: Exatamente! Quando era miúdo, havia aqui aqueles pequenos torneios entre o meu bairro – onde eu cresci e no qual a minha mãe continua a morar – e os outros à volta e fazíamos uma série de jogos naqueles “campitos” de areia com balizas feitas de calhaus grandes no chão, que era o que havia… E que faz falta hoje em dia, sabes? Perdeu-se aquele típico jogador de rua; havia muitos jogadores aqui [no Montijo], sobretudo nos anos 80… A Margem Sul era um alimentador de jogadores para as camadas jovens do Benfica, do Sporting, do Belenenses… E eu jogava a extremo-esquerdo, até que com dez ou onze anos comecei a jogar nessa equipa do Cancela e o pai do Futre pôs-me para trás. Eu era rápido, mas como extremo tinha mais dificuldade. Normalmente, nessa posição está-se mais marcado do que os laterais, levas com um jogador praticamente em cima, e ele pôs-me para trás e a partir daí fiz a minha carreira toda como lateral-esquerdo.
BnR: Naquelas coincidências que os deuses do futebol gostam de idealizar, nasces poucos meses depois do Mundial de 1966, competição na qual Eusébio se destacou com 9 golos. Natural do Montijo, mudas-te para o lar do jogador do antigo Estádio de Alvalade ainda adolescente. Para além do sonho, o que levaste contigo?
Fernando Mendes: Repara: na altura, não era uma situação fácil. Tive de abdicar de muitas coisas, porque antigamente havia uma dificuldade que atualmente não existe. Fui obrigado a deixar de estudar muito cedo [até surgir a opção de ir viver para o centro de estágio do Sporting]. Posso dizer-te que apanhava o barco das quatro horas no Montijo e acabava as aulas às três e meia; ia a correr da escola até ao terminal, porque a distância entre eles são para aí uns quatro quilómetros, e só havia barco de hora a hora ou de hora e meia em hora e meia. A viagem demorava uma hora e vinte – e eu miúdo, com 13 anos -, mas não acabava aí: o barco atracava no Terreiro do Paço e tinha de ir a correr até ao Rossio, para apanhar o metro até Entrecampos e de lá ia a correr até ao Estádio de Alvalade. Recordo-me que na primeira experiência que tive como miúdo nessa rotina fui logo assaltado.
BnR: Deixa-me adivinhar: roubaram-te um fio de ouro com um dentinho?
Fernando Mendes: Com o meu primeiro dente! Antigamente fazia-se muito isso: punha-se o primeiro dente a cair num fiozinho. Aconteceu-me isto na primeira vez que fui sozinho. Depois andei uma série de três ou quatro anos até haver a opção de ficar a viver no lar do jogador. Mas também estive lá pouco tempo, porque passados uns meses, quando comecei a treinar com os seniores, fui viver para a Quinta do Lambert com o Litos.
BnR: Antes da mudança para Lisboa, chegaste a dormir no cais quando perdias o último barco.
Fernando Mendes: Acontecia muitas vezes! O último barco era às dez horas – a alternativa era ir pelo Barreiro, mas ainda era mais longe! – e aconteceu umas quinze ou vinte vezes. E quando conseguia apanhar, chegava a casa tardíssimo. Havia outra dificuldade: muitas vezes também fiquei em Lisboa por causa do nevoeiro; o barco não arrancava enquanto não houvesse visibilidade suficiente e o meu pai também não conseguia atravessar a ponte para vir buscar-me.
BnR: Voltando ao velhinho Alvalade, pode dizer-se que estavas no lugar certo na hora certa quando o Romeu se lesionou?
Fernando Mendes: Antes de responder, deixa-me dizer que tenho uma relação fantástica com o Romeu, um ser humano fantástico! Não o desejo a ninguém, mas no futebol o azar de uns é a sorte de outros. Tive a felicidade de, quando subi a sénior, – o Romeu [que era o dono do lugar de lateral-esquerdo] teve uma lombalgia – o Manuel José me ter dado uma oportunidade, que agarrei.
