Toda a gente, muito de vez em quando, dá por si a remexer nas gavetas e armários de casa onde se guarda a famosa “tralha”. Desde álbuns de fotografias a brinquedos, passando por testes de Geografia de 9º ano, diplomas de participação no corta-mato da escola e as inevitáveis cadernetas da Panini, quase sempre incompletas. Para quem é apaixonado pelo Futebol e por toda a cultura futebolística, é um enorme prazer poder folhear novamente as páginas da caderneta do Mundial 2006 e ver o cromo do Del Piero mal colado ou um tal Anthony Wolfe da Trinidad e Tobago com o espaço destinado ao seu cromo vazio.

Estas lembranças transportam-nos de tal forma no tempo que não só nos apercebemos de que estamos, realmente, a ficar velhos, como sentimos uma necessidade tremenda de continuar esta visita ao passado, nem que isso obrigue a deixar a casa em pantanas. Outra possibilidade, para quem consome grandes quantidades de Futebol (e não só), é passar algumas horas a ver a por vezes esquecida RTP Memória. A preto e branco ou já a cores, lá estão 22 a correr atrás de uma bola, com penteados bastante distintos dos de hoje, e com bigodes há muito perdidos nos barbeiros.

Qual não foi o meu espanto – e penso que da maioria de nós – quando, no passado sábado, vi no ecrã do meu telemóvel, na aplicação Meus Resultados, um nome que parecia estar perdido numa das tais gavetas e armários: Claudio Pizarro. O avançado peruano acabara de fazer o 1-1 em Berlim, no Hertha BSC-SV Werder Bremen.

O que tem este golo de especial?

Claudio Pizarro é o mais velho de sempre a marcar na Bundesliga (40 anos, quatro meses e 13 dias)
Fonte: SV Werder Bremen

Um golo aos 90+6’, de livre direto, que evita uma derrota fora de portas, pode sempre ser considerado especial. A tensão do jogador antes de partir para a conversão, o silêncio que invade as bancadas, os gritos do guarda-redes para a barreira e o esférico a levar a direção certa são tudo fatores que eternizam um momento. Aquilo a que se assistiu na 22ª jornada da Bundesliga foi isto, mas revestido com uma outra camada de espetacularidade: era uma lenda do jogo que o fazia.

Em 1996, no já extinto Deportivo Pesquero, do Perú, um jovem de 17 anos chamado Claudio Miguel Pizarro Bosio fazia a sua estreia no Futebol sénior. Depois de duas temporadas a um bom nível, o peruano transferia-se para o Alianza Lima, o palco onde despertou a atenção dos olheiros europeus. E, em 1999, acabaria mesmo por embarcar na sua primeira aventura europeia, ao ser contratado pelo Werder Bremen por 1,5 milhões de euros.

Em Bremen, na sua primeira época na Alemanha, foi eleito o jogador revelação da liga e foi pela primeira vez convocado para a seleção peruana. Os holofotes estavam no Bombardero de los Andes, como ficou conhecido, e o interesse do FC Bayern Munique acabou por resultar na transferência de Pizarro para o gigante da Baviera.

Claudio Pizarro marcou o seu primeiro golo na Alemanha em 1999
Fonte: Bundesliga

No Bayern, chegou aos 100 golos na Bundesliga, sendo até 2007 um dos elementos mais importantes do conjunto alemão. Contudo, era altura de o peruano procurar novos desafios, pelo que assinou pelo Chelsea FC de José Mourinho. Em Londres, Pizarro teve uma das suas piores épocas a nível de golos, tendo sido considerado uma das dez piores contratações da Premier League desse ano. Com o rótulo de “flop” e a precisar de encontrar de novo o faro para o golo que lhe era caraterístico, Pizarro foi emprestado a uma casa onde já fora feliz: o Werder Bremen.

O regresso de Pizagol ao Werder foi de tal forma determinante, que os alemães atingiram a final da Taça UEFA, que acabaram por perder por 2-1 frente ao Shakhtar Donetsk. Após ficar três temporadas a título definitivo nos verdes e brancos, o avançado peruano, já com 33 anos, voltou a Munique, mas percebia-se que esta nova passagem pelo Bayern não seria igual à primeira.

Claudio Pizarro após a conquista da Bundesliga 2014/2015
Fonte: Bundesliga

Depois de três anos como suplente dos bávaros, seguidos de dois meses como jogador livre, Pizarro juntou-se por uma terceira vez ao Werder Bremen, em 2015. Quando já não se esperavam tantos golos do Bombardero, este foi capaz de alcançar 14 tentos em 28 partidas no seu regresso ao emblema do noroeste alemão.

No entanto, a chegada dos jovens Kruse e Gnabry a Bremen representou aquele que parecia o último adeus de Pizarro ao Werder: no dia 3 de julho de 2017, com 38 anos, deixava para trás o legado de melhor marcador estrangeiro da Bundesliga, com 191 golos em 430 desafios. No dia 29 de setembro desse ano, o veterano Claudio Pizarro assinava pelo FC Colónia, marcando um golo em 16 jogos pelos bodes.

Se há histórias fantásticas que por vezes estão escondidas em livros poeirentos, algures numa gaveta ou armário, a história de Pizarro encarregou-se de contrariar esta ideia. No dia 29 de julho de 2018, o ponta de lança dos Andes assinou pelo Werder Bremen pela quarta vez na carreira, e na chegada ao clube germânico afirmou querer terminar onde tinha começado a sua viagem pela Europa, 19 anos antes.

E voltamos ao passado sábado, e a um golo que marca um percurso tão bonito como o de Pizarro. 1999, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011, 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018 e 2019: 21 anos consecutivos a furar as redes na Alemanha; a 21ª vez com mais de 40 anos; 195 golos em 463 encontros na Bundesliga.

Nesta quarta passagem pelo Werder, o ponta-de-lança peruano usa um número pouco comum para a posição: o ‘4’
Fonte: Bundesliga

Não sei se em 2020 não estarei a escrever um novo texto sobre o peruano e sobre o hat-trick que fez na Bundesliga aos 41 anos. Sei, porém, que Claudio Pizarro tem o dom de ir contra o tempo e que é um privilegiado que não perde tempo com gavetas e armários. Porque o tempo decidiu parar para não deixar de o ver jogar.

Foto de capa: SV Werder Bremen

Artigo revisto por: Jorge Neves

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