Nos últimos anos, o futebol brasileiro tem perdido muito em qualidade técnica, resultado de gestões amadoras nos clubes do país e do limitado poder económico, comparado à China e alguns países da Europa. Essa situação, no entanto, é extremamente agravada pela forma como a Confederação Brasileira de Futebol – CBF – organiza seus campeonatos, sufocando as principais equipas com maratonas de jogos durante o ano. Essa política faz com que os clubes brasileiros, mesmo aqueles considerados fortes, fiquem em desvantagem em relação às equipas de outros países sul-americanos, como as argentinas e chilenas, por exemplo.

O modelo de temporada no Brasil, diferente do modelo europeu e de diversos países sul-americanos – que é de julho a junho -, além de colidir com a agenda da FIFA, também faz com que as equipas brasileiras cheguem às finais das competições internacionais com uma certa desvantagem em relação aos adversários, porque em outubro, novembro e dezembro os emblemas brasileiros estão no final da temporada com um número de jogos elevado, maior desgaste físico, lesões e desfalques devido à janela de transferência de inverno. Na Taça Libertadores deste ano, por exemplo, na meia-final, a SE Palmeiras tinha disputado 70 partidas, enquanto o CA Boca Juniores apenas 49. No jogo entre CA River Plate e Grêmio FBPA, na mesma fase da competição, a equipa brasileira perdeu os seus dois principais jogadores por lesão: Everton Cebolinha e Luan.

Lista de campeões da Libertadores que participarão da edição 2019 da competição                            Fonte: Conmebol

O calendário de jogos no Brasil é tão desorganizado que até os jogos da própria Seleção Brasileira acabam por causar problemas aos clubes nacionais. Quando há convocatórias, algumas equipas brasileiras são desfalcadas numa fase importante do campeonato. Este ano, Tite, o selecionador brasileiro, foi alvo de diversas críticas por ter convocado titulares do CR Flamengo e do SC Corinthians (Lucas Paquetá e Fagner) para um amigável, durante as semifinais da Taça do Brasil.

A solução para esse problema parece estar longe de acontecer, uma vez que a CBF parece não abrir mão da temporada de janeiro a dezembro, mas uma solução paliativa, que poderia amenizar um pouco a amarga situação das grandes equipas brasileiras, seria diminuir a carga de jogos nos campeonatos estaduais, que decorrem no início da temporada. A disputa estadual, apesar de fomentar a rivalidade regional e ser um bom atrativo do futebol brasileiro, é inexpressiva e tem pouca relevância nos cenários nacionais e internacionais e por isso não devia ser um “peso” para os clubes que ainda têm que disputar Campeonato Brasileiro, Libertadores, Taça do Brasil e Taça Sul-Americana.

Enquanto nada for feito em relação a isso, as equipas brasileiras continuarão a entrar em campo com mais dificuldades nas competições internacionais, com desgaste físico, lesões, desfalques ou tendo que administrar outros campeonatos, em simultâneo. Um dos inúmeros reflexos dessa desorganização é que não há nenhum clube brasileiro entre os cinco maiores vencedores da Taça Libertadores da América, principal competição do continente. Se o Brasil ainda pretende voltar a ser protagonista no futebol mundial, é necessário acabar com a desorganização e arrumar a própria casa primeiro.

Foto de capa: CBF

Artigo revisto por: Rita Asseiceiro

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