BnR: Mas lembras-te do porquê de estares na bancada a assistir ao treino dos seniores quando isso aconteceu…
Fernando Mendes: Lembro-me. Fui suspenso dos juniores por um desaguisado com uma pessoa por quem também tenho um carinho enorme, o mister Fernando Tomé… Eu tinha o meu feitio… Foram duas situações seguidas: numa tive culpa e fiquei mesmo chateado – foi num jogo de juniores frente ao Vitória FC e quando fui substituído, pouco depois do intervalo, despi a camisola e mandei-a para o chão -, mas na outra não tive intenção, porque o que aconteceu, e foi aqui que começaram a surgir alguns problemas, foi que quando fui substituído – estávamos empatados ou a perder 1-0 -, para sair rápido de campo peguei na braçadeira e, para dá-la mais depressa ao meu colega, mandei-a e caiu no chão. Aquilo foi uma confusão tremenda, porque as pessoas pensavam que ainda tinha a ver com que se passara no jogo anterior. Acabou por ser a minha sorte, ter sido suspenso, porque foram tantas seguidas: foram essas duas, mais alguns problemas devido ao meu feitio – muitas delas com o diretor do departamento de futebol, o senhor Petronilho, e com o senhor Ferrão. Acabei por ter sorte, como estás a dizer, por estar a ver um treino da equipa A e faltar um jogador. A partir daí, comecei a treinar com a equipa principal e estreei-me, curiosamente, contra o Setúbal, frente ao qual tinha tido aquele problema nos juniores. Vencemos e o treinador já era o Pedro Gomes, que substituiu o Toshack.

– O respeitinho é muito bonito: de Vítor Damas a Manuel Fernandes –
“Porra, é um orgulho carregar a mala deste senhor!”
BnR: Para situar os leitores, falamos da época 84/85, na qual dividias o balneário com nomes míticos do clube leonino e do futebol português. Ainda sentes o latejar do “chapadão” de Vítor Damas quando cortaste aquela bola para o canto que deu golo do Bilbao?
Fernando Mendes: Aaai… Na altura, havia uma coisa que hoje em dia se perdeu um pouco… Nós, miúdos, que chegávamos a uma equipa como o Sporting, mesmo nas camadas jovens, cruzávamo-nos sistematicamente com a equipa A. Nós íamos treinar e eles iam a sair, ou da porta 10A, ou da 8A, e habituavas-te a ver os teus ídolos. Hoje não, os jogadores parecem estar num casulo. Lembro-me de ser juvenil, ver aquela linha avançada do Sporting: Manuel Fernandes, Rui Jordão e António Oliveira. Aquilo era uma coisa do outro mundo, vais-te habituando a ver aqueles jogadores e de um momento para o outro estás a vestir-te com eles. Em relação à história do Bilbao, foi um cruzamento do meu lado, só que não estava na lateral, estava mais para dentro. O Damas gritou “larga, larga, que é minha!” e eu não ouvi ou não quis saber e cabeceei a bola para canto. Entretanto, estou agarrado ao poste e pumba! (…) Hoje em dia é outra coisa que também não há: jogadores agarrados ao poste e é curioso que há muitos golos por ali. Se calhar eram evitados por jogadores naquela posição.
BnR: Atualmente, faz-se mais “zona”.
Fernando Mendes: Pois, agora são essas mariquices todas. Ah, e outra coisa: as balizas antigamente eram de ferro e eu lembro-me de, por não ser alto, estar com as mãos nas redes para me empoleirar nelas e subir caso fosse preciso. Estava com a cara encostada ao poste, o canto é batido e o Julio Salinas marca. Nessa altura, lembro-me de levar assim com uma luva na cara e bater com ela no poste ao qual estava encostado. Mas repara, são coisas do momento e acabam por passar. Atenção: o Damas era fantástico e um grande guarda-redes!
BnR: O serviço de estafeta das malas do Damas no aeroporto foi antes ou depois desse episódio?
