Não é uma anedota, mas soa estranhamente como o início duma: Franck Ribéry, Stephan Lichsteiner e Alessandro Diamanti entram num centro de treinos em Santander. Na improvável Cantábria, os três chegam juntos às instalaciones Nando Yosu, como quem diz à La Albericia, laboratório do Racing. Estranho. Qual é a ocasião? O que sucede?
Sucede que estão ali a mando da Federação Italiana para aprender com o treinador local. José Alberto López, 43 anos, vai colocando o Racing como líder da segunda liga espanhola e agora recebe os craques para os ensinar uma nova forma de ver e jogar futebol.
No seguimento de mais um vexame histórico para a Azurra, os dirigentes italianos pretendem afastar do seu jogo as influências anacrónicas do catenaccio – o bloco recuado, a linha de cinco, a ausência de extremos – e, por isso, mandam os alunos do seu UEFA Pro beber da fonte da juventude em que se tornou o Relacionismo, oposição ao cada vez mais discutido Jogo de Posição. Na sede federativa de Coverciano, parece que se decidiram finalmente por cortar cabeças à filosofia e reformular a linha de conceitos-base do Calcio. Mas porquê o Racing?
O Real Racing Club, apesar de ser um dos fundadores da Liga Espanhola e ter participado em 44 edições, não joga a La Liga desde… 2011-12. Descia nessa temporada apesar de ter estado presente quase ininterruptamente (falhando apenas um ano) na primeira divisão desde 1993-94, e descia pela falência competitiva dum projecto que chegara a jogar Taça UEFA (duas vezes, uma delas com aquela memorável equipa de Garay e da dupla Munitis-Zigic); em 2011-12, ganhou-se apenas cinco vezes em 42 jogos. A última vitória surgira a 15 de Janeiro e a descida era consumada ainda em Abril, numa derrota no Anoeta, perante a Real Sociedad. Mesmo assim, pensou-se que seria acidente de percurso, sendo inevitável o regresso logo a seguir.
Não exactamente: o Racing caiu, não se levantou, afundou-se mesmo, e os problemas financeiros atiraram a equipa para a II B. Em 2014, o caos directivo obriga o plantel a um protesto inédito: antes duma eliminatória da Copa do Rey contra a mesma Real Sociedad, os jogadores recusaram-se a jogar. A desistência deu vitória ao adversário, mas garantiu o futuro ao clube: a massa associativa apoiou massivamente a atitude e a pressão tornou-se insuportável para Ángel Lávin, presidente, e o empresário indiano Ahsan Ali Syed. Manolo Higuera, antigo atleta e homem da terra, pegaria no clube no ano seguinte, iniciando caminhada de estabilização, sustentando o sucesso desportivo numa relação de proximidade entre clube e cidade, jogadores e adeptos. O determinismo identitário e valorização cultural teria que se transpor para o terreno de jogo. Como emular essas relações de confiança? Já lá vamos.
Em 2022, a Argentina de Scaloni sagrava-se campeã mundial recorrendo a uma recuperação da tradição futebolística da La Nuestra, mostrando ao planeta que a sofisticação espacial com que Guardiola revolucionou o jogo tinha afinal uma alternativa. Era possível vencer sem amarrar os jogadores a zonas pré-definidas ou posicioná-los tendo o espaço como referência. Era possível dar-lhes liberdade e aproveitar as naturais dinâmicas que surgem entre eles, responsabilizando-os e obrigando-os a solucionar problemas utilizando a sinergia técnica e emocional. Os sete padrões enunciados por Jamie Hamilton, treinador, analista e pensador – o toco y me voy, a tabela, a escadinha, o corta-luz, o tilting, a diagonal defensiva, o yo-yo – voltaram a sentir-se actualizados no léxico futebolístico. Seria com base no Relacionismo que Fernando Diniz faria do Fluminense campeão sul-americano de clubes ou que Roger Schmidt seria campeão em Portugal.
