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Brasil e China estão num declarado “ping-pong” no que concerne ao Futebol. A China dá uma raquetada de doláres, o Brasil devolve com uma raquetada de jogadores.

Desde a primeira transferência de um jogador do futebol brasileiro para o estrangeiro, na década de vinte do século XX, a palavra de preferência como destino tinha sido uma: Europa! Europa no vocábulo do jogador brasileiro significava riqueza, não só de experiência e conhecimento, mas essencialmente financeira. Hoje, o paradigma parece estar a mudar e tem uma nova denominação: China.

A ida do jogador brasileiro para o Oriente não é de todo uma novidade. Que o digam países como o Japão e a Coreia do Sul. A novidade é mesmo a quantia de dinheiro exurbitante que o mercado Chinês está a oferecer em relação a outros mercados, acima até do Europeu. Há tempos, o empresário Marcos Motta se referiu à China como a “El Dorado do Futebol”. Terminada a época desportiva no Brasil, a virada do ano se transformou na ‘febre do ouro’ brasileira. Porém, no início de 2015 a China já havia investido 100 milhões de euros em transferências de jogadores estrangeiros. Dos cerca de 70 jogadores estrangeiros da Superliga Chinesa, um terço era brasileiro.

Um país que se vê seduzido pelo ‘talento’ brasileiro e que tem no presidente chinês Xi Jinping um apaixonado pelo Futebol, alguém que investe e colabora financeiramente com os clubes. Este ano, os jogadores com o ‘velho sonho’ da Europa passam a escolher nos seus passaportes o visto chinês.

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Luís Fabiano, Wanderlei Luxemburgo e Jadson assinam pelo T. Quanjian
Fonte: esportes.estadão.com.br
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Surge a questão: será que o jogador brasileiro está menos ambicioso do que antes?

A resposta, nos dias de hoje, é curta mas ainda assim não tão simples de responder. Como em muitas outras coisas na vida quotidiana, é necessário relativizar o que é ambição. Ela é relativa porque depende da cabeça de cada um. Assim, o que mudou não foi o grau de ambição, mas a direção a que está destinada. O jogador brasileiro continua ambicioso, mas por um motivo ou com meta diferentes: ganhar muito dinheiro em pouco tempo! Por falar em ambição, Ricardo Goulart – transferido na época passada do Cruzeiro para o Guangzhou Evergrande por 15 milhões de euros –, quando questionado sobre a possibilidade de condicionar a chamada à seleção brasileira com a sua escolha, referiu: “O mundo hoje é tão conectado que você sabe tanto sobre o que está acontecendo na China quanto a respeito do que acontece na Inglaterra” [fonte: revista electrónica Exame, de Fevereiro de 2015]. Ele está certo! Só que se esqueceu de perceber que o nível competitivo de um campeonato nada tem a ver com o outro. No momento da convocatória, isto fará toda a diferença!

Modelo Escada versus Modelo Elevador na independência financeira

Há duas formas de se chegar ao topo de um prédio alto: subindo as escadas ou indo de elevador. É semelhante a forma de medir a ambição de alguns jogadores brasileiros de chegarem ao topo salarial. Subindo as escadas leva mais tempo, exige mais de si e corre um risco maior de não conseguir chegar ao topo. Subindo de elevador o acesso é mais fácil, menos demorado e o risco de não conseguir é quase nulo. Antes, creio que o jogador brasileiro viajava para a Europa no sentido de provar as suas habilidades, superando desafios num campeonato mais competitivo, vendendo o seu talento por um preço interessante. Só que o jogador brasileiro teria de provar que consegue subir as escadas.

A China dá o acesso de elevador: rápido, menos exigente e altamente produtivo [=$]. A propósito, Aloisio (ex-São Paulo FC, transferido para Shandong Luneng) clarifica a sua ambição quando responde à pergunta de quanto tempo iria ficar na China: “Pretendo cumprir meus dois anos de contrato e, se renovar, quero ficar mais cinco aqui. Quero construír a minha independência financeira” [fonte: esportes.estadao.com.br]. Está tudo dito!