Fernando Mendes: Foi depois, foi depois! Isso foi na minha primeira digressão, era o João Rocha o presidente. Fomos fazer uns jogos fora para ganhar algum dinheiro… Antigamente fazia-se muito isso.
BnR: Aos Estados Unidos?
Fernando Mendes: Exato. O João Rocha tinha lá dois ou três canais de televisão e alguns conhecimentos. Lembro-me de estar a sair do autocarro antigo – ainda era o Viegas o motorista, que se reformou passados uns quarenta anos [risos] – com o Manuel Marques [ex-massagista do Sporting] em direção à porta de embarque e o Damas virou-se para mim e perguntou-me para onde é que eu ia. Respondi-lhe que ia para o avião e ele disse-me “Ai vais? Então vais, mas levas a minha malinha”. Então lá tive de ir com a mala do senhor Vítor Damas e ele todo elegante. Mas sabes uma coisa? Não sei se era uma praxe ou não, mas aceitavas aquilo com um gosto tremendo. Lembro-me de pensar “Porra, é um orgulho carregar a mala deste senhor!” e ficava muito contente.
BnR: As botas também eram os mais novos que as “batiam”, antes dos seniores as estrearem.
Fernando Mendes: Certo. Nos juniores e nos juvenis acontecia muito. Hoje em dia calças umas novas e nem sentes, antes andavas uns três ou quatro dias a “bater” as botas nos campos para depois os craques ao domingo irem jogar sem dores.
BnR: Para compensar, o Manuel Fernandes dava-te boleia diariamente para os treinos…
Fernando Mendes: Tive sorte também porque, quando voltei para a casa dos meus pais no meu primeiro ano de sénior, o Manuel Fernandes – que também é uma pessoa fantástica – dava-me boleia, porque morávamos relativamente perto, o que facilitou a minha adaptação e integração, uma vez que ia e vinha todos os dias com o capitão, com o grande cérebro daquela equipa. Mas havia uma coisa: muito respeito!
BnR: Ao serviço do Sporting, conquistaste “apenas” uma Supertaça, mas estiveste presente em tantos outros marcos históricos, como o jogo do 7-1. Que explicação tens para o que aconteceu?
Fernando Mendes: Para já é um jogo que fica na história. É um jogo que penso que dificilmente irá repetir-se… São coisas que acontecem e o jogo nem tinha começado bem para nós: salvo erro, penso que marcámos primeiro, mas o Benfica reduz pelo Wando. A partir daí, e de um momento para o outro, até porque o jogo não estava fácil, começámos a fazer golos e nunca mais parou. Se do nosso lado se viu uma equipa confiante, sempre à procura de mais, do lado do Benfica via-se uma equipa de grandes jogadores – o Silvino, o Veloso, o Carlos Manuel, o Diamantino, o Rui Águas… Enfim, aquela equipa era quase a seleção nacional -, mas completamente arrasados, sem reação alguma. Estavam mortinhos que o jogo acabasse, nós insistimos e não foram mais porque o jogo acabou. Apesar de não nos ter valido de muito [o Benfica acaba por ser campeão nacional], é um momento histórico: 14 de dezembro de 1986.
BnR: Para fechar o capítulo Sporting, porque é que aquele golo do Mário, no prolongamento frente ao FC Porto nas meias-finais da Taça de Portugal, foi o momento que mais te marcou de leão ao peito?
Fernando Mendes: Infelizmente, o Sporting é um clube que nunca conseguiu conquistar muitos títulos e dificilmente, naquela época, nos conseguíamos bater com aquela equipa fantástica do FC Porto campeão europeu. Raramente perdiam e nós conseguimos eliminá-los e passar à final. Com os problemas que o Sporting atravessava na altura, a possibilidade de conquistar um troféu ou de ficar mais perto do objetivo final era coisa rara e ainda se transporta para os dias de hoje.
– A transferência falhada para o Barcelona e o inferno da Luz –
“Tive a sensação de que só me tinham ido buscar para beliscar o Sporting”
BnR: Ficaste chateado com o Jorge Gonçalves pelo valor que pediu por ti ao Barcelona?
