Wolfsburg e a glória de antigamente

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No atual panorama futebolístico, tem surgido um fenómeno, cada vez mais comum e que esta época se tem manifestado de formas surpreendentes. É seguro dizer que a qualidade média aumentou de tal forma que já nenhum clube está a salvo, excepto os tubarões do futebol mundial. Clubes bem estabelecidos, considerados já como “mobília” nas suas respectivas ligas têm ultrapassado momentos de grande aperto para se superiorizarem a rivais que, em outros tempos, não teriam capacidade de bater de igual para igual com estes emblemas. Há exemplos escandalosos de velhas glórias que sucumbiram ao passar dos anos pelos mais variados motivos, sejam eles desportivos sejam económicos.  

Em Portugal a lista é extensa e o leitor, com certeza, irá lembrar-se de alguns: Académica, Vitória FC e Boavista. Emblemas com uma massa adepta forte, com estádios que correspondem ao valor do clube, mas que, por uma razão ou por outra, não resistiram e encontram-se a lutar pela sobrevivência. Convém realçar a excelente recuperação da Académica. No estrangeiro, exemplos não faltam. Desde Sevilha, Tottenham e Leicester City, a lista é chocante.

O Wolfsburgo é o mais recente caso. O clube alemão encontra-se no 17.º lugar a três jornadas do fim da Bundesliga e a descida para o escalão inferior parece inevitável. A origem dos die wölfe escreve-se em poucas linhas com tudo a começar com um gigante da indústria automobilística que decidiu criar um clube de futebol. Em 1945, a Volkswagen fundou um clube de futebol, destinado aos operários da fábrica, que era essencial para a estabilidade da cidade de Wolfsburgo. O clube alemão sempre foi dependente da empresa alemã, daí algumas críticas à sua origem, podendo ser descrito como um produto fabricado por um gigante industrial para satisfazer os seus trabalhadores. Só a partir dos anos 90, é que o Wolfsburgo se conseguiu estabelecer na Bundesliga, tornando-se uma presença assídua no escalão principal. Não era um clube para voos altos, mas sim um clube de meia tabela, sem uma evolução aparente.

Acontece, então, a surpresa das surpresas e a razão do choque da descida do clube alemão. Em 2009, surge uma dupla que parou não só a Bundesliga, mas também a Europa. Edin Dzeko e Grafite eram a personificação de frieza, implacáveis e de domínio absoluto de uma liga que nunca foi fácil, dominada desde algum tempo pelo Bayern Munique. Ao todo, esta dupla faturou 54 golos, números impressionantes para uma equipa como o Wofsburgo, habituada à metade da tabela. Felix Magath foi o arquiteto desta conquista. Existia criatividade, equilíbrio tático e uma crença da conquista de um sonho considerado impossível de alcançar. 

O feito histórico poderia ter sido um ponto de viragem para o emblema alemão, acabou por não o ser. Mais tarde ou mais cedo, voltou tudo ao mesmo, com as peças-chave da equipa a saírem (Dzeko) ou a não conseguirem replicar o sucesso da época de glória. O Wolfsburg vive um clima de pouca consistência, com uma rotação anormal entre treinadores, impossível para a construção de um projeto sólido. Os momentos épicos do clube prendem-se a certos jogadores, joias numa equipa com falta de ambição. Kevin De Bruyne e Bas Dost juntaram-se a nomes incontornáveis entre a massa adepta com a conquista de uma Taça da Alemanha e de um segundo lugar. 

Um oásis num deserto de estabilidade que não durou muito. O Wolfsburg habituou-se à falsa estabilidade, sem ambições foi deixando o tempo passar, sem vontade de combater nem de evoluir. Preso a boas fases, a picos de felicidade, não representativos de uma fome de vencer e de chegar mais longe. Não deixa de ser surpreendente constatar que este fenómeno se repete noutras ligas, já referidas anteriormente no texto. Resta perceber de que forma poderá ser enfrentado e corrigido.

Pode-se culpar os treinadores, os jogadores e as estruturas que delas fazem parte, mas sem uma visão clara, sem uma cultura estabelecida com fome e ânsia de vencer é complicado ir longe. Não chega vencer uma vez e viver de glórias que não voltam. O futebol adapta-se e o Wolfsburg pode estar a descobri-lo da pior forma.

José Vale
José Vale
Estudante, 22 anos. Licenciado em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho. Atualmente em mestrado em Ciências da Comunicação com especialização em Jornalismo, na Universidade do Minho.

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