A orfandade do Maracanã

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“Pátria que me pariu!

Quem foi a pátria que me pariu?!”

(Gabriel “O Pensador”)

 

Na semana que findou, a brasileira Globo – uma das maiores cadeias televisivas do mundo – mostrou uma pequena reportagem sobre o verdadeiro “Estado de Sítio” em que se encontra o recinto desportivo mais emblemático do Brasil. Goteiras, infiltrações, ferrugem no gradeamento de fora, o relvado sequíssimo. Enfim, foram cerca de 400 milhões de euros gastos pelo Estádio Brasileiro, na renovação deste belíssimo anfiteatro: que, por sinal, era muito mais bonito e acessível antes das obras do que depois delas. Falo com conhecimento de causa, em virtude de ter conhecido bem as duas versões do estádio e de ter visitado ambas.

Ponto número um: a contextualização. O problema, segundo testemunhos recolhidos pela Globo, deve-se a um conflito entre a concessionária do espaço (Maracanã S.A.) e a comissão organizativa dos Jogos Olímpicos Rio 2016, que não terá devolvido o Estádio, depois das Olimpíadas, no mesmo estado em que o recebeu.

Assim se encontra o “ervado” do Maracanã Fonte: O Globo
Assim se encontra o “ervado” do Maracanã
Fonte: O Globo

A parceria foi estabelecida ainda em 2013. Nesse ano, a exploração comercial e a administração do estádio foram entregues pelo governo do estado do Rio de Janeiro, por 35 anos, ao tal consórcio Maracanã S.A., liderado pela famosa empresa de construção civil Odebrecht. Em março de 2016, e tendo em vista as Olimpíadas na Cidade Maravilhosa, este consórcio cedeu o Maracanã ao Comité Organizador Rio 2016. Só que no momento da devolução do estádio, a empresa detentora dos direitos de exploração não aceitou por considerar que o recinto não estava nas condições de conservação em que tinha sido cedido.

Ou seja, assiste-se a uma coisa muito comum na sociedade portuguesa, espelhada na brasileira, claro está – o empurrar com a barriga, em que cada parte aponta responsabilidades à outra e nenhuma delas assume o seu grau de comprometimento para com o caso, com o governo do Rio de Janeiro e a Maracanã S.A. a culparem o Comité Organizador dos Jogos Olímpicos.

Os assaltos aos peões nas áreas circundantes e próximas daquela região do Rio tornaram-se muito mais frequentes, subindo cerca de 75%; enquanto os roubos comerciais subiram 93% ca comparação com o período homólogo de 2015. Os turistas ficam desapontados e as visitas ao Estádio são cada vez menos frequentes.

Estranhamente, o Maracanã vem recebendo jogos importantes, todos eles oficiais. Curiosamente, o último encontro realizado no grande templo do futebol brasileiro foi um amigável de homenagem a Zico – o ainda maior artilheiro daquele estádio, com precisamente 333 golos.

 

Daniel Melo
Daniel Melohttp://www.bolanarede.pt
O Daniel Melo é por vezes leitor, por vezes crítico. Armado em intelectual cinéfilo com laivos artísticos. Jornalista quando quer. O desporto é mais uma das muitas escapatórias para o submundo. A sua lápide terá escrita a seguinte frase: "Aqui jaz um rapaz que tinha jeito para tudo, mas que nunca fez nada".                                                                                                                                                 O Daniel escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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