Fernando Mendes: Um milhão de contos! Só soube disso mais tarde. Recordo-me que fiz um jogo fantástico frente ao Barcelona em Alvalade – fiz 20 anos nesse dia (!) – e tive o 3-0 nos pés, não dei a bola ao lado e atirei por cima do Zubizarreta… A bola até ficou em cima da baliza! No lance seguinte, o Barça faz o 2-1 e fomos eliminados. Havia dois laterias-esquerdos naquela época, pelos quais tinha uma admiração tremenda: o Maldini e o Julio Alberto, também titular da seleção espanhola. O curioso é que quando o jogo acabou, pese, embora os balneários fossem em lados distintos, saíamos todos pela porta 10A, onde estava o leão, saí em simultâneo com os jogadores do Barcelona e, quando estão a entrar no autocarro, o Julio Alberto virou-se para mim e disse-me “Tu para o ano és jogador do Barça”. Fiquei contente de ter um jogador que idolatrava, mas não liguei muito. Mais tarde é que vim a saber que o Presidente tinha pedido aquele valor. Mais caro que o Maradona [risos]. Aquele jogo abriu-me muitas portas e, no final da temporada, vim a saber que o Inter de Milão, o Newcastle e clubes franceses também tinham perguntado por mim. Respondendo-te diretamente: não fiquei chateado, até porque tinha um carinho muito especial pelo Jorge Gonçalves.
BnR: Arrependes-te de ter ido ao Bairro Alto naquela noite em que, na casa da Leonor Pinhão e do João Botelho, tens conhecimento de que o Benfica tinha uma proposta para a tua contratação?
Fernando Mendes: Não me arrependo, porque conheci duas pessoas fantásticas. Aconteceu. Já não recebíamos no Sporting há muito tempo, estivemos oito meses sem receber, a situação não estava fácil e eu não previa um futuro muito risonho para o Sporting, falando claro. Não me arrependo de tê-los conhecido. De ir para o Benfica é outra história: se fosse hoje, não ia.
BnR: À parte os salários em atraso e a tua relação com Sousa-Cintra, receberes o triplo do que recebias no Sporting foi o fator que mais pesou na decisão de assinares pelo SL Benfica?
Fernando Mendes: Tudo pesou. E não foi o triplo, mas foi um bocado mais. A minha situação no Sporting estava a tornar-se insuportável e eu tomei uma decisão. Sou uma pessoa de palavra e, para mim, basta um aperto de mão. As assinaturas para mim são o consumar de uma decisão que eu tomei e já tinha dito às pessoas do Benfica que ia, não precisava de assinar nada. Em relação ao Sousa Cintra, já tinha tomado uma decisão: se o Jorge Gonçalves perdesse as eleições, eu saía do Sporting, mas nunca pensei que fosse para o Benfica, sinceramente. Havia outras soluções para continuar a minha carreira, mas também não saía do Sporting para um clube de menor dimensão. Não gostei das abordagens daqueles que viriam a ser os futuros dirigentes do Sporting, Sousa Cintra incluído, podia ter voltado atrás – tinha o contrato do Benfica na mão -, mas não o fiz.
BnR: É por essa altura que recebes o Renault?
Fernando Mendes: O Renault foi antes. Isso aconteceu quando renovei o contrato com o Sporting. O Jorge Gonçalves tinha feito um contrato com uma empresa de automóveis, a Savenauto em Sacavém, da Renault, para os jogadores que vinham do estrangeiro – veio o Silas, veio o Douglas, o Rodolfo Rofrigues, etc. – terem carro cá e eu também lhe pedi um. O curioso é que, quando subi a sénior, ganhava 40 contos por mês, quando passei a titular aumentaram-me para 120 contos e foi quando renovei, que ia receber 800 contos, que deixei de receber.

BnR: Pelo clube da Luz, em duas épocas, somas apenas 17 jogos. Acreditas que a tua contratação pelo Benfica foi somente com o intuito de enfraquecer o rival de Lisboa?
