A passagem de Ruben Amorim pelo Manchester United dificilmente será recordada com nostalgia pelos adeptos de Old Trafford. A promessa de uma rutura clara com o passado recente esbarrou numa realidade dura: resultados inconsistentes, um plantel pouco adaptado às suas ideias e um clube ainda longe da estabilidade estrutural necessária para absorver um treinador com princípios tão vincados. Amorim nunca conseguiu transformar o United numa equipa dominante, nem criar uma identidade coletiva sólida que resistisse à pressão constante da Premier League.
Ainda assim, mesmo em contextos falhados, há sinais individuais que merecem destaque. Se o projeto não vingou a nível coletivo, houve jogadores que beneficiaram diretamente da metodologia do técnico português — seja pela confiança recebida, pela clareza de funções ou pela adequação ao seu modelo de jogo. Num balanço que está longe de ser elogioso, este é um exercício de identificação dos três jogadores que mais cresceram, não porque o Manchester United tenha evoluído, mas porque encontraram em Ruben Amorim um enquadramento que antes lhes faltava.
1.


Ayden Heaven – Num Manchester United pressionado por resultados imediatos e pouco dado a experiências, a gestão de Ayden Heaven foi uma das decisões mais interessantes de Ruben Amorim. O jovem defesa surgiu num contexto adverso, mas encontrou no sistema de três centrais um ambiente que lhe permitiu crescer sem ser exposto em excesso. Amorim percebeu rapidamente que Heaven não precisava de ser protagonista, mas sim integrado de forma progressiva, com tarefas claras e responsabilidade controlada.
A sua evolução foi sobretudo visível no entendimento do jogo. Heaven passou a revelar maior calma na saída de bola, melhor leitura dos tempos de pressão e uma ocupação de espaços mais criteriosa, algo essencial num modelo que exige dos centrais capacidade para defender alto e participar na construção. Sem se afirmar como uma solução imediata para o presente, saiu da passagem de Amorim com uma maturidade competitiva que dificilmente teria alcançado noutro contexto, afirmando-se como um nome a acompanhar no futuro do clube.
2.


Matthijs de Ligt – A etapa de Matthijs de Ligt em Manchester foi marcada por alguma desconfiança inicial, fruto de um percurso recente irregular e de um United defensivamente frágil. Ruben Amorim acabou por ser determinante na recuperação do estatuto do internacional neerlandês, não tanto por o transformar num jogador diferente, mas por lhe devolver um papel claro dentro de uma estrutura que o protegeu das suas maiores debilidades.
Inserido numa linha de três centrais, De Ligt deixou de ser constantemente exposto em transições longas e em duelos no espaço aberto, passando a jogar mais de frente para o jogo e com maior controlo do contexto. Isso refletiu-se numa versão mais segura, mais concentrada e com maior capacidade de liderança, mesmo num coletivo instável. Embora longe de representar um regresso ao auge exibido no Ajax, a passagem por Amorim permitiu-lhe estabilizar rendimento e reencontrar uma identidade competitiva que parecia perdida.
3.


Amad Diallo – Amad Diallo já não era um nome completamente marginal no Manchester United quando Ruben Amorim chegou a Old Trafford. Com Erik ten Hag, o internacional marfinense começou a ganhar algum espaço, sobretudo pela sua capacidade de desequilíbrio em espaços curtos e pela inteligência na forma como interpretava o jogo entre linhas. Ainda assim, o seu papel permanecia intermitente e dependente de contextos muito específicos, sem uma função verdadeiramente estruturada dentro do coletivo.
Com Amorim, o papel de Amad ganhou maior continuidade, sobretudo como ala direito num sistema de três centrais, função que lhe deu enquadramento sem lhe retirar criatividade. A partir dessa posição, passou a ter mais bola em zonas adiantadas, mas também responsabilidades defensivas claras sem ela, algo que contribuiu para o seu crescimento competitivo. Amad tornou-se mais disciplinado na ocupação do corredor, mais criterioso no momento de decidir. Essa regularidade ajudou-o a afirmar-se como uma opção mais fiável, mesmo num contexto coletivo instável, consolidando o crescimento que já vinha a desenhar na fase anterior.
Ruben Amorim não conseguiu deixar uma marca positiva duradoura no Manchester United, nem construir um projeto coletivo que sobrevivesse à exigência do clube e da Premier League. Ainda assim, mesmo num ciclo curto e pouco bem-sucedido, houve jogadores que cresceram individualmente graças à clareza das ideias e à coerência do modelo. Num contexto marcado pela falta de estabilidade estrutural, essa evolução individual acabou por ser um dos raros aspetos a resistir a uma passagem que, no plano coletivo, ficou aquém das expectativas.

