Outrora uma força do futebol alemão, este clube de Frankfurt tem uma história que, até há bem pouco tempo, carecia de novos capítulo positivos. Mas os últimos anos do Eintracht Frankfurt tiveram de tudo: glória, tragédia, saúde, doença, golos marcados e sofridos nos últimos minutos, e tanto mais. As “águias” germânicas têm vivido, longe dos holofotes do Futebol mundial, um verdadeiro conto de fadas.

É o último dia de jogo da época 2015/2016 da Bundesliga. Papy Djilobodji acaba de marcar aos 88 minutos para dar a vitória ao Werder Bremen e garantir assim a manutenção do seu clube, às custas do Eintracht Frankfurt. Assim, a equipa que contava nessa altura com Haris Seferovic (agora no SL Benfica) e Luc Castaignos (ex-Sporting CP) vê-se obrigada a disputar o temido play-off de despromoção, contra o 1. FC Nurnberg.

Não é tudo: poucos dias antes da primeira mão do play-off, Marco Russ foi acusado de doping após um teste de rotina. O nível alto da hormona HCG encontrado no sangue do capitão do Eintracht Frankfurt despoletou a atenção das autoridades. Após não se encontrarem provas de doping na casa de Marco Russ, sugeriu-se a possibilidade de estes níveis se deverem ao desenvolvimento de um tumor. Horas depois, confirmou-se o pior: Marco, aos 30 anos, sofria de cancro testicular.

Isto não o impediu de liderar a equipa na noite a seguir ao diagnóstico. Jogava-se em Frankfurt a primeira mão do play-off, e Marco Russ foi ovacionado pelos mais de 50 mil adeptos presentes. Uma história bonita que não teria continuação nos 90 minutos que se seguiram. Neles, Marco marcou um autogolo e levou um cartão amarelo que o impedia de jogar a segunda mão. Naquele que poderia muito bem ser o seu último jogo como profissional, Marco deixara a equipa numa situação muito complicada.

Felizmente, o defesa-central voltaria a vestir a braçadeira de capitão. Quando voltou, em março de 2017, encontrou uma equipa muito diferente daquela que deixara. Ainda na Bundesliga, após bater o Nurnberg por um agregado de 2-1 no play-off, a equipa de Niko Kovac estava agora na luta pelos lugares europeus, que teria alcançado, se tivesse um terrível fim de época, com apenas uma vitória nos últimos dez jogos da temporada. Contou ainda com a chegada à final da Taça Alemã, a DFB Pokal, onde caiu perante o Borussia Dortmund.

Marco Russo é apelidado “o Sobrevivente”. Já tem lugar garantido nos anais do clube alemão.                    Fonte: Eintracht Frankfurt

Em 2017/2018, o Eintracht Frankfurt confirmou o seu regresso ao panorama do futebol europeu. Inspirados por Sebastian Haller e Kevin-Prince Boateng, conquistaram o oitavo lugar e, ainda melhor, a DFB Pokal. Uma vitória inesperada sobre o FC Bayern München na final (3-1) deu o troféu e um lugar na Liga Europa aos homens de Niko Kovac. O mesmo Niko Kovac iria abandonar o comando técnico do clube para rumar… ao Bayern. O homem que recuperara a glória do clube partia, e surgiam pontos de interrogação quanto a esta época.

Para esses pontos de interrogação surgiram quatro respostas. O novo treinador, Adi Hutter, e Ante Rebic, Luka Jovic (emprestado pelo SL Benfica) e Sebastian Haller na frente de ataque. Juntos, estes três já marcaram 36 golos pelo Eintracht Frankfurt, em 2018/2019.  O resto dos jogadores no plantel têm um total de… sete golos. São o grupo atacante mais eficaz da Bundesliga esta época, e os adeptos do Frankfurt podem agradecer-lhes por alguns dos feitos dos últimos meses, como a chegada aos oitavos de final da Liga Europa, após eliminar o Shaktar Donetsk. Uma boa campanha europeia seria querida especialmente para os adeptos mais veteranos, que se lembram de ver o seu clube alcançar (e a perder) duas finais da Taça dos Campeões Europeus (agora Liga dos Campeões), em 1959 e 1960.

O sonho europeu é difícil, mas não impossível de alcançar
Fonte: Eintracht Frankfurt

Muito há que analisar relativamente a este ressurgimento do Eintracht Frankfurt. A nível tático, o sistema de três centrais utilizado por Adi Hutter, com um futebol direto e entusiasmante, é uma das grandes razões para o sucesso atual. Mas talvez este sucesso se deva a uma questão menos tangível. É que Eintracht traduz-se para português como “harmonia”. E se há coisa que não faltou ao Frankfurt nos últimos anos foi harmonia. Adeptos e jogadores tiveram-na, ao aguentarem mais de duas décadas sem troféus, a sobreviverem nos escalões inferiores. Tiveram-na ao ver o seu clube a encarar a despromoção e o seu capitão numa luta contra o cancro. E têm-na agora, quando se parecem estar a assentar como uma nova força do futebol germânico.

O início do artigo não está inteiramente correto: o Frankfurt não tem vivido propriamente um conto de fadas, porque nem sempre esta história foi bela, ou poética. Não sabemos como é que os próximos anos serão, ou se a equipa vai acabar a época nos lugares europeus, ou se é sequer capaz de eliminar o FC Internazionale Milano nos oitavos de final da Liga Europa.

Mas há algo que nunca falha às “águias”, tanto às que entram em campo, como às que veem na bancada: Eintracht.

 

Foto de capa: Bola na Rede

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