Fernando Mendes: Hoje, pensando friamente, foi para dar uma “bicada” ao Sporting. O Benfica na altura tinha o titular da seleção que era o Álvaro Magalhães, o Veloso, o Fonseca… E no ano que eu fui, ainda acabou por vir o Schwarz! As coisas não foram fáceis para mim e, como te disse, se fosse hoje não assinava. Tomo as decisões e raramente (…), já fiz tanta asneira, mas raramente me arrependo do que faço. Não está em causa o Benfica, atenção!
BnR: Existiu a “questão Eriksson”…
Fernando Mendes: Isso aí é outra história. Há mais a questão de ter assinado pelo Benfica – tive de andar escondido – e passado uma semana estar a treinar sozinho atrás da baliza. Pouco tempo depois de lá estar tive a sensação de que só me tinham ido buscar para beliscar o Sporting.
BnR: Mas nem tudo foi mau: acredito que tenha sido divertido dividir o balneário com três russos que tinham tanto de geniais dentro de campo, como de marotos fora dele.
Fernando Mendes: Yuran, Kulkov e Mostovoi! Acredita numa coisa: podem dizer o que quiserem, mas eram três pessoas fantásticas. Tinham as coisas deles, vinham de um país complicado e eram tempos diferentes. O Mostovoi raramente jogava, mas era craque. O Kulkov era o mais reservado. O Yuran tinha o feitio mais complicado, tinha a sua forma de ser e não aceitava qualquer coisa – às vezes estávamos a treinar e se ele não concordava com qualquer coisa, era pontapés por tudo o que houvesse à volta -, mas era um bom gajo! Quase todo o plantel tinha uma relação excelente com eles, apesar de não serem pessoas fáceis.
BnR: Pará-los é que também não era fácil.
Fernando Mendes: O Yuran era um animal. O Kulkov era o cérebro, tinha uma inteligência acima da média. O Mostovoi, curiosamente, teve poucas oportunidades e saiu daqui para o Celta de Vigo, tendo estado presente nos 7-0 e, a partir daí, começaram a reconhecer-lhe toda a sua qualidade.
– Antas ao fundo do túnel –
“Vou para o Rayo Vallecano”, respondi-lhe. “Rayo quê? Isso é onde? Mais vale ires jogar para o Chaves. Dou-te o mesmo dinheiro que os espanhóis e assinas pelo FC Porto”
BnR: Seguiu-se o Boavista, onde levantaste uma Taça de Portugal, e depois uma carambola de equipas, entre o clube do Bessa, o Estrela da Amadora e o Belenenses. Qual foi a principal diferença que sentiste entre atuar num “grande” por comparação com uma equipa com aspirações mais modestas?
Fernando Mendes: No Boavista não me custou muito e vou dizer-te o porquê: apanhei o Manuel José e sabia que estava emprestado, e que iria voltar; ainda por cima o Boavista é um clube à minha imagem. “Raçudos”, detestam perder e aquela imagem de marca de darem tudo em campo… Trabalhar e correr! Senti muita facilidade na adaptação e todo o ambiente que o Major [Valentim Loureiro] proporcionava… Nesse ano não senti essa mudança. Quando regresso ao Benfica e me vejo despachado de vez para o Estrela da Amadora… Aí sim! Não tenho, nem nunca tive, a mania que sou mais que os outros, mas estava habituado a estar no Sporting, no Benfica, e de um momento para o outro vejo-me a jogar no Estrela. E gostei (!) – tinha o João Alves e um grupo excelente -, mas se queres que seja o mais sincero contigo, passada para aí uma semana, senti que bati no fundo e que a minha carreira não ia passar dali. Tive várias oportunidades (…), chegando aqui, dificilmente melhora… Já tinha uns 25 ou 26 anos. Achava que não merecia aquilo, mas “é a vida e vamos continuar”.
BnR: Há ainda a história com o Valentim Loureiro e com o João Alves… Ao certo, o que é o Major te pediu?