Sebastian Cería, matemático argentino, um dia professor na Universidade de Columbia, vendeu em 2019 a sua empresa de gestão de riscos financeiros por 850 milhões de euros. Tornar-se-ia oficialmente proprietário e mecenas do Racing em 2023, por influência da esposa, natural da cidade, e da avó, nascida e criada ali próximo, em Burgos. Mas não só.
«Como hincha do Racing Avellaneda e saber o que é sentir o racinguismo argentino, senti-me verdadeiramente identificado. Bom, há um momento crítico: Manolo vinha insistindo, vinha-me dizendo para “fazermos algo” com o Racing Santander. Entretanto, fui ver a final do Mundial e senti algo especial nesse momento com a celebração, algo verdadeiramente transversal. Não importa quem sois, não importa de onde vens, não importa o que pensas: somos todos do mesmo!».[1]
E esta sensibilidade, que ajudaria a justificar a escolha de Manolo Higuera em José Alberto López no final desse ano, seria ainda mais bem explicada numa entrevista do mesmo Sebastián já em 2025, ao jornal El Diário. O talento argentino para o futebol permite-lhes filosofar sobre o desporto como nenhuma outra nação. E novamente a justificativa para o projecto de recuperação do Racing e as bases da nova cultura.
«Falemos de futebol e do que percebo como a grande crise no mundo, do valor e da ideia de comunidade, de pertença, de enraizamento e dos valores de ajuda ao próximo e, quiçá, estar com alguém que não nos é igual. Em que lugares essa crise se manifesta? As pessoas cada vez menos se identifica com os partidos políticos, é muito fácil ouvir falar dele como se fossem uma partida de mancha venenosa (versão argentina do jogo da apanhada). A religião também está em crise, se formos às igrejas reparamos que há pouca gente e que há muito poucos jovens comprometidos. As redes sociais têm fomentado esta ideia de que cada um é a sua própria comunidade, cada um tem voz capaz de projectar através do megafone e utilizar discursos de ódio ou insultar quem quiser de maneira anónima. As redes sociais são muito anti-comunidade. A ideia original era juntar os amigos e o único que se faz é juntar os inimigos».
O jornalista, pragmático, pedia-lhe foco: como entrelaça isso com o futebol?
«Ante essa crise fundamental da raça humana, sobram muito poucos lugares onde esse sentimento de comunidade segue vivo. Um desses lugares é o futebol. Vejo o futebol como uma maneira de fomentar o sentimento de comunidade. A ideia de trabalhar num lugar onde se fomenta ou onde se pode solidificar esse conceito de comunidade parece-me essencial». [2]
Até José Alberto López chegar, em 2022-23, o Racing andou feito elevador entre a Segunda e a Terceira, descendo tantas vezes quanto nos… 66 anos anteriores. JAL, sigla que facilita, não tinha grande currículo. A falta de pergaminhos tornava quase impossível prever que o técnico espanhol se tornasse no primeiro treinador a aguentar-se mais de dois anos consecutivos no banco do El Sardinero em 30 anos ou que chegasse ao terceiro lugar no ranking dos treinadores com mais jogos no clube.
De ideias muito vincadas, a evolução foi continuada e teve mérito no garantir da própria estabilidade de trabalho. Do 12.º lugar final do ano de estreia, subiu para o sétimo lugar em 2023-24 (perdendo o acesso ao play-off na última jornada, com uma derrota frente ao Villareal B) e para o quinto lugar no ano passado, com queda já nos play-off de subida aos pés do Mirandés.
Como qualquer relacionista que se preze, não esconde certos traços que uns dizem ser de loucura outros de teimosia; o 4-2-3-1 de olhos postos na baliza adversária fazem-no quebrar constantemente recordes estatísticos de golos – este ano o Racing vai liderando a tabela com 75 golos marcados, melhor ataque da prova, enquanto ostenta 55 golos sofridos (os mesmos que o penúltimo classificado, Huelva) por conta de ser… a terceira equipa mais goleada da competição!
