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Arena, s. do latim arena (areia, de que é divergente).

Apresentações feitas? É esta a magia da etimologia. Ir buscar à raiz de cada palavra as determinações que lhes dão sentido. Como a raiz de uma planta, que suga carinhosamente a água em volta.

Mas está aqui algo de estranho… não é? Vejamos. Areia? Tudo bem, gladiadores, que faziam do terreno solo sagrado nas suas infinitas batalhas travadas. Mas agora a nova moda é chamar aos estádios de futebol, arenas. Porquê? Há batalhas sangrentas no relvado? Não, apenas lutas por vencer com uma bola dentro da baliza. A multidão é insaciável? Sim! Caramba, mas com tamanho espetáculo quem não é?

Porém, o sentido conotativo e denotativo que tal vocábulo evoca é o de luta física. Com sangue e pior do que isso… a morte brutal e cruel para deleite doentio.

A nova “Arena Amazônia”, em Manuas, capital do Amazonas, está pronta. Morreu um operário português durante a sua construção. Luto. Agora mais do que nunca seria preciso trocar o tão infeliz nome tendo em vista o triste curso dos acontecimentos. Ninguém quer uma morte destas. Se há duas coisas certas na vida (a morte e os impostos) o certo é que ao segundo dá para escapar por subterfúgios, mas quanto ao primeiro todos iremos parar a um sobretudo de madeira. É que esta história de se estar vivo um dia ainda acaba mal! Só que, sinceramente, nenhum ser humano desejaria ir para o outro mundo durante a construção de um monumento edificante.

Nem dez estádios desta envergadura dariam para repor a vida que se perdeu Fonte: copamundial2014brasil.com.br
Nem dez estádios desta envergadura dariam para repor a vida que se perdeu
Fonte: copamundial2014brasil.com.br

Será a oportunidade para a Seleção “vingar” o que aconteceu. Como se pudesse ser possível fazer alguma coisa para apaziguar a dor da família do operário.

Arena Pantanal, Arena de São Paulo, Arena da Baixada… enfim. Com tanta areia não sei como não será um campeonato de futebol de praia, em vez de futebol (de relva). Felizmente o Maracanã ficou com o mesmo nome.

Em Portugal, estes nomes começam a invadir-se-nos e nós nem nos damos conta disso. Pavilhão Atlântico? Nada. Passa a Meo Arena. E as coisas vão acontecendo, vão criando raízes, como falamos em cima, e o caule fortifica e fica cada vez mais independente até se instalar. E depois… olha, depois adeus.

Peço desculpa, mais uma vez e como faço regularmente nas peças que tenho o prazer de escrever para vós, mas este assunto teria de ser tratado. Não quero estar a ser pedante, pois que isso é uma característica dos fracos. Mas é preciso chamar a atenção e corrigir algumas imprecisões tanto do lado de cá, como da outra margem do Atlântico. A língua é mutável, claro. E o futebol é o princípio de uma bela conversa.

Daniel Melo
Daniel Melohttp://www.bolanarede.pt
O Daniel Melo é por vezes leitor, por vezes crítico. Armado em intelectual cinéfilo com laivos artísticos. Jornalista quando quer. O desporto é mais uma das muitas escapatórias para o submundo. A sua lápide terá escrita a seguinte frase: "Aqui jaz um rapaz que tinha jeito para tudo, mas que nunca fez nada".                                                                                                                                                 O Daniel escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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