Fernando Mendes: Ah, sim! Passados uns meses de assinar pelo Estrela, surgiu a hipótese de voltar ao Boavista e até acabei por ir, mas inicialmente o Estrela não me queria deixar sair. E qual foi a solução sugerida pelo Major? Arranjar confusão com o João Alves – que era um treinador fantástico e que mais tarde viria a encontrá-lo -, indo para os jornais dizer mal dele. Até que um dia o João chamou-me ao balneário e disse: “Oh menino, anda cá. Escusas de andar com estas tretas todas, porque eu sei quem é que te está a mandar fazer isto, porque se quiseres sair daqui, eles é que têm de vir falar connosco”. Acabei por ir para o Boavista e foi uma época terrível para mim.
BnR: Na senda das histórias com presidentes argutos, peço-te para com os seguintes três nomes, reconstruíres a tua chegada ao FC Porto: Pinto da Costa, Rayo Vallecano e Casino de Espinho.
Fernando Mendes: Isso foi quando fui para o Porto! No final da minha segunda época no Boavista, o João Alves, que estava no Belenenses, soube que eu estava na lista de dispensas do Manuel José – algo que nunca pensei. Então não é que o treinador de quem eu tinha ido dizer mal para os jornais é a primeira pessoa a ligar-me, juntamente com o Pietra, a convidar-me para o Belenenses? E foi no Restelo que fiz uma das melhores épocas da minha carreira, abrindo-me as portas de outros clubes. Só que o Belenenses, embora tivéssemos uma equipa excelente, também era um clube complicado, porque estivemos vários meses sem receber. No final dessa época, começaram a aparecer vários clubes: o Salamanca, para onde foi o João Alves, o Rayo Vallecano, o Brugge… E eu tinha de decidir a minha vida. Tinha 29 anos e tinha de ganhar algum dinheirinho para a minha vida. Optei pelo Rayo, porque as condições eram muito boas e estava mais perto do que se fosse para o Salamanca, clube para o qual o Belenenses queria vender-me. Mas quando fui ver o estádio, aquela zona, fiquei um bocado atordoado e aquele bairro [Vallecas] (…), parecia que estava no Casal Ventoso, sinceramente… “Meu Deus do Céu, onde é que vim cair?”. Entretanto, havia um problema: o Belenenses precisava desesperadamente do dinheiro da minha venda e o Rayo Vallecano ia pagar os 120 mil contos por mim em duas ou três prestações. Então o Belenenses foi pedir conselhos à Liga e o Presidente da Liga era o Jorge Nuno Pinto da Costa. No final da época, quando já estava quase tudo tratado com o Rayo, tinha de ir a Espinho receber o troféu do Público para melhor lateral-esquerdo da época. Saio de Lisboa com o Porfírio, que também ia receber o prémio de melhor extremo-esquerdo do ano, mas quando chego ao Porto tenho o Jorge Gomes à minha espera no aeroporto e eu assim: “Mas o que é que você está aqui a fazer?”. “Temos de ir ali falar com umas pessoas primeiro”, respondeu-me. O Porfírio foi andando para o casino e a mim meteram-me num carro, e só parámos no Estádio das Antas. Entrámos por uma porta do campo de treinos antigo, subimos umas escadas e quando entro na sala estavam o Pinto da Costa – fantástico (!), muito acima destas pessoas todas que andam agora por aí -, o Reinaldo Teles, o João Alves e o Presidente do Belenenses. “Mas o que é que estou aqui a fazer?”, perguntei. “O Pinto da Costa quer falar contigo”. Eu já tinha assinado o contrato com o Rayo, numa daquelas folhas A4 azuis… “Então vais jogar para onde?”, perguntou-me o Pinto da Costa, como se não soubesse, enquanto que da sala onde estávamos conseguíamos ver um corredor onde estava um homem para trás e para a frente: mais tarde vim a saber que era o diretor-financeiro do Rayo. “Vou para o Rayo Vallecano”, respondi-lhe. “Rayo quê? Isso é onde? Mais vale ires jogar para o Chaves. Dou-te o mesmo dinheiro que os espanhóis e assinas pelo FC Porto”. Pensei que estavam a brincar comigo. Assinei ali o contrato. Acredita numa coisa: estás a falar com o Pinto da Costa e não és capaz de dizer que não. É impressionante. Ele tem uma forma de te dar a volta e falar contigo… Digo-te pela alma do meu pai: ele já tinha o contrato todo preenchido, com o meu nome, com o nome dos meus pais, a minha morada, tudo! “E agora o que é que eu faço?”, ele agarra no contrato do Rayo Vallecano, rasgou aquilo tudo, meteu dentro de uma gaveta e respondeu-me: “Agora? Agora vais receber o prémio”. Foi a melhor escolha que fiz.

