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Com um palmarés invejável, o Atlético de Alcântara foi durante anos considerado o quatro grande do futebol português e conta com milhares de associados. Hoje disputa a segunda divisão nacional, mas quer reerguer-se e voltar a fazer do velhinho Estádio da Tapadinha o inferno de outrora.

Alcântara é, nos dias de hoje, umas das mais fascinantes regiões de Lisboa. A beleza tradicional das ruas, a genuinidade das pessoas faz-nos sentir seguros e alegres quando caminhamos por aquelas calçadas intermináveis. As conversas de café giram em torno de futebol e do clube da região. Por aqui não se veste de verde ou vermelho e branco, mas sim azul e amarelo, as cores do Atlético Clube de Portugal.

Corria o ano de 1942 quando dois clubes das freguesias vizinhas de Alcântara e Santo Amaro se fundiram para formar o Atlético. O União Foot-Ball Lisboa e o Carcavelinhos Football Clube eram clubes independentes, que, no entanto se deparavam com algumas dificuldades de sobrevivência ao mais alto nível, apesar de o Carcavelinhos se ter sagrado campeão de Portugal em 1928. A solução para a continuidade de ambos os clubes passava por uma união e daí advém a fundação do Atlético Clube de Portugal, no dia 18 de Setembro de 1942.

Os primeiros anos do clube foram os mais prósperos e gloriosos. A década de 40 foi de ouro para o clube de lisboeta que alcançou dois terceiros lugares no campeonato nacional e marcou presença em duas finais da Taça de Portugal. Numa época em que emergia o regime ditatorial em Portugal, os clubes de Lisboa dominavam o panorama desportivo nacional e o Atlético era considerado o terceiro grande do futebol português, equiparando-se a Benfica e Sporting. Quem presenciou alguns dos momentos mais incríveis da história do clube foi Vítor Gonçalves, 56 anos, adepto do Atlético desde sempre e funcionário da secretaria do clube há mais de vinte anos. “O meu pai era um adepto ferrenho do clube e viu aqui na Tapadinha os melhores momentos da história do Atlético. Fala-me das vitórias ao Sporting e ao Belenenses. Eu ainda sou do tempo em que o Atlético ganhava a qualquer equipa, onde quer que fosse jogar”, conta.

A maldição da ponte e um inferno chamado Tapadinha

Naquela altura, Alcântara era uma zona de muitas fábricas, o cerne industrial da cidade. Por lá abundavam inúmeras famílias de operários apaixonados por futebol e que todos os domingos enchiam o campo da Tapadinha para ver jogar os craques do Atlético. Foi assim durante décadas, até que decisões políticas contribuíram para a decadência do histórico lisboeta.

A construção da ponte 25 de Abril prejudicou muito o clube. Nem imagina o quanto”, conta Vítor Gonçalves, 56 anos, adepto do Atlético desde sempre e funcionário da secretaria do clube há mais de vinte anos. “Assim que começaram a construir a ponte as pessoas foram obrigadas a mudar-se e foram para regiões mais centrais da cidade. Ora esta zona de Alcântara perdeu muita gente e, o clube, muitos adeptos e apoios”, acrescenta.

De facto, o período de declínio corresponde à fase de construção e inauguração da denominada “Ponte de Salazar”, na década de sessenta. Por essa altura o Atlético Clube Portugal desceu de divisão por três vezes e perdeu muitas das suas pérolas como Germano, que se transferiu para o Benfica, um dos melhores clubes da Europa naquela altura. “O Germano era um defesa central fantástico, do melhor que o nosso futebol teve. Quem o viu jogar dizia que o Eusébio não passava por ele uma única vez. Quando foi para o Benfica, tornou-se o esteio daquela equipa bi-campeã europeia”, atira Vítor Gonçalves. “Acredito que o Germano tenha sido o melhor jogador que passou pelo Atlético”, acrescenta com toda a convicção.

