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O equilíbrio entre as estrelas e a juventude: o exemplo do Barcelona

José Vale · 4 min

Pedri Hansi Flick Barcelona
Foto: Carlos Silva / Bola na Rede

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O Barcelona surge nesta equação como uma junção em que as estrelas chegam com um papel definido: o de colocar a equipa a jogar melhor.

Tem-se assistido, nos últimos anos, a uma mudança de paradigma na janela de transferências. Já não se estendem passadeiras vermelhas, o estrelato já não vence, por si só, títulos nem vitórias. Em épocas anteriores, existia uma pressão, ainda que involuntária, para contratar um grande nome, um jogador que fizesse disparar a venda de camisolas e instigasse receio nos adversários, não só pelo talento, mas pelo estatuto que representava. 

Os exemplos existem e contam uma história. Mencionarei um que representa na perfeição a ideia de que nem sempre uma equipa de estrelas consegue chegar à glória. Diz respeito ao eterno rival dos culés. O plano louco de Florentino Pérez denominado de “Os Galácticos”. O próprio nome revela a pompa e circunstância do que era pretendido pela direção do Real Madrid. Um plano que, no papel, tinha tudo para ser uma história de sucesso, muito maior do que aquela que acabou por acontecer. Zidane, Ronaldo Fenómeno, Beckham, sem esquecer o infame Luís Figo. 

Uma equipa que devia ser considerada criminosa, face à amálgama de talento absurdo concentrada num único plantel. Esta fase do Real Madrid representou uma pura amostra do poder de Florentino Pérez, sentado no trono do maior clube mundial. Em termos práticos, a era dos Galácticos pode ser considerada um falhanço, tendo em conta o pouco que foi conquistado em relação ao que foi gasto e publicitado. 

Se não é esta a fórmula infalível à conquista do tão cobiçado triunfo, qual será? Luis Enrique já descobriu, ao serviço dos parisienses. Não foi com o trio maravilha, mas sim com jovens empenhados num projeto, incansáveis, autênticos “animais” de competição e de pressão. E isto significa que há fome, há vontade de mostrar em campo aquilo que valem. Não há ego, não há conformismo, porque se existirem não jogam. O discurso do treinador espanhol a Kylian Mbappé, antigo goleador do PSG, é prova disso mesmo. Correr para a frente não é tudo e quem não corre para trás com o mesmo afinco, não merece jogar. 

Hansi Flick Barcelona
Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

O Barcelona surge nesta equação como uma junção entre os dois, em que as estrelas chegam com um papel definido: o de colocar a equipa a jogar melhor. Isto, aliado à melhor formação do mundo, a La Masia, e a um recrutamento incisivo de jovens capazes de entrar no plantel e fazer a diferença no imediato. Não chegam para o futuro, chegam para o presente. Se mostram qualidade em campo, merecem mostrar a qualidade que têm. Mas juventude sem experiência não prospera da mesma forma. É necessária uma voz de comando, capaz de liderar e regrar a juventude e irreverência, qualidades valiosas quando na medida certa.

Entra Rodri. O médio espanhol é incontestável e o currículo fala por si. Rodri chega como campeão europeu e mundial, vencedor de Liga dos Campeões e Premier League, e dono de uma Bola de Ouro. É o jogador perfeito para o caos de Hansi Flick, uma resolução para os problemas defensivos tão vistos na época passada, consequência da linha de pressão utilizada pelo treinador alemão. Rodri chega para pautar o jogo, para comandar nos momentos de tormenta defensiva. O médio espanhol é o maestro, calculista no momento defensivo e na antecipação, bem como dono de uma tranquilidade pouco vista no mundo do futebol. É a peça que faltava ao plantel de Flick, uma voz experiente que será fundamental para os jovens do plantel do Barcelona.  

Yamal e Cubarsi são jovens que se irão beneficiar da entrada de Rodri. Os dois jogadores já não são possibilidades, mas sim certezas. Yamal continua a deixar o mundo do futebol de boca aberta, é uma revelação e um diamante que vem sendo lapidado aos poucos, mas que não engana ninguém. É craque da cabeça aos pés. Cubarsi é menos vistoso, por ser defesa central não ganha tantas manchetes, mas valeu-lhe o prémio de melhor jogador jovem do Campeonato do Mundo. O jovem espanhol é sereno, tanto no momento de defender como no início da construção. Joga como se tivesse mais anos de carreira como de vida. 

Mas nem todos os jovens chegam ao primeiro plantel com estatuto consolidado, este tem de ser conquistado. A oportunidade costuma ser dada, cabe aos jogadores mostrarem que estão preparados para a responsabilidade de entrar na equipa principal do Barcelona. Nesta pré-época voltamos a assistir ao surgimento de dois jogadores que podem assumir um papel de relevo na equipa principal. Jesse Bisiwu, o extremo esquerdo de 18 anos, encantou no jogo contra o Basileia. Ainda mais espantoso é pelo simples facto de ter precisado de apenas 11 minutos para fazer um “bis”, sendo o primeiro golo um autêntico golaço. 

Fonte: Barcelona

Para além de Bisiwu, existe outra revelação, com apenas 18 anos, de seu nome Hamza Abdelkarim. O ponta de lança impressionou na pré-época, foram cinco jogos e quatro golos. O Barcelona continua à procura de um ponta de lança que possa matar as saudades de Lewandowski e apesar da tenra idade, a equipa blaugrana não deve descartar o egípcio. O ponta de lança é mortífero na área, movimenta-se muito bem nos espaços e pode ser extremamente útil para o Barcelona na época vindoura. Xavi Espart, produto da La Masia, tem conquistado espaço no meio-campo do Barcelona. E é este equilíbrio, entre a experiência e a formação, que torna o Barcelona um sério caso de estudo e o principal candidato a conquistar a La Liga.

Com tudo isto, o futebol nacional e a liga portuguesa deveriam retirar algumas notas de como aproveitar o talento bruto dos jovens, os que jogam sem medo de ir para cima, como se a própria vida dependesse do que mostram nas quatro linhas. Nem sempre comprar fora se traduz em sucesso e o futebol português beneficiaria se fosse mais Barcelona e menos Galácticos.

José Vale

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