– Glória nacional: do FC Porto à Seleção –
“O Euro 1996 foi uma oportunidade que passou ao lado”
BnR: No FC Porto assumes-te, finalmente, como um jogador de topo e nas três épocas de azul-e-branco conquistas sempre dois troféus por temporada. No total somam-se três Campeonatos, duas Supertaças e uma Taça de Portugal. O que é que aquele FC Porto tinha que os demais não tinham?
Fernando Mendes: Uma organização acima da média e tínhamos uma equipa excelente! Quando cheguei já lá estavam o Aloísio, o Jorge Costa, o Paulinho Santos, o Rui Barros, o Jardel… Era extraordinário saberes que estás a jogar e que vais conseguir conquistar algo. Isto não apanhei em mais nenhum clube. E depois toda a envolvência que há à volta daquele símbolo, os próprios adeptos… Felizmente só os apanhei uma vez de mau humor: quando perdemos para a Taça de Portugal, em casa, com o Torreense. Aquela estrutura não te deixa faltar nada e quando lá estás preocupas-te apenas em jogar futebol, porque fora de campo está tudo tratado. Se as pessoas são boas contigo, tens de morrer por aquela gente.
BnR: Há aquela queda da tua filha, perto do campo do Ramaldense…
Fernando Mendes: Era disso que te falava! A miúda mais nova caiu e eu não soube de nada. Estava em estágio e só me disseram quando acabou o jogo: “Houve este problema, mas fica descansado, porque tratámos de tudo”. A minha ex-mulher ligou ao Reinaldo Teles e levaram-na ao hospital, fizeram radiografias e passado uma hora já estava em casa. Ficas agradecido para o resto da vida.
BnR: É também no Porto que registas a patente dos livres diretos em teu nome.
Fernando Mendes: Nos outros clubes, tirando o Belenenses, não me deixavam bater. Tive a felicidade de nos dois primeiros livres que marquei, terem dado golo. Foi no Bessa, ganhámos 2-0. No primeiro golo, pedi ao Rui Jorge para me deixar bater; passados cinco minutos, livre outra vez, e o Rui Jorge deu-me a bola, quando ainda havia o Zahovic, o Barroso… Depois ainda fiz mais uns quatro ou cinco seguidos, tive uma eficácia quase de 100%.
BnR: Esperavas ter estado no Euro 2000?
Fernando Mendes: No Euro 2000 não, porque já tinha 33 anos. No Euro 1996, sim. Quando fui para o Porto esperava. Foi no final daquela época do Belenenses e fui pré-convocado. Curiosamente, era o António Oliveira o selecionador e quinze dias depois estava a treinar-me. Fiquei um pouco desiludido, porque acho que merecia, mas também estava lá o Paulinho Santos, o Dimas… Foi uma oportunidade que passou ao lado.
BnR: Corrige-me se estiver enganado: estreias-te pela seleção a 29 de outubro de 1988, no Estádio Nacional, frente à Suécia, e logo a titular. O hino português tem outro encanto desde o relvado?
Fernando Mendes: Isso foi logo depois do Mundial do México. Estreei-me quando aqueles jogadores deixaram de ir à seleção. Em relação à tua pergunta, é uma sensação diferente, porque estás a representar a tua nação – embora já tivesse tido essa experiência nas camadas jovens. De todo o modo, ainda para mais naquele momento delicado [pós-“caso Paula”], em que estavam todos com os olhos postos em nós, a responsabilidade de vestir aquela camisola era gigante e ouvir o hino dali não tem comparação com ouvir das bancadas.
