Em Novembro de 2024, Rúben Amorim vivia um conto de fadas em Alvalade. Era adorado por todos os adeptos. Já tinha sido duas vezes campeão nacional, estava bem encaminhado para um terceiro título, liderava o campeonato e tinha tudo para fazer uma época de sonho no Sporting.
Inclusivamente a nível europeu tinha goleado o colosso Manchester City por 4-1 e estava nos primeiros lugares da fase de grupos da Champions League com reais perspetivas de chegar longe na competição.
Mas, entretanto, atravessa-se no caminho o Manchester United com um convite irrecusável e, provavelmente, pela primeira vez Amorim vacilou. Disse que o comboio do clube inglês só passava uma vez e que implicitamente mostrava-se inclinado a aceitar o convite.
E assim foi para desencanto dos sportinguistas, a pessoa que levantou o Sporting da lama em que se encontrava, abandonava o barco a meio da época e embarcava numa aventura num clube inglês que passava uma situação complicada e que nos últimos anos era um “cemitério” de treinadores.


Amorim seria o nono treinador do clube depois da saída do mítico Alex Ferguson em Junho de 2013. E a verdade é que 420 dias depois e quase 500 milhões de euros, o comboio britânico do treinador português voltou a descarrilar, acabando por ter o mesmo destino que os outros oito treinadores anteriores, incluindo outro português, José Mourinho.
Quando Ruben Amorim chegou a Manchester na conferência de imprensa de apresentação disse “Chamem-me ingénuo, mas eu acredito que sou o homem certo no momento certo.”
Com esta declaração, o técnico português demonstrava genuinamente que poderia ter uma história diferente em Manchester que os seus antecessores.
Amorim chegava a um clube com história, mas sem projeto desportivo. Nunca, ao longo dos seus 14 meses de consulado, foi um homem consensual entre os adeptos também pela sua opção em não abdicar do sistema e bem, que lhe trouxe o sucesso no Sporting, o 3-4-3 que também adotou no clube inglês.
A primeira meia época no clube inglês a nível da Premier League correu pessimamente, com o Manchester United a terminar num dececionante 15.º lugar. A nível europeu, as coisas foram diferentes com a equipa a atingir a final da Liga Europa. Mas acabou novamente por claudicar na final diante do Tottenham por 1-0 perdendo a hipótese da entrada direta da Champions League na época seguinte.


Apesar de mais uma época sem títulos, a direção dos Red Devils renovou a confiança no treinador português para uma temporada em que Amorim teria tempo para fazer o plantel à sua imagem e sem a distração das competições europeias como tinha acontecido na primeira época no Sporting. Mas a verdade é que isso não aconteceu.
O pior arranque do Manchester United na era Premier League, a eliminação da Taça da Liga frente ao Grismby Town do quarto escalão aumentou a contestação ao técnico português. Também as críticas regulares de ex-jogadores do clube ao trabalho de Amorim não ajudavam à estabilização da equipa.
Em outubro de 2025, a direção do clube dava um voto de confiança a Rúben Amorim, dizendo que uma nova troca de treinador seria uma “reação impulsiva”. O que é facto é que dessas declarações até ao despedimento de Amorim passaram apenas três meses.
Três meses em que os resultados até melhoraram, tendo o clube chegado ao 6.º lugar da Premier League e mostrando que esta época poderia ter resultados diferentes. Mas de repente tudo mudou…


Depois de um empate a um golo em Leeds, o técnico português, que pretendia ter maior influência no mercado de transferências, foi à conferência de imprensa dizer que pretendia ser o manager e não apenas o treinador do clube. Um pouco à semelhança do que acontecia em Alvalade.
Esta declaração não terá caído bem aos responsáveis do Manchester United e a verdade é que a corda parte sempre do lado mais fraco e a cinco de Janeiro deste ano Rúben Amorim saia do clube pela porta pequena, mas com o seu caráter intocável.
A verdade é que Amorim quando tinha tudo em Alvalade e estava confortável, resolveu sair da sua zona de conforto. Decidiu fazer uma aposta arriscadíssima num clube já há alguns anos em ebulição e em crise identitária.
Quiçá ingenuamente pensou que poderia ter sucesso num clube altamente complexo e com fatores que Amorim não controla e acabou por ser mais um treinador a ser “queimado” na fogueira de Old Trafford.
Rúben Amorim em 14 meses em Manchester fez 63 jogos oficiais, conseguindo apenas 25 vitórias, 15 empates e 23 derrotas, um dos piores registos de um treinador ao serviço do Manchester United nas últimas épocas.


Apesar de tudo, penso que Amorim, apesar de todas as críticas e insultos de que foi alvo, pode dizer que sai de Manchester com o estatuto intocável e apesar de muitas vezes ser apelidado de teimoso, nunca abdicou das suas ideias e convicções.
Provavelmente ter-se-á esquecido que em Inglaterra o clima não é o mesmo que em Portugal onde no Sporting havia paciência para as falhas. Em “Old Trafford” até pela escassez de títulos, querem-se resultados imediatos, coisa que não se consegue do dia para a noite.
Mesmo depois desta experiência algo traumática, acho que Rúben Amorim tem todas as condições para num futuro próximo assumir outro projeto.
Amorim, ao contrário da opção Manchester United, terá de pensar mais com a cabeça e menos impulsivamente para escolher um projeto consistente e estável que lhe permita lutar por títulos e trabalhar com tranquilidade, algo que nunca teve em Manchester.

