Jeremy Mathieu: A Arte do Estatuto

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Quando foi colocado no radar de interesse do Sporting, os mais cépticos riram-se. Pareceu que nem a sua origem clubística impunha respeito, e embora não seja critério para garantir a qualidade futura, pode pelo menos defini-la e sustentar a sua concreta existência. No fundo, para se jogar uma vez no Barcelona é preciso ser-se bom. Eis uma Verdade Universal da História, e que esteve ao alcance de Jeremy Mathieu. O flanqueador que se fez central, usufruindo das suas competências físicas, secundarizando a sua velocidade, embora às vezes ela apareça para nos colocar o coração aos saltos.

Numa entrevista recente, o Treinador Vitor Oliveira – o especialista nas subidas das equipas da Segunda Liga Portuguesa – disse que para se ter uma equipa competitiva, era essencial uma grande dupla de defesas centrais. De certeza que Vitor Oliveira não foi o descobridor desta teoria, mas impressiona-me a sua habilidade para criar e inventar duplas de centrais, todos os anos, em equipas diferentes. Nas últimas épocas sempre me assustou a instabilidade defensiva do Sporting, e sempre me questionei se desta é que iríamos acertar na combinação perfeita. A chegada de Sebastián Coates tirou-nos um peso de cima e a Jorge Jesus também. Faltava o outro. Paulo Oliveira não conseguiu, Rúben Semedo esteve perto. Douglas não chegou a aparecer sequer. É natural que seja com alegria que eu e os restantes Sportinguistas constatamos que esta aventura pela busca do Central Perfeito pode estar a chegar ao fim.

Mathieu já conquistou as bancadas de Alvalade Fonte: Sporting CP
Mathieu já conquistou as bancadas de Alvalade
Fonte: Sporting CP

Quando a fase de negociações terminou, o gigante Francês chegou a Alcochete para fazer treinos à experiência. Era esta a condição para finalizar a contratação. Então os cépticos regressaram, outra vez rindo, como se um jogador do Barcelona viesse ao Sporting fazer treinos de captação, como se faz com as crianças que aspiram a ser futebolistas. Começava também a ronda de opiniões e apostas, que se dividiam entre a permanência ou a dispensa de Mathieu. Ganhou a primeira. A disponibilidade física existia, e o talento também. Tudo em consonância com os números que vinha registando na Catalunha: quase 100 jogos ao serviço do Barcelona e um currículo internacional invejável em todas as competições maiores no Futebol. As boas indicações na pré-época animaram e perspetivaram a garantia de uma titularidade cada vez mais indiscutível. Escrevi, num artigo relativamente recente, que parte do sucesso de Mathieu dependeria do seu entendimento com Sebastián Coates. Quero aproveitar, desde já, para agradecer a ambos por terem prestado atenção ao meu apelo, e ao dos restantes milhões de Sportinguistas.

Finalmente. Finalmente as coisas parecem estar a correr bem. Já havia uma certa saudade desta definição de Patronato Defensivo que qualquer grande equipa deve possuir. Ser Patrão de uma defesa é um estatuto tramado, muitas vezes porque obriga a ser Patrão de nós próprios, como acontece naqueles lances apertados que Mathieu resolve com calma e paciência, dando continuidade ao jogo como se pedisse para ficarmos tranquilos, porque está tudo resolvido e por aqui não passa nada. E nem todos os Centrais conseguem dizer-nos isto.

Foto de Capa: Sporting Clube de Portugal

Artigo revisto por: Beatriz Silva

Ricardo Gonçalves
Ricardo Gonçalves
Como uma célebre música diria, "eu tenho dois amores", com o desporto e a comunicação a ocuparem 50/50 do seu coração. Entusiasta confesso daquilo que é a alegria do futebol, promete transmitir-vos através de palavras as emoções que se sentem durante os 90 minutos (e além disso). Escreve sem acordo ortográfico

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