Publicidade

Com tranquilidade

Daniel Melo · 4 min

Com tranquilidade

Vê mais Bola na Rede no teu Discover Seguir no Google

Cabeçalho Liga Brasileira

Paulo Bento é o novo técnico do Cruzeiro e – dizem os cruzeirenses – já colocou a equipa a jogar melhor numa semana, do que o anterior treinador em vários meses. Exageros ou eufemismos para uma e outra parte, o certo é que os próprios jogadores, adeptos e jornalistas se mostram impressionados com o trabalho desenvolvido pelo ex-selecionador nacional e ex-treinador do Sporting. Já aqui escrevi nesta casa duas coisas: a primeira foi a de que o futebol brasileiro é o melhor do mundo; a segunda foi a de que o futebol brasileiro deixou de ser o melhor do mundo. A primeira foi escrita antes do Mundial 2014; a segunda, depois desse trágico mundial.

Efetivamente, o futebol brasileiro (infelizmente) deixou de ser o melhor. Antes tinha os melhores técnicos, os métodos mais avançados e as táticas mais ousadas e irreverentes. Introduziu uma coisa maravilhosa que foi aquilo que as modalidades de pavilhão sempre tiveram: ciência. Isto é, o treinador brasileiro era o melhor, porque estudava, porque estava na faculdade, porque sabia mais que os outros. Não era um futeboleiro qualquer que tinha dado apenas uns toques na bola e tinha experiência de balneário.

O futebol brasileiro parou no tempo, porque se acomodou. Não inovou. Como a Inglaterra, por exemplo, que soube perceber o marasmo em que se encontrava e começou a contratar estrangeiros. Sem comparar o poderio de um e de outro futebol – muito maior o do futebol brasileiro, entenda-se – os ingleses (na humilde opinião deste autor) apenas inventaram o jogo. O resto é folclore. Os estádios cheios, as transmissões televisivas, etc, advêm de um poder de compra grande. Apenas isso. Sim, porque não tenhamos dúvidas, tirem os estrangeiros da Premier League e aquele campeonato, apenas com ingleses, acaba de tanto fazer doer os olhos. Os ingleses são bons a ver os outros jogar.

Mas voltando ao Brasil, os dias de glória acabaram. Chegou o ocaso… penso que o Brasil só voltará a ser campeão do mundo se mudar radicalmente os seus métodos – longo prazo -, ou tiver nas suas fileiras um treinador estrangeiro – solução mais imediata. Mas conhecendo bem a sociedade brasileira, acho que esse dia demorará a chegar.

Não quero com isto dizer que o Brasileirão é fraco: desenganem-se. É talvez o campeonato mais competitivo do mundo, porquanto a rotação de campeões assim o consente. Tem grandes jogadores. Tem bons estádios e espetaculares torcidas, que fazem do futebol uma festa maravilhosa (quando não são levadas ao extremo, como às vezes, de modo infeliz, acontece!). Mas os seus jogadores não estão em campo com um objetivo tático. Estão para dar show, para dar cuecas e reviengas. Às vezes fazer uns golos… enquanto no Brasil for mais importante dar um lençol ao adversário dentro da área, do que manter o equilíbrio tático da equipa, a canarinha nunca mais vai voltar a ser campeã do mundo.

Sorrisos de Bento na conferência de imprensa antes do jogo com o Figueirense Fonte: Cruzeiro EC
Sorrisos de Bento na conferência de imprensa antes do jogo com o Figueirense
Fonte: Cruzeiro EC

Paulo Bento terá a difícil missão de vingar num clube que em 2013 e 2014 foi campeão brasileiro. A torcida celeste é muito exigente e ainda por cima o rival Atlético Mineiro está bem melhor que este Cruzeiro. Quer em termos organizativos, quer em soluções no plantel. A falta de paciência no Brasil para com os treinadores (mais uma herança lusitana) será um obstáculo a Bento, que precisará de tempo para mudar mentalidades.