A queda do Estado Novo e a proliferação dos regimes democráticos não abonaram em favor do clube. As fábricas e as famílias de operários que sustentavam o clube dispersaram para outros lugares mais atractivos e Alcântara foi ficando despida e o clube sofreu demasiado com isso. Os apoios camarários destinaram-se sobretudo aos clubes das elites, como Sporting e Benfica, que começaram a ganhar adeptos que até então apoiavam os clubes de bairro, como o Atlético. “Os apoios financeiros, sobretudo, foram quase todos para os clubes das elites. Apoios da Câmara, de empresas, de fábricas, patrocínios…era tudo para os grandes e clubes como o nosso foram caindo no esquecimento do poder”, salienta o Sr. Vítor, como é respeitosamente tratado para os lados da Tapadinha. “Mas engane-se quem que pense que o clube morreu ali. Mesmo perdendo alguns adeptos e jogadores, continuámos muito competitivos sobretudo aqui na Tapadinha”, reforça.

Quem se recorda perfeitamente destes tempos de inferno da Tapadinha é o alentejano António Carrasco, conhecido por Tó-Zé no mundo do futebol. “Estive quatro anos no Atlético e foram, provavelmente, os melhores da minha carreira. Recordo-me de ver o estádio sempre cheio e do ambiente incrível. Os chamados três grandes faziam das tripas coração para triunfar naquele estádio”, atira o ex-jogador do clube. Tó-Zé representou os alcantarenses durante quatro épocas, de 1975 a 1979, e fazia parte da última equipa do clube que esteve na Primeira Liga Portuguesa, há quase quarenta anos.

O Estádio da Tapadinha continua a receber a visita de vários adeptos Fonte: Atlético CP
O Estádio da Tapadinha continua a receber a visita de vários adeptos
Fonte: Atlético CP

O sucesso nas modalidades

Num país que respira futebol, é também o desporto-rei o mais apreciado pelos adeptos dos alcantarenses e aquele que é alvo de maior investimento por parte da direcção do clube. Ainda assim, a aposta nas modalidades tem sido feita de forma significativa e está a começar a surtir efeito. “Estivemos perto de atingir a Proliga no Basquetebol (primeiro escalão em Portugal) no passado e no futsal também estamos a fazer de tudo para regressar ao Primeira divisão. O Atlético não é só futebol”, aponta Vítor Gonçalves.

A rivalidade com o Belenenses… de Amália Rodrigues

O Atlético Clube de Portugal é, sem sombra de dúvidas, um clube especial e único no futebol português. Por entre tantas particularidades e incríveis histórias e feitos que preenchem os álbuns do clube de Alcântara, encontram-se dezenas de retratos e contos dos duelos com o eterno rival Clube de Futebol “Os Belenenses”. Por Lisboa são mais do que conhecidos os intensos duelos dos anos quarenta, cinquenta e sessenta disputados entre estes dois históricos clubes à beira-rio plantados. “A rivalidade dos clubes era tanta que as pessoas de Alcântara iam daqui até Belém com lençóis e cartazes para festejar as derrotas do Belenenses. E eles faziam-nos o mesmo. Recordo-me duma entrevista que a Amália Rodrigues deu em que dizia que era adepta do Belenenses porque o irmão era adepto do Atlético”, conta o Sr. Vítor.

Tanto na Tapadinha, como no Restelo a festa do futebol era elevada ao topo. Sejam quais fossem os intervenientes, a entrega e a intensidade eram nota dominante nestes derbys. “Eram sempre jogos muito fervorosos, mas sempre com respeito entre as equipas. Não havia agressividade, nem cenas menos próprias, quer dentro, quer fora de campo”, reforça. A cordialidade o respeito entre os clubes são ideias corroboradas por Tó-Zé, que recorda com saudade os clássicos contra o velho rival. “Esperávamos toda a época por esse jogo, era muito especial, tanto para nós como para os adeptos. Esta zona ribeirinha parava para assistir ao jogo e durante semanas esse era o tema dominante, até nos jornais da época”, conta o ex-jogador.

Sócios do melhor que há no mundo

A descida de divisão e a consequentemente manutenção do clube nos escalões secundários do futebol português durante todos estes anos afastou alguns adeptos e sócios do clube, porém são muitos (milhares) aqueles que continuam filiados ao clube do coração. Com mais de três mil sócios pagantes, o Atlético pode orgulhar-se de pertencer ao rol de clubes com mais associados da Liga de Honra, escalão em que a equipa participa actualmente. “Os nossos sócios são sobretudo pessoas mais velhas, habituadas a ver o melhor deste clube. Ainda assim temos adeptos de todo o lado. Há um casal espanhol que nos acompanha em quase todos os jogos do clube e temos sócios em Angola que nos vêem sempre que podem. Temos adeptos nos quatros cantos do mundo (risos)”, frisa o Sr. Vítor.

