A época 2018/2019 marca uma nova etapa na vida do Carnide Clube: a equipa sénior feminina de basquetebol irá fazer a sua estreia na Liga Feminina, a principal divisão da modalidade em Portugal. Após ter conquistado a 1.ª Divisão, o Bola na Rede foi até ao Pavilhão Bairro Padre Cruz, casa do clube lisboeta com quase 100 anos de existência, assistir a um dos treinos de início de época, e falou com o treinador e jogadoras para auferir quais são as expetativas e ambições para este novo desafio.

O timoneiro da equipa, Luís Abreu, que conta com mais de 27 anos de ligação ao Basquetebol, prepara-se para o segundo ano à frente do Carnide (após regressar do Sporting CP), e defende que o seu “ADN como treinador goste de equipas agressivas, que corram o campo e dotadas taticamente”, e que tenta sempre durante uma semana de treinos haja um “equilíbrio entre aquilo que é o trabalho técnico e tático individual e a preparação do próximo adversário”, uma vez que a sua equipa treina apenas uma vez por dia e isso obriga a um bom planeamento antes de cada semana de treinos.

Quanto aos objetivos do clube lisboeta para este ano, o treinador é prático na sua resposta e afirma que “o objetivo é claramente a manutenção”, dado que o Carnide é “uma equipa jovem que está a entrar na Liga”, e o facto do clube que representa ser um histórico no Basquetebol admite que “traz uma responsabilidade acrescida”, mas o treinador tem confiança nas capacidades das suas jogadoras.

Em relação à existência de enormes disparidades entre o basquetebol feminino e masculino, Luís Abreu aponta uma lacuna ao nível da comunicação, afirmando que “falta uma estratégia e uma aposta clara dos meios de comunicação no basquetebol feminino, porque merece devido aos resultados alcançados pelo feminino que têm muito mais relevantes do que os verificados no masculino”, e essa mesma lacuna poderia ser através de uma “comunicação mais agressiva.

O treinador Luís Abreu está confiante para a nova época
Fonte: Bola na Rede/André Maia

A capitã de equipa, Catarina Campos, prepara-se para fazer a quinta época ao serviço do Carnide. Presente nas duas subidas de divisão anteriores, a jogadora diz que o facto de ser capitã não é “uma responsabilidade acrescida, pois temos um grupo que se ajuda mutuamente”, e também pelo simples facto de “gostar do trabalho de grupo e de lidar com as pessoas”, o que de certa forma se reflete na sua resposta quanto à importância da cooperação entre os elementos do grupo:”Nós tentamos sempre procurar o melhor de cada uma de nós e, às vezes, não tem de ser necessariamente dentro de campo, pois, tanto fora como dentro de campo, procuramos sempre contribuir para equipa”.

Quando desafiada a descrever a equipa numa palavra, a atleta opta por usar a expressão inglesa “Never Give Up” (“Nunca desistir” em português), uma vez que “na hora H” tivemos momentos muito difíceis em que as pessoas não acreditavam, e penso que só nós que lá estivemos e sabemos como foi e as dificuldades todas, que é normal todas as equipas terem, e quando chegámos ao campo e foi preciso, nós nunca desistimos”. Para a capitã, a subida à Liga feminina foi um “objetivo super conseguido“, e, sabendo do nível de exigência da principal divisão do basquetebol sénior feminino português, afirma que “não temos pressão nenhuma e nada a provar a ninguém, queremos manter nesta divisão, fazer o nosso melhor”, com a principal meta a passar pela manutenção.

No que diz respeito à desvalorização do basquetebol feminino, Catarina tem a perfeita noção que ainda existe um certo menosprezo por parte do público, e sustenta que todas as envolvidas no clube tentam “puxar muita gente, tanto rapazes como raparigas, para virem assistir aos nossos jogos e mostrar-lhes o que é o desporto feminino”, de forma a “atrair mais público e incutir-lhes o gosto em virem aos jogos” e, assim, mudar mentalidades.

A capitã Catarina Campos acredita na capacidade de superação do Carnide para fazer um bom campeonato
Fonte: Bola na Rede/André Maia

Uma das jogadoras que ajudou o Carnide a alcançar o título de campeã da 1.ª Divisão na época passada foi a Érica Baptista. A atleta que pode costuma jogar na posição 4, afirmou que se inspira em LeBron James, Rudy Fernández e Carlos Andrade para conseguir atingir boas prestações ao serviço da equipa lisboeta, sobretudo o último, em que confessou que “gostava bastante de ver jogos do Benfica para puder ver certos movimentos do Carlos Andrade, e tentar pôr em prática no campo, porque jogamos na mesma posição e gosto bastante da atitude que ele tem em campo”.