Por exemplo, todos ficaram surpreendidos com o treino que o Cruzeiro realizou no dia do próprio jogo com o Figueirense. 2-2 foi o resultado final, mas a Raposa perdia por 2-0 já na segunda parte. Treinar no dia de jogo foi algo que nunca se fez em Terras de Vera Cruz. É sabido que treinar em dias de partida até é bom para a recuperação física dos jogadores. Outra questão é a de que Paulo Bento fecha os treinos à imprensa depois dos quinze minutos. Algo que lhe valeu muitas perguntas na conferência de imprensa. Para além destas novas técnicas, Bento irá, com certeza, introduzir outras. Como a equipa reagirá a isso é um mistério. Veremos o que acontece a partir daqui.

Ficaremos todos muito curiosos para ver o desempenho do treinador português ao leme de um dos maiores clubes do Brasil. Eu, particularmente, não achando que Paulo Bento seja um treinador de topo, se fizer que as mentalidades mudem em Belo Horizonte e espalhando-se de Minas Gerais para o resto do Brasil, ficarei contente. Mas com tranquilidade – por sinal, uma frase que voltará a estar em voga, agora do outro lado do Atlântico. Porque esse “orgulhosamente sós” do Brasil já não faz sentido. O orgulho bacoco tem de mudar. O Brasil já não tem o melhor futebol. Mas com uma pequena ajuda de fora poderá voltar a tê-lo. Tem matéria mais que suficiente para isso. Basta querer.

Foto de capa: Cruzeiro EC

Daniel Melo

Redação Bola na Rede · ver artigos

Continua a ler

as mais recentes
Opinião

Em Portugal, as listas são horizontais, em Espanha, são verticais: o Real Bétis também é uma escola de extremos (e Souleymane Faye passou por lá)

SEVILHA, ESPANHA- Ao pensarmos em escolas de formação, com a sua especialidade em extremos, o nosso cérebro vai pensar automaticamente no Sporting. Cristiano Ronaldo, Nani, Simão Sabrosa e Ricardo Quaresma são o expoente máximo de craques saídos da cantera do emblema do José de Alvalade, capazes de fazer magia a partir da linha, procurando espaços interiores ou dando profundidade nas zonas exteriores, aliando-se ao lateral. Nos últimos anos, Espanha assumiu-se como o país protagonista no futebol, não apenas nos seniores, mas também na formação. As academias ganharam um papel importante no desenvolvimento do desporto rei desde a viragem do século, com vários emblemas a apostarem na manutenção e criação de infraestruturas para que os atletas possam atingir os níveis máximos. As conquistas do Euro 2024 e do Mundial 2026 provam este ponto. São a cereja no topo do bolo de um processo que obviamente não se construiu de um dia para o outro.

Ricardo João Lopes · 7 min de leitura
Ler a crónica
Opinião

Denílson no Real Bétis: o brasileiro que encantou Manuel Lopera e que chegou a deter o título de jogador mais caro da história

SEVILHA, ESPANHA- Em 1997, o mundo preparava-se já para a viragem do século, com todos os países do mundo ocidental a procurarem a modernização e o protagonismo global. No futebol, não era distinto. Vivíamos os primeiros anos da Premier League, que procurava destronar a Serie A como o campeonato mais poderoso do mundo. Os ingleses tinham dinheiro e queriam a maior audiência possível, proporcionando assim ao espetador os melhores encontros possíveis. Era uma batalha entre poderosos, que hoje em dia é quase inimaginável. Em Espanha, a La Liga tinha uma boa cotação, mas ainda não estava no mesmo patamar que as suas congéneres. No entanto, o caminho traçado era claro. Ainda em 1990, o governo espanhol, farto de ver os clubes a gerarem prejuízos dantescos, criou a Ley del Deporte, que levava a que os clubes profissionais criassem uma Sociedade Anónima Desportiva. A partir desse momento, as instituições também passavam a ser empresas. Os únicos que escaparam a isto (por terem fechado as contas no positivo)? Barcelona, Real Madrid, Athletic e Osasuna. Presentemente, estes quatro emblemas continuam a pertencer aos sócios.

Ricardo João Lopes · 7 min de leitura
Ler a crónica

Newsletter Bola na Rede

Estamos a preparar a newsletter do Bola na Rede. Deixa o teu email e és dos primeiros a recebê-la. Sem spam.

Feito. Ficas na lista e avisamos-te quando arrancar.