De facto, os adeptos do Atlético são conhecidos por serem exigentes com os seus jogadores. E o antigo treinador do Atlético António Pereira que o diga. “Em todos jogos há sempre ali um grupo de adeptos atrás de mim a pedirem o máximo dos jogadores e a queixarem-se dos erros que a equipa comete. E isso é perfeitamente normal, sobretudo para estes adeptos que viram jogar neste Estádio grandes jogadores. Estão mal habituados…os tempos são outros”, conta o “mister Toni”. Depois de ter estado sete anos ao leme da equipa de futebol do Atlético CP, António Pereira é, ainda hoje, visto como um Deus pelos alcantarenses. Conseguiu estabelecer o clube no segundo patamar do futebol português e alcançou feitos inéditos ao comando do clube e, nos tempos em que era treinador, sempre acreditou na subida de divisão. “Acredito que com um pouco mais de investimento este clube consiga ascender à Primeira nos próximos anos. Este clube é especial e por isso os jogadores querem vir jogar para aqui.”, afirma o antigo treinador do Atlético.

Da mesma opinião do que o mister, Vítor Gonçalves aposta numa subida nos próximos anos. “Acredito que dentro de pouco tempos estaremos no lugar que merecemos. O país e a cidade precisa do Atlético CP no topo do futebol nacional e capacidade não nos falta. Basta ver o que fizemos ao FC Porto há uns anos.”, atira.

O entusiasmo do funcionário do clube, que afirma ser só adepto do Atlético e não nutrir sequer alguma simpatia por outro clube, é referente ao brilharete que a equipa fez em 2007, numa eliminatória da Taça de Portugal, em pleno Estádio do Dragão. Naquela época, o clube disputava o terceiro escalão do futebol português quando venceu por 1-0 o campeão nacional FC Porto e eliminou os dragões da competição. “Pode dizer-se que esse foi o melhor momento da minha carreira de trinta anos enquanto treinador. Esse feito assumiu proporções que eu nunca imaginei. Quando saímos do Porto estavam duas equipas de reportagem dentro do autocarro e atrás de nós parecia uma excursão. Na Tapadinha havia mais de dez mil pessoas à espera…”, conta António Pereira. Para Vítor Gonçalves esse momento foi “único”, mas aponta todas as subidas de divisão e os sete títulos de campeão nacional da segunda e terceira divisão como os melhores momentos vividos enquanto sócio e funcionário dos alcantarenses.

O antigo treinador do Atlético acredita no sucesso do clube lisboeta Fonte: Atlético CP
O antigo treinador do Atlético acredita no sucesso do clube lisboeta
Fonte: Atlético CP

“O futebol de primeira precisa de clubes como o Atlético”

Estas são palavras de António Pereira, mas que trespassam para as bocas de Tó-Zé e de Vítor Gonçalves. Na mente de todos os alcantarenses está um futuro regresso do clube à Primeira Divisão e esperança não falta aos aficionados do Atlético Clube de Portugal. Confiança é mesmo a palavra de ordem para os lados da Tapadinha. Mas falta qualquer coisa…

O clube vive, como todos os outros, naturais dificuldades financeiras e num campeonato tão competitivo como a Segunda Liga é necessário investimento forte e muitos apoios para alcançar o sucesso. Sei que o futebol de primeira precisa de clubes como o Atlético”, admite António Pereira.

Por agora o clube luta pela manutenção no segundo escalão do futebol português e nas últimas épocas esse tem sido o principal objectivo do clube. Apesar de a situação atual não ser famosa (penúltimo lugar na II Liga), estão em marchas projectos para reerguer o histórico clube lisboeta. Vítor Gonçalves é um dos obreiros de um futuro projecto ambicioso e já imagina o clube do seu coração a jogar nos melhores palcos nacionais e mostra-se muito crente. “Acredito sinceramente que juntos, com o apoio dos sócios e o esforço de todos os atletas, vamos conseguir, um dia, alcançar o nosso grande objectivo que o regresso à Primeira Liga“.

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