A passagem de Ruben Amorim por Old Trafford chegou ao fim após 14 meses difíceis, marcados por uma relação desgastada com os jogadores e com a estrutura do clube. O treinador português não sobreviveu à teimosia no seu sistema tático e aos piores resultados das últimas décadas.
Com um aproveitamento de apenas 38,7% (24 vitórias em 63 jogos), Ruben Amorim deixa o Manchester United com o pior registo de um treinador na era pós-Alex Ferguson. Para se ter noção do descalabro, antecessores como David Moyes ou Erik ten Hag conseguiram sempre vencer mais de 50% dos seus compromissos. Pelo caminho, ficou um divórcio evidente com a mentalidade do balneário e uma gestão de ativos que nunca funcionou.
Abordamos neste artigo os três principais erros do português.
1.
Braço de ferro com a direção – Um dos maiores pontos de rutura foi a ambição de Ruben Amorim em assumir o papel de ‘manager’ à moda antiga, concentrando em si a gestão do clube e a palavra final no rumo do projeto. No entanto, a estrutura do clube está desenhada para um modelo, onde o treinador se foca no treino e a direção toma as decisões estratégicas. O conflito com o diretor-desportivo, Jason Wilcox, tornou-se insustentável quando as visões sobre o mercado de transferências divergiram, a estrutura queria jovens com potencial futuro, mas Ruben Amorim exigia reforços de impacto imediato para colmatar as limitações óbvias de um plantel sem profundidade.
Esta tensão culminou numa postura de confronto. Na sua última conferência de imprensa, o treinador expôs publicamente as falhas da estrutura, provocando deliberadamente uma situação de rutura. Ao tentar assumir um papel de liderança e impor um controlo que o clube não estava disposto a aceitar, o português acabou por ser isolado no cenário político.
2.


A prisão tática e a incapacidade de adaptação – A rigidez tática de Ruben Amorim foi, talvez, a sua maior camisa de forças. O sistema de 3-4-2-1, que lhe deu glória no Sporting, revelou-se previsível e permeável na Premier League. Mesmo com o plantel com muitas lesões e ausências devido à CAN, Ruben Amorim raramente abdicou da sua ideia base, o que limitou a criatividade e a capacidade de resposta da equipa em campo. Os números defensivos são prova disso, em 63 jogos, o Manchester United conseguiu apenas ficar nove vezes sem sofrer golos, acumulando empates e derrotas em casa frente a equipas da metade inferior da tabela.
Embora tenha tentado pontualmente mudar para uma linha de quatro defesas, como aconteceu frente ao Newcastle, Ruben Amorim voltava sempre às suas convicções originais, mesmo quando os resultados não apareciam. Esta falta de flexibilidade, num clube que já vive mergulhado na instabilidade, impediu a equipa de encontrar um modelo de jogo entusiasmante para os adeptos.
3.
A rutura do balneário e a relação com os jogadores – O terceiro erro fatal residiu na gestão humana e na falha em implementar uma cultura de exigência. Ruben Amorim teve dificuldades em integrar figuras centrais como Marcus Rashford ou Alejandro Garnacho, cujas características não encaixavam na sua ideia de jogo. Mais do que a questão tática, houve um claro problema de mentalidade, enquanto jogadores mais velhos como Casemiro mostraram resiliência para se adaptarem, outros ativos importantes pareceram desligados e desmotivados pelo sistema do treinador.
A aposta nos jovens da formação foi vista mais como uma necessidade por falta de alternativas no banco e devido às muitas lesões, do que como uma estratégia real, o que desiludiu quem preza a história do clube. Ao não conseguir gerir as maiores figuras do clube e ao questionar publicamente a mentalidade do grupo, Ruben Amorim perdeu a confiança do balneário. Sem um entendimento com os jogadores, a sua continuidade num ambiente de tamanha exigência tornou-se impossível.

