Brasil 0-3 Holanda: Sem ordem, sem progresso e sem terceiro

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O RESCALDO

Nunca pensaram os brasileiros estar tão longe do Maracanã no fim-de-semana de 12 e 13 de Julho de 2014. Fosse como fosse, depois da hecatombe da última terça-feira, diante da Alemanha, era aos anfitriões que competia receber a selecção holandesa (caída aos pés da Argentina, nas grandes penalidades) para, entre eles, discutir o pequeno consolo do último lugar do pódio do Mundial 2014.
Scolari mudou. Convictamente ou não, alterou seis pedras no onze inicial, mantendo o 4-2-3-1. Do lado holandês, destaque apenas para a alteração forçada produzida por Van Gaal: Sneijder (lesionado no aquecimento) deu o lugar a De Guzmán, com a Holanda no seu (in)característico 5-3-2.

Ainda alguns jogadores brasileiros secavam as últimas lágrimas originadas pela débâcle frente à equipa germânica e já David Luíz saltava com Robben e esquecia-se dele – o holandês pegou na mota, ultrapassou Thiago Silva e foi puxado. A dúvida: dentro ou fora da área? O árbitro Haïmoudi entendeu ter sido já dentro e assinalou penalty (e esqueceu-se de expulsar o capitão brasileiro). Van Persie não perdoou e tratou de adiantar a Holanda. 0-1 aos 3 minutos e os fantasmas a voltarem …

Se Scolari tinha um plano de jogo – talvez esteja a ser optimista –, este ruiu bem cedo. A Holanda ficou, desde logo, confortável no jogo. Sobretudo porque apresentou um meio-campo de grande qualidade, muito dinâmico e disponível: Wijnaldum, Clasie e De Guzman têm qualidade técnica, capacidade de ocupação dos espaços e poder de decisão. A este trio, junta-se Robben que, nesta Holanda, recua e pega na bola desde trás, comendo metros, e dando uma velocidade supersónica ao jogo da equipa. Atrás, com 3 ou com 5, a ‘Laranja’ manteve as marcações e referências individuais, num jogo do gato e do rato que, invariavelmente, levou de vencido; nos poucos momentos em que a marcação foi arrastada e a equipa aparentou desequilíbrio, logo surgiu uma compensação ou dobra.

Do outro lado, uma equipa que não o é. Um conjunto atabalhoado, que sobrevive à espera de um rasgo individual (antes com Neymar, hoje com Óscar) que possa estender a equipa e aproximá-la do golo. Sem conseguir ligar jogo – Scolari nunca resolveu o problema ao longo da competição e hoje ocuparam as posições no duplo pivot Paulinho, Luiz Gustavo, Hernanes, Fernandinho e também Ramires por lá passou –, a única diferença que a equipa demonstrou foi outra mobilidade ofensiva, fruto da troca de Fred por Jô. Curto, demasiado curto para todo e qualquer sonho.

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Van Persie assinou o seu quarto golo no Mundial’2014
Fonte: FIFA

Nestas bases, quando o golo de Blind surgiu, aos 16 minutos, esteve longe de ser uma surpresa. Aliás, foi mesmo uma dupla confirmação: a de que o Brasil estava, novamente, perdido em campo (emocional e tacticamente); e a de que David Luiz está muito longe de ser um central fiável e consistente. Blind, esse, não se fez rogado, e perante a oferta do ‘4’ da Canarinha, em pleno coração da área, voltou a bater Júlio César.

A partir de então, e com um 2-0 a seu favor, a Holanda resguardou-se mais e deu a iniciativa ao Brasil, sabendo que, fruto de todo o contexto, os espaços poderiam surgir e Robben ou Van Persie estariam prontos a não desperdiçar. Do outro lado, sentindo o aroma de déjà vu, Óscar pegou na batuta da equipa brasileira e tentou levá-la para a frente: com arrancadas, com dribles, com combinações curtas, com um remate perigoso (21’) e com um livre que quase deu golo (38’). De todo em todo, materializado em zero, quando o apito para o intervalo soou.

