Todos nós conhecemos a velha expressão popular do «parente pobre». A “extravagância” deste termo (e de vários outros) permite-nos estabelecer um paralelo perfeitamente ajustado em casos da gíria futebolista.

Falemos do TSV 1860 Munich. Um nome pouco falado, mas que trará algumas memórias aos leitores com mais de 25 anos. Aos mais novos, este não passará de um clube que é apenas uma nota de rodapé do futebol alemão. Decidi por isso carinhosamente apelidar o TSV 1860 Munich de «parente pobre» da cidade de Munique. Uma cidade claramente e totalmente dominada pelo colosso europeu, FC Bayern München.

Imaginando o cansaço que terão de ouvir falar sempre dos mesmos clubes, hoje a nota de rodapé deste artigo será o Bayern Munique e não o TSV 1860 Munich.

Como o próprio nome indica, o TSV 1860 Munich foi um clube fundado a 17 de Maio de 1860, ainda assim, a sua secção de futebol apenas abriu portas a 6 de Março de 1899. Um ano antes do seu vizinho, Bayern.

Falar por isso do «Munich Derby» é falar de uma rivalidade que começou a 21 de Setembro de 1902, já lá vão 116 anos! O resulto do primeiro encontro entre estas duas equipas seria já uma antevisão para aquilo que podíamos esperar no futuro, um Bayern contundente a vencer por três bolas a zero.

O primeiro verdadeiro período de sucesso do TSV 1860 Munich vem com o Terceiro Reich e a reorganização que houve na altura do futebol alemão. A divisão do futebol alemão em 16 ligas que estavam dividas geograficamente permitiu ao TSV 1860 conquistar a Gauliga Bayern, a liga da Baviera, duas vezes. A conquista da liga regional dava diretamente acesso ao playoff final, mas quem dominava o futebol alemão na altura era o FC Schalke 04.

Ainda assim, o TSV 1860 Munich conquista o seu primeiro grande troféu em 1942, em plena Guerra Mundial, com a vitória na Taça da Alemanha.

O «parente pobre» desta altura em Munique era o Bayern que tinha perdido alguns jogadores judeus, por razões óbvias.

No entanto, o grande período do TSV 1860 Munich vem nos anos 60 com a primeira (e única) conquista da Bundesliga em 1965-1966 e a segunda vitória na Taça da Alemanha em 1963-1964.

Para além do sucesso nacional evidente, o clube da Baviera conseguiu uma excelente campanha na Taça das Taças de 1965. Um dos clubes que “sofreu” com esta trajetória dos alemães foi o FC Porto, após ter sido eliminado num agregado de 2-1 das duas mãos. O TSV 1860 Munich chegaria à final em Wembley onde perderia para um dos clubes da cidade, o West Ham United.

Esta foi sem dúvida a década mais dourada do clube alemão. No entanto, o clube não conseguiu estabilizar e seguiu-se um período negro onde ficaria por três décadas nos escalões secundários do futebol alemão.

1994 marcaria o regresso do TSV 1860 Munich ao principal escalão do futebol alemão, depois de um terceiro lugar na Segunda Liga Alemã, faltou apenas um ponto para chegar ao titulo. Estavam de regresso os derbies à cidade de Munique.

A melhor classificação obtida pelo clube nesta “estadia” na Bundesliga seria o quarto lugar conquistado na época 1999/2000, ainda assim os adeptos do TSV 1860 Munich tiveram que ver o seu rival Bayern Munique ser campeão nacional, havendo no entanto a consolação de ter batido o seu rival nos dois jogos em que se defrontaram para o campeonato.

Os adeptos do TSV 1860 Munich certamente que estariam felizes nesta altura ao ver um plantel que juntou a experiência, à cabeça o internacional búlgaro Daniel Borimirov e o internacional alemão com mais de 100 internacionalizações, Thomas Hassler, com uma juventude bastante promissora.

Nesse plantel emergia um jovem natural da cidade de Munique, que tinha feito a formação no rival Bayern, Daniel Bierofka.

O defesa internacional alemão nunca se chegou a estrear pela equipa principal do Bayern Munique e procurou a felicidade no outro clube da cidade onde encontrou um clube que hoje o idolatra. Bierofka passou nova épocas, não consecutivas, no clube e hoje é o treinador da equipa principal.

