Riyad Mahrez: magia no estado mais puro

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O dinheiro não pode comprar tudo. É insignificante (ou devia ser), mesmo quando os sonhos nos hipnotizam e nos deixamos levar para uma realidade onde queremos ficar. Não há dinheiro que pague a imaginação e a magia que vem atrás dela.

Ou vice-versa. Riyad Mahrez tem-nos exemplificado isso mesmo desde o começo da Premier League, quando parte das alas para o meio, conduzindo a bola numa progressão que deixa um rasto de fantasia e que nos leva, numa viagem alucinante, para um futebol utópico, em que o talento e o trabalho de um jogador é tudo o que importa no desporto, uma realidade na qual vencem os bons da fita, os ilusionistas da bola, os “entertainers”, ladrões de espectáculo, razões da atenção e do preço do bilhete. Atracções principais que nos remetem para tempos que a indústria e o dinheiro tentam destruir, mas cuja memória jamais será apagada. São tempos idos, em que a comissão de um empresário não tinha influência na transferência de um jogador, em que o amor à camisola significava alguma coisa e em que os contratos eram cumpridos.

Tempos ingénuos, talvez, mas livres da malvadez que a ganância arrasta e em que uma das coisas que compensava o sacrifício de uma semana “encharcada” de trabalho eram os raios de sol emanados pelo espectáculo, a magia de um qualquer talento que enchesse as tardes dos fins-de-semana.

Mahrez não faz valer o fim-de-semana para o comum adepto de futebol, mas consegue remeter-nos, em fracções de segundo, com uma simulação, um drible ou um passe magistral, para os tempos mais puros da bola.

No último fim-de-semana, voltou a brilhar. A sua equipa estava em dificuldades e conseguiu inverter o rumo dos acontecimentos. De penalty reduziu uma desvantagem de dois golos e, cerca de 15 minutos mais tarde, serviu Vardy para a igualdade. Assim terminou o encontro, 2-2 e mais um ponto somado para o Leicester num terreno sempre complicado como o Stoke-on-Trent, frente a jogadores como Shaqiri, Odemwingie, Bojan ou Peter Crouch.

Quando a bola chega aos pés de Mahrez, o futebol é outro. Fonte: Facebook do Leicester
Quando a bola chega aos pés de Mahrez, o futebol é outro.
Fonte: Facebook do Leicester

Essa foi a última. A primeira aconteceu em casa, frente ao Sunderland, a quem apontou dois golos, atirou uma bola ao poste e serviu de responsável para uma exibição fantástica da sua equipa (jogador da jornada, para o Bola na Rede – http://www.bolanarede.pt/internacional/ligainglesa/liga-inglesa-uma-primeira-jornada-refrescante/). Seguiu-se o West Ham, e o argelino voltou a não desiludir. Mais um golo e contribuição decisiva para a vitória sobre uma equipa que havia vencido o Arsenal no Emirates, na jornada passada. O Tottenham foi o adversário que se sucedeu e voltou a ser a fiugra do jogo, com um golo (numa resposta imediata ao tento adversário), uma bola ao poste e muito futebol, que ajudou a sua equipa rumo a um ponto precioso frente a um adversário com mais responsabilidades. Esteve um bocado apagado frente ao Bournemouth, mas “voltou” ante o Aston Villa – a perder por 2-0, o Leicester, impulsionado pela crença e a magia de Mahrez, deu a volta ao marcador, com o argelino a contribuir com duas assistências.

Uma regularidade destas não se compra. São momentos mágicos que alegram as vidas dos adeptos dos foxes e de muitos adeptos de futebol, que já despertam a curiosidade dos tubarões europeus e que, ao mesmo tempo, os envergonham pelo custo que Mahrez teve e tem para o Leicester – recebe meio milhão de libras ao ano, o valor pago, por exemplo, pelo Liverpool a um jogador como Roberto Firmino (com rendimento desportivo incomparável, de tão baixo, ao de Mahrez esta temporada) ao fim de 1 mês de trabalho e o preço pago pela sua transferência foi de 750 mil euros… cerca de 39 vezes menos que o dispendido pelo brasileiro!

A magia de Mahrez ilustra que o dinheiro não compra tudo e que, com um bom departamento de scouting e bons potenciadores de talento, embora não se podendo voltar atrás, pode dar-se o passo em frente que o desporto (e não a indústria) mais bonito do mundo ficou de dar por imposições… empresariais.

Obrigado, Riyad!

Foto de Capa: Facebook de Mahrez

Pedro Machado
Pedro Machado
Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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