Com o reatamento do jogo, Scolari voltou a empreender modificação no meio-campo: saiu Luiz Gustavo e entrou Fernandinho. A equipa melhorou, de facto: subiu um pouco as linhas e tornou-se, sobretudo, mais proactiva, mais pressionante e buscando a bola de forma mais agressiva. Mesmo que depois, quando a tem, não saiba ao certo o que lhe fazer. Aliás, só isso pode explicar a contínua (e disparatada) insistência no passe longo e jogo directo à procura de explorar as costas da defesa holandesa – David Luiz foi o principal promotor desse modo de jogar que redundou em nada mais nada menos do que zero.

Ficando a Holanda mais na expectativa, o Brasil tinha supremacia na posse de bola mas poucas ideias, não conseguindo penetrar ou criar perigo, perante uma defesa que, dentro do seu estilo, apresentou-se sempre bastante coesa e solidária – neste aspecto, Vlaar voltou a ser um verdadeiro esteio na equipa de Van Gaal. A única excepção foi um remate de Ramires, à passagem do minuto 60, que quase deu golo.

Com o jogo a entrar no minuto 70, surgiram as substituições (Janmaat na vez de Blind; Hulk por troca com Ramires, já depois de Hernanes ter entrado para o lugar de Paulinho) e alguns lances mais delicados. Em qualquer uma das áreas, pareceu ter ficado um penalty por assinalar: primeiro por falta de Blind sobre Óscar, depois por carga de Fernandinho sobre Robben. Porém, numa altura em que o jogo se arrastava para o fim – e a agonia atingia limites extremos em Brasília –, já depois de muito Óscar ter tentado e de um remate perigoso de Hulk, haveria de ser a Holanda a dar a machadada final, através de uma jogada conduzida por Robben (esteve nos três golos), com assinatura de Janmaat e com emenda e conclusão de Wijnaldum. 0-3 aos 90+1.

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Para a História: Holanda é 3ª classificada no Mundial’2014.
Fonte: FIFA

Sem grande lamento de qualquer dos intervenientes, o apito final surgiria de seguida, momentos depois de Van Gaal ter dado a oportunidade ao 3º guarda-redes, Vorm, de pisar o palco da Copa (e de ter feito sair Clasie, por troca com Veltman). O resultado pode até ser exagerado mas o desequilíbrio do placard apenas confirma que a melhor (e mais organizada) equipa ficou no 3º posto. Um justo prémio para Van Gaal: um treinador perspicaz, calculista e previdente, que alimentou o sonho de uma Selecção que é hoje limitada em recursos e em quem ninguém se atreveria a apostar para 3ª classificada do Mundial do Brasil. Do Brasil de Scolari que viveu na ilusão e no desejo sem fundamento e cujos últimos dias foram apenas o mais duro choque com a realidade.

A Figura: 

Georginio Wijnaldum – Poderia surgir como impulso, dado ter sido da sua autoria o último golo do jogo. Longe disso! A bola que colocou na baliza de Júlio César foi apenas a recompensa por uma super exibição no meio campo da Holanda: quase sempre discreto mas sempre presente. Com qualidade de posicionamento, com capacidade de passe, com discernimento para a tomada da melhor decisão e com pulmão para a chegada à frente, foi um porto seguro. E só tem 23 anos.

O Fora-de-Jogo:

David Luiz – Depois do terrível jogo diante da Alemanha, a sua exibição de hoje foi, de novo, marcada por inúmeros erros. No 1º golo, Robben salta consigo no início da jogada mas depois dispara sem qualquer reacção ou sentido de posição do brasileiro; no 2º golo, literalmente faz uma assistência para Blind, num lance digno de central dos iniciados. Além destes, viveu períodos do jogo em que pareceu completamente desnorteado, fazendo passes de forma continuada sem qualquer nexo, e assinando aquelas suas incursões ofensivas que mais não são do que um convite à equipa adversária para atacar. Talvez a sua condição emocional, no momento, aconselhasse a não ter jogado.

Filipe Coelho
Filipe Coelho
Ao ritmo do Penta e enquanto via Jardel subir entre os centrais, o Filipe desenvolvia o gosto pela escrita. Apaixonou-se pelo Porto e ainda mais pelo jogo. Quando os três se juntam é artigo pela certa.                                                                                                                                                 O Filipe não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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