Ao falar do feito alcançado na época anterior, Érica revelou qual foi o segredo para a conquista do título: “O segredo foi a união e, talvez, a confiança. A época passada não foi fácil, e houve uma fase em que tivemos um mau resultado, se não me engano no penúltimo jogo antes dos play-offs, que era importante para determinar se ficávamos em primeiro lugar da fase regular ou não. Acabámos por perder, mas na segunda feira aparecemos todas no treino e permanecemos unidas e focadas com o mesmo objetivo que nos tinha sido “imposto” no início da época que era subida a liga e sermos campeãs”. Mesmo estando ciente do grau de dificuldade do desafio que o clube irá enfrentar este ano, a número 12 do Carnide acredita que é possível alcançar algo mais que o objetivo da manutenção: “Nada é impossível. Todas temos noção que o nível em que vamos jogar é bastante exigente, mas vamos trabalhar para termos bons resultados e estar entre as 8 melhores equipas para conseguirmos disputar, se possível, os play-offs”.

Por último, a jogadora constatou que uma dos papéis que desempenha em campo, além de ajudar o Carnide a conquistar bons resultados, passa por transmitir que existe qualidade e competitividade no basquetebol feminino, mas para isso é preciso que haja público a assistir aos jogos: “O nosso papel dentro de campo é entreter o telespectador o máximo possível. Mas não depende só de nós, pois podemos ser a melhor equipa, mas senão tivermos um bom público que consiga convidar amigos e amigos dos amigos para ver a nossa qualidade dentro de campo, não nos vale de muita coisa”.

Érica Baptista sonha com a ida do Carnide aos play-offs
Fonte: Bola na Rede/André Maia

Para atacar a nova época, o Carnide Clube reforçou-se com cinco atletas, numa mistura entre juventude e experiência. Uma das reforços é a Inês Faustino, que vem da A.D. Vagos e tem experiência a jogar pela seleção portuguesa, e juntou-se ao clube de forma a “poder conciliar o trabalho com o desporto”, e, para já, a primeira impressão é positiva: “É uma equipa jovem e que parece ter vontade em alcançar bons resultados, então acho que será um bom desafio para a minha carreira”.

As expetativas da base estão “de acordo com o objetivo traçado pela equipa, que é garantir a manutenção na Liga”, e Inês, através do seu estilo de jogo “mais de liderança e tentar ir buscar jogo para ajudar a equipa” e da sua experiência noutras equipas, pretende “ajudar as minhas colegas a evoluir, visto que é uma equipa jovem, e atingir o objetivo da manutenção, que é para isso que iremos trabalhar ao longo da época”. Como se trata de um novo clube, a jogadora terá de escolher um novo número para usar durante a época, mas a escolha já foi feita e tem uma explicação para essa escolha: “Na última época, usei o número 1 e essa época correu-me bem, então decidi que este ano seria interessante voltar a usar, daí que tenha “agarrado” esse número”.

Atendendo à problemática da desvalorização do basquetebol feminino, a basquetebolista sente que “em Portugal, o problema está muito no facto de ser feminino”, e defende que “devia dar-se mais valor ao desporto feminino no nosso país, e ainda para mais ao basquetebol feminino, que é onde se tem verificado melhores resultados”, pelo que, de acordo com o ponto de vista da jogadora, “quando tiverem consciência disso, algumas pessoas e empresas vão querer apoiar e ajudar, e a partir daí, será sempre a subir, ou seja, passa muito por mudar mentalidades”.

Inês Faustino pretende ajudar o Carnide a atingir o seu objetivo na Liga feminina
Fonte: Bola na Rede/André Maia

Tanto treinador como as atletas estão em sintonia em relação ao objetivo a ser alcançado, mas certamente a ambição é sempre em querer mais, e o histórico do clube prova isso mesmo, tanto que, em cinco épocas, a equipa sénior feminina garantiu três subidas de divisão, o que é um feito digno de assinalar.

Será que o Carnide poderá alcançar algo mais na época de estreia na Liga Feminina, além da manutenção? Só o tempo dirá se será uma “Estreia de Sonho”!

 

Queremos agradecer especialmente ao Coordenador do Carnide Clube, Telmo Botelho, por ter ajudado e facilitado na concretização desta reportagem.

Foto de Capa: Bola na Rede/André Maia

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