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O Bola na Rede sentou-se lado a lado com Paulo Bento, Domingos Paciência, José Couceiro, Ricardo Sá Pinto e muitos, muitos outros, no Fórum do Treinador em que se debateu o que às vezes falta debater no jornalismo desportivo: o futebol propriamente dito. Falou-se de lesões e das formas de as evitar, das experiências e virtudes dos treinadores portugueses que vão para o estrangeiro, da tecnologia e de como os treinadores a podem incorporar nas suas funções mas foi Ruben Jongkind, responsável pelo desenvolvimento de talentos da formação do Ajax, quem emprestou as mais interessantes ideias. Sobre a forma como é e como será a formação daqui em diante, o membro da estrutura do Ajax apresentou ideias como a divisão dos jovens em três grupos de desenvolvimento (Sub-7/Sub-12, Sub-13/Sub-16, Sub-17/Sub-21) ao invés dos escalões utilizados na Europa, a implementação de treinos na rua e de Futsal, para os sub-12 ou o acompanhamento aos jovens por três mentores, focando o desenvolvimento no individual ao invés do colectivo.

O Ajax sempre foi uma referência na formação. Provavelmente, dado os resultados apresentados, seria um dos clubes no mundo que menos necessidade teria de mudar. Mas, como todos aqueles que se querem manter no topo, o Ajax não se contenta com o sucesso passado e, ao olhar para dentro, altera e inova.

Os grupos de desenvolvimento

Ruben Jongkind surpreendeu ao apresentar uma nova forma de divisão sectorial: Sub-7/Sub-12, Sub-13/Sub-16, Sub-17/Sub-21 em vez dos escalões muito mais restritos que, por norma, não permitem a confluência de jovens com mais de dois anos de diferença. Qual o objectivo do Ajax? Promover às crianças estímulos competitivos maiores e dificuldades acrescidas. Em Portugal, Sporting, Benfica e Porto têm equipas infinitamente superiores às restantes (os resultados provam-no). Mas essa superioridade não estagna o desenvolvimento dos jovens? Não se tornariam melhores se competissem com equipas de um valor competitivo equivalente ao seu? Se pensarmos, as crianças que actuam nos grandes portugueses, no final de uma época… jogaram apenas 4x contra equipas de qualidade similar à sua. Se os jovens são promovidos aos escalões acima dos seus? Sim, claro. Mas, no caso do Ajax, essa promoção não acontece apenas para os dois ou três melhores jogadores, mas para todos. E não acontece apenas no momento de um jogo em específico, mas de forma regular.

Os treinos na rua e de Futsal

“Em Portugal é normal jogar em campos reduzidos. Na Holanda não. Estamos a mudar isso”. Se o Futsal é uma modalidade que predomina muito mais em Portugal e Espanha, comparativamente com os outros grandes países europeus futebolisticamente falando, também é verdade que cá não há o hábito de colocar jogadores de Futebol a praticar Futsal para o seu desenvolvimento. O benefício consiste em tentar inverter o cada vez menor tempo de prática em idades inferiores, visto que no futebol de rua ou no Futsal cada jogador tem um tempo de actividade directa (com bola ou, se sem ela, a disputá-la) muito superior ao Futebol de 7 ou, principalmente, ao de 11. Mais do que componentes tácticas ou físicas, em idades mais baixas os aspectos fundamentais a ser trabalhados são os técnicos, e nada há melhor para o desenvolvimento desses aspectos do que o tempo de prática. Nesse sentido, diz Ruben Jongkind, “há sempre um parque de estacionamento livre“. Para além disso, o Futsal e o Futebol na rua significam tornar cada vez mais rápido o raciocínio e a tomada de decisão, pela intensidade que o pouco espaço confere ao jogo.

Ruben Jongkind, no Fórum do Treinador Fonte: Facebook do Fórum do Treinador
Ruben Jongkind, no Fórum do Treinador
Fonte: Facebook do Fórum do Treinador

Os mentores 

Uma das ideias menos expectáveis terá sido a de que o foco do desenvolvimento nos jovens se centra no individual e não no colectivo. A razão, disse o holandês, é simples. “Um plantel inteiro nunca se estreou na equipa principal, chegam lá individualmente”. Por isso, o plano passa por colocar três profissionais, cada um na sua área predilecta, à volta do jogador e esperar que ele, desta forma, tenha todas as condições para não depender de factores externos que o possam prejudicar. Um treinador com quem se dá mal, por exemplo. Assim, os mentores têm um grupo de cerca de dez jogadores de diferentes idades (mas do mesmo grupo de desenvolvimento, conforme foi explicado anteriormente) e, uma vez por semana, orientam uma sessão de treino integrada pelos seus jovens… de diferentes idades. Outro dos objectivos e fundamentos é que “mais olhos analisam melhor” e, com vários mentores envolvidos, há uma maior capacidade de correcção de erros e de consequente evolução para os jogadores. No fim, tudo se trata de evolução. “A nossa forma de pensar mudou do ganhar para o desenvolver. Se o melhor jogador dos sub-17 deve ir aos sub-19, vai. Se perdemos, é igual. Chegámos a jogar com jogadores sub-15 na equipa sub-19”, encerrou Ruben Jongkind.

A alimentação de que a formação também precisa

Sobre a formação mas não só, o Ajax também planeia lançar os jogadores que não forma… ou que não forma desde início. Só no seu país, o clube de Amsterdão revelou que trabalha com mais de 40 equipas amadoras e 25 mil jogadores. Segundo diz, se “há menos peixe, tem de se pescar melhor”. O mesmo será dizer que, com o crescimento do scouting nos restantes clubes a coincidir com uma regressão do tempo de prática dos jovens, o Ajax tem de se aplicar para conseguir atrair os melhores jovens que ainda não estão nos maiores clubes holandeses. Para isso, o clube já sugeriu à federação holandesa aumentar as compensações aos clubes amadores em caso de transferências de forma a possibilitar a esses clubes condições que lhes permitam continuar a desenvolver bons talentos, mais tarde muito rentáveis para clubes como o Ajax ou PSV, mas que só o serão se desenvolvidos com qualidade na sua fase mais embrionária da formação.

Perante estas quatro questões fundamentais na formação do Ajax, uma das mais bem cotadas no mundo, resta a questão: e em Portugal, fariam sentido as mesmas medidas e a mesma linha de pensamento? Jongkind disse que em Portugal se olha mais para o resultado na formação e “que é uma forma de ver as coisas”. É a correcta? O tempo dirá se esta reformulação na academia do Ajax vai dar os seus frutos ou se não, mas o espírito inovador e a coragem para mudar terá de ser admitida aos dirigentes do Ajax que, sobretudo, não pretendem dormir nos louros passados.

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