Para os mais distraídos, este clube pode parecer insignificante. Para outros que se lembrem da história, sabem bem que o facto do Sunderland estar de volta à Premier League é um feito.
Mas afinal porque é que o regresso deste clube é tão surpreendente? E se eu vos dissesse que não é o regresso em si que é a surpresa, mas sim aquilo que está a ser feito ao longo da época? Ora acompanhem…
O Sunderland precisou de um golo aos 95 minutos contra o Sheffield United na final do playoff do Championship para voltar à Premier League, após um exílio de oito anos, tendo terminado a última época 24 pontos atrás do Leeds United e do Burnley. O que significa que a subida, por si só, já não foi fácil.
No entanto, o que se espera de uma equipa ascendente do Championship, é de muita dificuldade na Premier League. Qualquer nível de futebol em Inglaterra é difícil. Dentro de cada escalão as diferenças de pontos não costumam ser muito grandes e são, regularmente, disputados os primeiros lugares mesmo até ao último jogo. Mas mesmo assim, há um aumento da dificuldade para o nível superior, como é lógico.
Agora pasmem-se com o que aconteceu com o Sunderland no regresso à Premier League nesta época de 2025/26.
Os 14 pontos conquistados pelo Sunderland nos primeiros oito jogos só foram superados por seis equipas promovidas na história da Premier League, e é o melhor início desde que o Wolverhampton conquistou 15 pontos há sete anos. Mas a pólvora escondida foi encontrada.
Pouco se sabia sobre Regis Le Bris quando ele foi nomeado novo treinador do Sunderland, em junho de 2024. O francês, que tem um doutoramento em fisiologia do desporto e biomecânica, teve uma carreira modesta como jogador e tinha sofrido a despromoção da Ligue 1 com o Lorient, na sua segunda época como treinador principal. A expectativa não era alta. No entanto, a nomeação de Le Bris revelou-se inspiradora, quando conseguiu levar os Black Cats à subida na sua primeira época ao comando da equipa.


Taticamente, Le Bris prefere uma formação 4-3-3, mas, ao contrário de alguns dos seus colegas treinadores da primeira divisão, ele não tem medo de se adaptar e muitas vezes muda para uma defesa com três jogadores durante os jogos. É isto que o distingue.
Le Bris orgulha-se de tornar a equipa difícil de vencer e está mais interessado em ser eficiente do que dominante, feliz por absorver a pressão e depois atacar no contra-ataque. Quando ganham a posse de bola, movimentam-na rapidamente e têm uma das maiores percentagens de passes para a frente da Premier League.
Além das táticas aplicadas pelo novo treinador francês, houve também bastante investimento por parte da administração do clube na contratação de novos jogadores. Ao todo foram 15 os nomes acrescentados ao plantel do Sunderland no mercado de verão, o que bateu um recorde monetário para um clube recém-promovido à liga máxima.
Tal agitação pode muitas vezes correr mal, mas as aquisições dos Black Cats tiveram um impacto imediato, principalmente a do capitão Granit Xhaka. O ex-médio do Arsenal estabeleceu padrões dentro e fora do campo, com os seus discursos no balneário após os jogos a receberem elogios especiais. Assim como o guarda-redes Robin Roefs que tem sido um verdadeiro guardião da baliza do Sunderland. A equipa já conseguiu nove jogos sem sofrer golos, algo que agradou particularmente a Le Bris. Nordi Mukiele também tem sido uma revelação, seja ao lado de Alderete no meio da defesa ou na lateral direita.


Quando o Sunderland esteve pela última vez na Premier League, em 2016/17, venceu apenas três jogos no Stadium of Light durante toda a época. Desta vez, em apenas quatro jogos, igualou esse resultado, tornando o seu melhor início em casa numa época da primeira divisão desde 1968/69!
E isto deve-se a outro fator que muitas vezes não é valorizado quando se fala na melhoria de uma equipa: o 12.º jogador, os adeptos.
Digam o que disserem, não há adeptos mais apaixonados, para o bem e para o mal, do que os da Premier League. Agora imagem os que esperaram oito anos para voltar a ver o seu clube na primeira divisão e a criar dificuldades aos ditos “grandes” … é um apoio que não passa despercebido.
Sem dúvida que os jogadores do Sunderland estão a ser inspirados pelos adeptos apaixonados e barulhentos, com mais de 46 mil pessoas a lotar o Stadium of Light em todas as partidas até agora. A atmosfera parece ter continuado de onde parou no final da última época, quando o barulho gerado pelo dramático golo da vitória de Ballard contra o Coventry foi considerado o mais ensurdecedor desde a inauguração do Stadium of Light, em 1997.
Tudo isso contribuiu para um clima de otimism, algo que não se via desde os dias em que Peter Reid era o treinador e Niall Quinn e Kevin Phillips estavam no ataque.
O início da época foi fantástico para um Sunderland que renasceu, mas a verdade é que a Premier League é das ligas mais imprevisíveis do mundo e tudo muda de um momento para o outro. Neste momento a visão ainda é positiva, mantendo-se a meio da tabela classificativa e sem grandes riscos de descer. Mas ainda há muita bola para rolar, e o Sunderland tem de se agarrar bem para este último terço de campeonato.