O contingente brasileiro na China

O número de jogadores do contigente brasileiro dentro da muralha Chinesa não mudou muito entre os campeonatos desde 2011. Verificando ano a ano: 2011 (28 jogadores), 2012 (29), 2013 (27), 2014 (27) e 2015 (28). O que acontece este ano é que a China começa a contratar brasileiros de outra craveira e por valores astronómicos. Além dos já presentes Tardelli, Robinho, Paulinho, Goulart, entre outros, chegam os estreantes Jadson, Luis Fabiano, Ralf, Renato Augusto e, possivelmente, Ganso, Pato e Elias. Além dos jogadores, também crescem as equipes técnicas canarinhas, lideradas pelos mediáticos técnicos brasileiros: Scolari; Vanderlei Luxemburgo; e Mano Menezes, este com um ordenado mensal a rondar os 450.000 €. Nomes e valores que trazem outra visibilidade!

Renato Augusto foi um dos craques do Brasileirão Fonte: Facebook de Renato Augusto
Renato Augusto foi um dos craques do Brasileirão
Fonte: Facebook de Renato Augusto

A Europa paga o ‘justo’, a China vende o ‘sonho’

As pessoas perguntam: o que acontece para que o Renato Augusto (27), um dos melhores do Brasileirão de 2015, rejeite a Europa e rume à China? Simples. Hoje, a Europa paga um preço justo, de acordo com a capacidade e a margem de progressão futebolística do jogador brasileiro face a outros mercados e de acordo com o Futebol Mundial globalizado. A China não! Assim, dificilmente Renato Augusto receberia mais de 200.000 € mensais em qualquer uma das equipas europeias interessadas. Só que esse era o valor que ele ganhava no Brasil (R$ 800 mil/mês). Porém, na China irá ganhar cerca de 457.000 € mensais (!!!). São mais de cinco milhões de euros por época. Os R$ 2 MILHÕES/mês não é só muito dinheiro no Brasil. É uma fortuna em qualquer parte do Mundo. Compreende-se a escolha?!

Os “(Des)Egos” brasileiros: (Des)atualização, (Des)valorização e (Des)interesse

Enquanto o talento brasileiro parece escassear, o futebol moderno começa a prosperar. Hoje, a modernização da sociedade leva a uma analfabetização motora geral ou à excessiva era informática e digital das crianças e jovens. Consequentemente, na ausência do talento o valor futebolístico surge pela intelectualização do jogo, pela qualidade dos estímulos no treino, através da periodização de princípios comportamentais de jogo e por padrões de treino que promovam a alta intensidade da performance. Todos juntos melhorarão a qualidade de jogo.

A verdade é que o Brasil, na minha humilde opinião, atravessa, ainda hoje, uma retrocesso metodológico. Há declaradamente um desinteresse por aprender e aceitar o que se ensina lá fora, uma desvalorização por ideias revolucionárias e pela evolução dos modelos de jogo, de treino e de jogador. As formas de se treinar o jogo de Futebol parecem estar desatualizadas [pelo que muita gente fala], mas pouco se faz para mudar e isso traduz-se em atrasos adaptativos dos jogadores a modelos de jogo e treino mais modernizados. Sobretudo, face a outros jogadores sul americanos. Constata-se até a diferença entre o sucesso ‘além-fronteiras’ do técnico argentino face ao técnico brasileiro.

O maior empecilho do ego é a auto-cegueira: só nao vê quem não quer! A Europa está atenta, e hoje paga ao brasileiro aquilo que é devido, só que a China paga o pedido. Cada vez mais a Europa, para inverter as lacunas na formação do jovem jogador brasileiro, contrata prematuramente. Assim, paga muito menos e forma muito mais! Hoje, se um brasileiro talentoso não emigra para a Europa até aos 22 anos, o ‘sonho antigo’ é comprado pelos chineses! A China está pondo o mundo do Futebol de ‘olhos em bico”, especialmente os jogadores brasileiros, que, na hora de contar o salário mensal, são quem mais colocam os olhos em visão PalPlus para que permita alcançar os 9 dígitos do ordenado. Haja ambição na ‘terra do ouro’!

Foto de Capa: theworldgame

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Um português residente no Brasil. Vive com intensidade e aprendeu a não ter medo de escolher. Ama e trabalha com o Futebol, que colide com alguns dos seus valores morais. Futebolísticamente interessa-se por assuntos polémicos e desmistificar ideias não sustentadas em fatos. Inconformado, contagia-se pelos porquês que o levam a amadurecer.                                                                                                                                                 O Paulo escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.