O clube parecia ter encontrado a vontade e as condições de se manter no topo e cimentou essa convicção quando em 2001 anunciou a intenção de construir um novo estádio em parceria com o Bayern, o estádio que todos nós hoje conhecemos como o Allianz Arena. Nessa parceria ficou acordado que a propriedade do Allianz Arena ficaria dividida em partes iguais pelos dois clubes.

O problema foi quando o TSV 1860 Munich desceu de divisão em 2004, antes do Allianz Arena ter sido concluído. Quando os dois clubes se mudaram para este moderno e grande estádio, em 2005, o TSV 1860 Munich viu-se a jogar a Segunda Liga Alemã num “monstro” dispendioso.

Este seria o inicio da queda do TSV 1860 Munich financeiramente. O clube seria forçado, dada a sua saúde financeira, a vender a sua parte do Allianz Arena ao Bayern Munique por 11 milhões de euros em 2006.

O clube continuou a jogar no Allianz Arena, mas a pagar uma renda anual de 3.5 milhões de euros ao Bayern Munique. Apesar de disputar os escalões secundários da Alemanha, o clube manteria sempre uma média de espetadores de 20.000 em cada jogo no Allianz Arena.

Com a sua débil saúde financeira, o clube viu-se obrigado a voltar-se para a academia de modo a rentabilizar os seus jovens jogadores e a verdade é que o TSV 1860 Munich não se deu nada mal com essa politica.

A Bundesliga faria mesmo um 11 do século de jogadores oriundos da academia do TSV 1860 Munich e rapidamente sobressaem-se os irmãos Bender, Lars e Sven, Julian Weigl, Fabian Johnson e Kevin Volland.

Fonte: Bundesliga

As coisas para o TSV 1860 Munchen não continuavam bem financeiramente e apesar de ter sido adquirido por um investidor árabe, Hasan Abdullah Ismaik, a época 2016/2017 com o treinador português, Vítor Pereira, ao comando do clube marcaria significativamente a história recente do clube.

O clube tinha investido cerca de 10 milhões de euros em reforços e mesmo assim descia de divisão.

O 16º lugar na classificação geral da Segunda Liga Alemã significou jogar o play-off de despromoção com o terceiro classificado da Terceira Liga Alemã, o Jahn Regensburg.

Após um empate a 1-1 na primeira mão, na segunda mão no Allianz Arena esperava-se o clube tivesse a capacidade para conquistar a manutenção, mas a verdade é que um 2-0 ainda na primeira parte sentenciou o destino do TSV 1860 Munchen.

Os adeptos do clube conhecidos por serem mais fervorosos que os do próprio vizinho Bayern Munique provocaram desacatos uma vez que o jogo chegou aos 80 minutos. mostrando palavras de ordem contra o dono e o cenário era dantesco.

A relação entre a administração e os adeptos com o proprietário nunca tinha sido pacifica, pois na Alemanha a mentalidade é muito contra o investimento estrangeiro em clubes de futebol, e Hasan Ismaik acabaria por recusar pagar os milhões necessários para pagar a licença da terceira divisão Alemanha levando o TSV 1860 Munchen a cair nas distritais da Alemanha.

A intenção do investidor era levar o clube a recomeçar do zero, refugiando-se no exemplo do RB Leipzig, mas os adeptos, que já não gostavam muito dele, passaram a detesta-lo por este se ter recusado a pagar a licença e nada que Ismaik fizesse/dissesse iria acalmar os animos dos adeptos.

Em dezembro de 2017, o clube anunciaria que o “acordo de cooperação entre o clube e Hasan Ismaik terminaria”. O investidor árabe continua com a sua quota-parte do clube, pois não consegue vende-la, mas com o compromisso de não dar mais dinheiro ao clube e de não ter qualquer influência futura em decisões desportivas, deixando a atual administração eleita pelos adeptos trabalhar tranquilamente.

Estas foram as tréguas possíveis e que já trouxeram novas alegrias aos adeptos do TSV 1860 com o clube a mudar-se para o estádio onde em 1966 o seu único troféu da Bundesliga foi levantado, no Grünwalder Stadion.

Neste momento o TSV 1860 Munchen disputa a Terceira Liga Alemã depois de já ter conquistado o campeonato regional da Baviera que lhe deu acesso aos campeonatos nacionais.

Falamos de um clube que possui cerca de 22 mil sócios, não de um clube qualquer.


Foto de Capa: TSV 1860 München

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