O depois do pendurar das chuteiras de futebol

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Há uma coisa particularmente cruel no futebol… um jogador sabe, desde o primeiro dia em que entra num relvado, que aquele momento vai acabar, só não sabe exatamente quando.

Durante anos, tudo gira à volta do jogo. Os treinos, as viagens, os balneários, os jogos ao fim de semana, as concentrações, as vitórias, as derrotas, as lesões, os contratos. E, de repente, chega um dia em que já não há treino no dia seguinte, não há convocatória, não há camisola à espera no balneário…

A nova época 2026/27 começou sem alguns nomes que, durante anos, fizeram parte da paisagem do futebol europeu. James Milner é talvez o exemplo mais simbólico. Aos 40 anos, depois de mais de duas décadas no futebol profissional, e de estabelecer o recorde de 658 jogos na Premier League, decidiu finalmente pendurar as chuteiras. Ashley Young também disse adeus, aos 40 anos, depois de uma carreira de 23 anos que passou por Watford, Aston Villa, Manchester United, Inter, Everton e Ipswich.

James Milner Jurgen Klopp Liverpool
Fonte: Liverpool FC

E não são os únicos. Sergio Busquets terminou a carreira profissional depois de duas temporadas no Inter Miami e, poucos meses depois, já encontrou uma nova forma de continuar ligado ao futebol, integrando a equipa técnica do Barça Atlètic enquanto inicia a formação para treinador.

Sergio Busquets Inter Miami
Fonte: Inter Miami CF

No entanto, a pergunta mais interessante não é propriamente quem se reforma, mas sim, o que acontece quando penduram as chuteiras.

Existe uma ideia romântica de que um futebolista termina a carreira e passa simplesmente para a reforma, quando, na realidade, para a maioria, a história está longe de acabar e, para muitos, começa uma das fases mais difíceis da vida.

A verdade é que o mundo de possibilidades para estes jogadores é imenso, e muitos sentem-se perdidos no início. Há os que se tornam treinadores, outros entram em equipas técnicas, scouting, direção desportiva ou formação. Há quem escolha a televisão e o comentário desportivo, invista em negócios, regresse aos estudos, crie projetos próprios ou quem simplesmente procure uma profissão completamente diferente.

O futebolista reformado continua a ser uma pessoa antes de continuar a ser um ex-jogador. E é precisamente esse o problema. Durante demasiado tempo o futebol preparou jogadores para serem futebolistas, mas não necessariamente para deixarem de o ser. A carreira futebolística é curta e a identidade pode ficar demasiado dependente dela, fazendo com que o processo seja doloroso de finalizar.

Quando alguém começa a jogar profissionalmente aos 17 ou 18 anos, pode passar 15 ou 20 anos a ouvir que é futebolista antes de, um dia, descobrir que já não sabe responder à pergunta “o que fazes?”.

Real Madrid jogadores
Fonte: Filipe Oliveira/Bola na Rede

Não é apenas uma mudança profissional, acaba por se tornar uma mudança de identidade também.

Felizmente, por um lado, há estudos e programas específicos dedicados precisamente a este problema. A FIFPRO (Federação Internacional das Associações de Futebolistas Profissionais) reconhece que apenas uma minoria dos jogadores consegue alcançar segurança financeira para toda a vida através do futebol, e defende a preparação para a carreira pós-futebol através de orientação profissional e educação.

Por isso, a preparação para o fim da carreira não deveria começar no último jogo, com emoções à flor da pele e o dia seguinte logo à porta. Aliás, o último ano de um jogador deveria ser também um ano de preparação para a vida seguinte. Não significa obrigá-lo a pensar constantemente na reforma enquanto ainda joga, mas começar a dar-lhe ferramentas como formação, orientação profissional, literacia financeira, acompanhamento psicológico, aconselhamento sobre novas carreiras e a possibilidade de experimentar outras áreas enquanto ainda existe a segurança do futebol. E os clubes devem ter esta preocupação e forma de ajudar.

Até porque ainda há ainda aqueles cuja carreira não termina porque escolheram.

Talvez seja por isso que algumas despedidas nos emocionam tanto. O adeus ao futebol é, no fundo, um adeus a uma versão de nós próprios. O adeus do jogador que passou milhares de horas a treinar, do jovem que um dia sonhou chegar à equipa principal, do homem que aprendeu a viver entre balneários, aeroportos e estádios.

O futebol tem de aprender a olhar para o jogador para lá dos 90 minutos. Porque uma carreira pode acabar ao apito final. Mas uma vida não. E, quando o estádio fica vazio e a camisola é guardada pela última vez, deveria existir sempre alguma coisa à espera.

Francisca Marafona Graça
Francisca Marafona Graça
A Francisca apaixonou-se pela bola ainda antes de saber andar. Vive o desporto como quem joga de primeira e escreve como quem faz um passe em profundidade. Licenciada e mestre em jornalismo, vibra com uma boa tática — seja no relvado ou no papel.

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