– Os elogios a Jesus e a experiência nas claques –
“Jesus tem uma paixão tremenda pelo jogo e consegue transmiti-la aos jogadores”
BnR: De regresso ao nacional, que é bom, terminas a carreira num Vitória FC que tinha ao leme um treinador que já dava nas vistas pelo seu método de trabalho. Em que é que Jorge Jesus é diferente?
Fernando Mendes: Se tivesse apanhado o Jesus com 22 anos, estava pouco tempo no futebol português. A forma dele lidar com os jogadores não é fácil, o nível de exigência é diário e a pressão é constante. Outra coisa: os treinos eram muito dele; com a maior parte dos treinadores, os treinos são muito standard. Ali não: são situações criadas por ele para aplicar nos jogos. Fazes coisas até à exaustão. E isto vê-se nas suas equipas. Por exemplo, quando treinava o Benfica, trouxe os bloqueios do basquetebol; quantos golos é que o Benfica marcou assim? Até que passados dois ou três anos é que começaram a dizer que tinha de ser falta, pois ele consegue transportar coisas de outras modalidades para os treinos das suas equipas. É esgotante trabalhar com ele, mas como pessoa é top, cinco estrelas. Tem uma paixão tremenda pelo jogo e consegue transmiti-la aos jogadores.

BnR: Fizeste amigos no futebol?
Fernando Mendes: Fiz alguns, não muitos. Conhecidos fiz muitos.
BnR: Em 2016, capitaneaste a equipa de veteranos do Sporting CP. Ainda dás uns toques ou trocaste a bola pelas bandarilhas?
Fernando Mendes: [Risos] Por acaso gosto de corridas de touros, mas não sou um aficionado. Também sou de uma zona em que a existe muito essa tradição… A experiência nos veteranos foi durante algum tempo, numa fase muito complicada da minha vida, e fico-lhes eternamente agradecido. Atravessei uma fase muito crítica da minha vida e o ter ido para os veteranos ajudou-me a fugir de muita coisa, e a reencontrar o caminho para a vida. Mas jogar já não tenho paciência… Primeiro, porque fui operado ao tendão de Aquiles – uma lesão aos 50 anos e que nunca tive no futebol profissional – e depois, por força da atividade que tenho atualmente [comentador de futebol num canal de televisão], há muitas pessoas que me detestam e sempre que ia jogar passavam o jogo a insultar-me. Quando puder hei de voltar… Para as almoçaradas!
BnR: Mas continuas a ir com a tua mulher ver o Sporting ao estrangeiro?
Fernando Mendes: Quando tenho oportunidade! O último foi em Londres, frente ao Arsenal. Como muitas vezes comento os jogos em direto, é difícil. Mas nesse jogo com o Arsenal… Nunca tinha visto algo assim! Fiquei mesmo no meio da Juve Leo, por trás da baliza para onde o Sporting atacou na segunda parte. Saí do hotel, encontrámo-nos todos no metro e depois fomos a pé e em fila a cantar até ao Emirates. Nunca tinha tido essa experiência e foi fantástico.
BnR: Sentiste-te reconhecido pelos adeptos?
Fernando Mendes: Sim, até porque tenho muitos amigos nas claques. Isso é outra coisa que me deixa triste, tudo o que se está a passar, porque há lá pessoas fantásticas e fazem muita falta. Basta ires ver um jogo do Sporting, parece que estás num velório.
BnR: Se este vírus fosse um daqueles pombos contra os quais disparavas desde o balneário da antiga Luz, podíamos todos ficar tranquilos se fosse buscar a tua pressão de ar?
Fernando Mendes: De certeza absoluta! Se conseguia acertar numa placa pequenina que dizia “Treinador Principal”… Tomara que o mal fosse esse, para eu resolver isto com a minha pressão de ar.
Obrigado, Fernando.
Artigo revisto por Joana Mendes