Há duas semanas, na deslocação a Andorra, o Racing nunca pensou sair da casa do 11.º classificado vergado a um… 6-2. Uma certa corrente da massa associativa, com menos paciência para as imprevisibilidades do espírito romântico do treinador, aumentou a contestação com medo de que se perdesse novamente oportunidade de voltar à ribalta. JAL, no rescaldo, foi peremptório: «Lo conseguiremos, tengo 100% claro!» E mesmo que tivessem acreditado nele, poucos poderiam imaginar que no fim-de-semana seguinte, na recepção ao segundo classificado, o Almería, o Racing os despachasse com uns esclarecedores… 5-1. Quer dizer, depois de quatro anos, já deviam estar habituados às magias dum Relacionismo que, se perguntarem ao treinador, não é bem isso…
Numa entrevista dada em Janeiro ao portal Total Football Analysis, JAL mostrava-se admirado perante as comparações entre o futebol do Racing e a nova moda.
«Criámos isto naturalmente. Estou aqui há mais de dois anos. Temos vindo a desenvolver o nosso estilo de jogo progressivamente ao longo desse tempo».
O que se prova quando atentamos que, do actual plantel, 10 jogadores estão integrados pelo menos desde 2023-24 – aliás, dos 12 com mais minutos esta época, nove têm pelo menos dois anos em Santander. Mas deixemo-lo continuar.
«O tempo permitiu-nos gerar essas relações entre jogadores para explorar todo o potencial técnico e características individuais de cada um deles. Ouvi dizer que Fernando Diniz do Fluminense era um treinador que punha grande ênfase no relacionismo, mas a filosofia não me era familiar. Isto apareceu espontaneamente».
E em Santander, podemos testemunhar o tilting – saturação numérica num dos lados do campo por aproximação de jogadores – que provoca o congestionamento que, por sua vez, facilita a reacção automática à perda da posse, que nunca insiste em si mesma – ou seja, o Racing não usa a posse pela posse, mas, como ficou famoso das ideias de Schmidt, como um mecanismo de aceleração na procura da baliza adversária.
«No nosso estilo de jogo, combinações curtas são cruciais, mas o número de passes não é essencial.
Se eu pedir aos jogadores para serem diferentes e eles tentarem constantemente o último passe, ou a acção de risco, a probabilidade de erro sobe consideravelmente. Porém, o resultado depende da qualidade – e nós temos muita qualidade no último terço.
E há outra métrica – a maioria dos golos surge em posses de entre a quatro e oito passes. Assim que ultrapassamos as oito, os rivais normalmente conseguem reorganizar-se.»[3]
E foi sob estas premissas que se apoiaram as dinâmicas do seu 4-2-3-1, com foco total na capacidade associativa dos três elementos atrás do ponta de lança, na forma como criam as ‘filiações socioafectivas’ para ultrapassar os problemas táticos que lhes surgem em forma de linhas defensivas implacáveis. E sem ter em conta as imperdoáveis injustiças das menções directas, os nomes a reter do conjunto de JAL são mesmo os três criativos: Andrés Martín (mais presenças e goleador-mor apesar de surgir como ‘10’, com dezoito tentos), Iñigo Vicente (líder do ranking das assistências com 16) e Peio Canales, uma joia emprestada pelo Athletic Bilbao.
E em equipa de pressupostos tão filosóficos e de tanto apelo à estética, não se podia digerir o sucesso sem um punho de poesia: à 36.ª jornada, depois de ter tido Ribéry, Lichsteiner e Diamanti a tirar notas dos seus segredos, o Racing conseguiu abrir fosso de quatro pontos para o segundo lugar, aumentando consideravelmente as hipóteses de subida directa e até de título, ao conseguir vitória no mesmo Anoeta onde consumou a descida, há 14 anos, numa vitória clara perante a mesma Real Sociedad (mesmo que seja a equipa B).
[1] https://www.youtube.com/watch?v=8Fm8cT8m7Kg&t=882s
[2] https://www.eldiario.es/cantabria/ultimas-noticias/sebastian-ceria-matematico-maximo-accionista-racing-santander-espana-gran-pais-funciona_1_12641180.html
[3] https://totalfootballanalysis.com/head-coach-analysis/jose-alberto-lopez-tactics-at-racing-santander-exclusive-interview-tactical-analysis

