Leicester City: O futebol pertence aos rebeldes

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                              Leicester City: O futebol pertence aos rebeldes

 

 

 

 

 

(Foto de capa: FB oficial Leicester City FC)

 

 

A Premier League é uma competição recheada de lendas, mitos, e histórias desportivas incríveis. Nos últimos anos, nenhuma equipa em Inglaterra alcançou feitos tão inacreditáveis como o Leicester City.

A fuga à despromoção em 2014/2015, a conquista do campeonato em 2015/2016, ou a brilhante campanha na Liga dos Campeões no ano seguinte, em que a equipa alcançou os quartos-de-final, são marcos que ficam para a história do futebol, sobretudo pela forma como foram conseguidos.

Mas, se após o título de 2016, tudo o que rodeava o Leicester parecia ser um conto de fadas, os meses seguintes acabaram por mostrar a realidade da equipa.

O despedimento do treinador do título, Claudio Ranieri, a sua consequente substituição pelo adjunto Craig Shakespeare, e, recentemente, a substituição deste pelo francês Claude Puel, mostram um clube com uma direção volátil, rápida a encontrar culpados, e a livrar-se deles, assim que os resultados deixem de agradar.

No centro de toda esta instabilidade, estão os jogadores do clube. Atualmente, com todo o mediatismo à volta do futebol, os futebolistas ganharam um peso e uma importância que não tinham anteriormente. Consequentemente, a figura do técnico, sobretudo em Inglaterra, tem visto a sua autoridade e preponderância diminuídas, sendo cada vez mais difícil realizar projetos futebolísticos de longo prazo. O Leicester, que não consegue definir um rumo, e oscila entre parecer um clube de competições europeias, um de meio da tabela, e um que luta para não descer, conta com um plantel muito particular, onde o facto dos jogadores serem de várias nacionalidades diferentes, e provenientes de situações desportivas muito distintas, contribui para que não estejam particularmente identificados com o clube.

Jamie Vardy e Riyad Mahrez, os dois melhores jogadores da equipa, são exemplos disso mesmo. O avançado inglês, cuja ascensão desde o futebol amador até à Premier League, o tornou numa figura incontornável do campeonato, e o extremo argelino, que tem qualidade suficiente para jogar em qualquer grande clube europeu, são dois futebolistas com um peso muito grande no balneário do Leicester. Os respetivos egos, justificados ou não, são um inimigo para qualquer treinador que tente impor a sua liderança. Junta-se a isto um grupo de jogadores pouco coletivizado, quase totalmente composto por jogadores veteranos a cumprir o contrato das suas carreiras, ou jovens à procura de dar o salto, e onde cada atleta parece interessar-se quase exclusivamente com a sua própria carreira.

 

Vardy, o melhor jogador da equipa, tornou-se um ícone em Inglaterra, sobretudo devido à sua história de vida  Fonte: Leicester City FC
Vardy, o melhor jogador da equipa, tornou-se um ícone em Inglaterra, sobretudo devido à sua história de vida
Fonte: Leicester City FC

O ambiente de guerrilha num baneário não é novidade. Em todos os grandes campeonatos europeus, existem clubes onde os jogadores se revoltam contra o treinador, provocando o seu despedimento, assim que os resultados deixarem de ser condizentes com a qualidade da equipa. E, se é um facto que esta estratégia tem resultado em várias situações na Europa, também o é que mais nenhum balneário do velho continente parece ser tão problemático  como o do Leicester.

Os jogadores do clube do centro de Inglaterra tem passado constantemente a imagem de indisciplinados, de incorrigíveis, de futebolistas incapazes de ser controlados ou dirigidos. Seria óbvio, portanto, classificá-los como vilões. Mas, na verdade, o plantel do Leicester é sobretudo um conjunto que vive sob uma pressão constante da imprensa, ansiosa por subverter um pouco a história recente de sucesso do clube, e a expetativa dos adeptos de futebol no geral, que, de certa maneira, ainda querem dos jogadores mais feitos surpreendentes.

No meio deste turbilhão, é justo dar algum valor às prestações dentro de campo. Os resultados melhoraram sempre após a substituição dos treinadores, e os Foxes parecem ter apenas sido os percursores de uma moda que alastrou a toda a Premier League. É fácil apontar o dedo à atitude dos jogadores, após algumas decisões técnicas. No entanto, ainda de que forma pouco consensual, têm sido os craques da equipa a levar o clube para a frente. Egoistamente ou não, o plantel do Leicester tem dirigido o barco através das tempestades, e há que lhes dar mérito por isso.

Perante todas as contingências do futebol atual, não é maldoso os jogadores marcarem uma posição, mantendo-a em momentos conturbados.

Afinal, é dentro de campo que tudo se decide, e todo o trabalhado é avaliado. Aí, mais que em qualquer outro lado, Vardy, Mahrez, e restantes companheiros, são as estrelas. E, no caso deste grupo, quem não está com eles, está contra eles.

 Foto de capa: Leicester City FC

artigo revisto por: Ana Ferreira

 

Guilherme Malheiro
Guilherme Malheiro
É na música e no futebol que encontra a sua inspiração. Quando escreve, gosta de manter escondido o lado de adepto. Também gosta de ténis, snooker e boxe.                                                                                                                                                 O Guilherme não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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