O ego é algo presente em qualquer coletivo. É sempre a partir de um que existe um grupo. É no aglomerado de singular que algo plural tem existência. Uma equipa, na índole desportiva (e não só), pressupõe uma ideologia, por muito passageira que seja. Um ego comum.

Jorge Jesus é um ego absoluto. Há relatos que sempre o foi. Um individuo fiel à essência que compõe a sua mente e forma de pensar. Há quem tenha a “panca” por motores, há quem tenha o interesse por eletrónica, há quem tenha a paixão por desporto, etc.

Jesus é um sujeito genuíno. Posso muito bem ser infeliz em debruçar-me sobre uma personalidade que conheço através do virtual, e não do real, mesmo sabendo que o primeiro tem a intenção de reproduzir o segundo. Porém, sempre de forma, por muitas vezes que possa ser reproduzido, parcial.

Numa era em que a carreira de treinador assume uma popularidade e adesão imensa, o “português que redescobriu o Brasil” vem dos primórdios da profissionalização desse cargo. Vem do mais raso possível. O que o fez ser técnico deu-se ainda quando era atleta. Foram-lhe reconhecidas qualidades de liderança. Conhecimentos profundos em relação a aspetos táticos. Um talento em potenciar coletivo.

Inserido num meio futebolístico, completamente enraizado na cultura portuguesa, quer se queira, quer não, quer se goste, ou não. Foi habituado, obrigado a transformar recursos escassos em resultados imediatos. Afinal, a vida de treinador profissional obriga resultados efetivos.

Chega ao grande palco, ao mediatismo absoluto, com a chegada ao Benfica. Em 2009, chega a um clube com recursos respeitáveis, mas cujos resultados não diretamente proporcionais a tal. Pega num emblema recheado de êxitos, de glórias vividas maioritariamente a preto e branco.

Como é sabido, a sua chegada foi impactante. O sucesso foi imediato, e muito mais admirável que isso: surpreendeu. Poucos se lembravam de ver o Benfica jogar à bola como o fez com JJ. Em 2005, foi alcançado o campeonato, é certo, mas o título de 2010 foi muito mais do que resultado. Deu-se uma transição bastante clara. Foi um marco de mudança, não apenas no restabelecimento do estatuto do clube, que se perdia no tempo, ou se readquiria, de forma pontual, mas de um aumento significativo nas ambições dos encarnados, tendo em conta a hegemonia de um FC Porto sólido e extremamente bem-sucedido. Reergueu um estilo de jogo característico de outros tempos, de tempos quase esquecidos. Mas muito criticado, mesmo assim.

O eventual regresso ao Benfica na visão do adepto benfiquista disponível no nosso site
Fonte: bolanarede.pt

Ainda mais mediática, foi a sua chegada ao Sporting. Daquelas bombas de mercado que agitam até o simples simpatizante. Então em Portugal, sendo um país em que matérias do quotidiano futebolístico prevalecem sobre muitos temas de inquestionável interesse público, ainda mais.

O Sporting também não ganhava há muito. É certo que isso não mudou, mesmo com Jesus. Contudo, a sua marca no universo leonino é inegável. Mesmo batendo o recorde de pontos alcançados pelos leões em campeonatos, não foi possível sobrepor-se aos adversários. “Jogaram como nunca, perderam como sempre”. Fora rivalidades, torna-se algo factual, e muito característico do espírito sportinguista recente.

Só sai de Portugal por motivos drásticos. A sua saída de Portugal foi uma consequência. Um único ego, da mesma forma que é capaz de contribuir, construir, orientar; também pode ter o efeito contrário. E os egos não se medem por igual, cada um tem um peso específico, evidentemente.

Penso que a sua ida para a Arábia tivesse caráter temporário. Sem mercado nos três grandes, os únicos com capacidade viável de acolher o mestre da tática, fê-lo então procurar alternativas fora de portas. Workaholic como é, parar certamente não foi sequer ponderado.

Descobriu que em tempos de globalização, sair de um sítio que nunca imaginou abandonar não é o que pensava que seria. Ir para uma cultura completamente diferente, deixar o seu círculo próximo de amigos, deixar o seu habitat, a sua zona de conforto.

Alargou a sua perspetiva em relação a muitas coisas. Compreendeu, certamente, o mundo globalizado, que talvez não representava mentalmente de uma forma ampla e mais próxima da realidade.

Sustenta, na sua forma de estar, que juventude é mentalidade. As qualidades, fundamentalmente as de relação interpessoal, foram aprimoradas. Tornou-se mais terra a terra. Fiel à sua essência, implementa no futebol da sua equipa a sua energia, o seu know how metódico, jogador a jogador. Faz conhecer a função de cada um no onze.

Chegou ao Flamengo, com óbvias intenções. Conheceu o projeto, sugeriu soluções, que foram prontamente acedidas pela direção.

Foi notório que a sua arrogância nunca a tinha sido. Foi sim, interpretada como tal. Essa arrogância é, afinal, uma segurança muito própria do que sabe, e quem pedia as suas respostas era como se falasse uma língua diferente. Essa dita arrogância vinha ao de cima, pois as perguntas feitas, pouco ou mesmo nada se dirigiam ao núcleo desportivo. Ao que interessava verdadeiramente. E isso deixava-o possesso.

No Brasil, vimos em Jesus um homem que não apenas redescobriu uma filosofia de jogo perdida, um continente em que a retranca abolia a ginga fluída característica dos sul americanos. Redescobriu-se a si mesmo. Agora que soube contornar as ratoeiras em forma de pergunta, e evitar os confrontos que as mesmas impunham. O reconhecimento é obtido em duplo sentido. Preferiu fazer-se ignorante a ripostar verbalmente. Foi assertivo à sua bela maneira. Falou com bola, menos com boca. Mas claro que não se conteve, e desabafou em certos momentos. Mas, desta feita, em momentos oportunos. Toda a pressão que impede o resultado pretendido irá sempre existir, a “comitiva” de imprensa é o tribunal do futebol. E um treinador sempre se irá sentar ora como testemunha, ora como suspeito, indiciado, arguido ou réu. Depende do cenário. Dos números.

Toda a sua competência é finalmente reconhecida em absoluto. Hoje está bem cotado para subir à elite máxima. Chegou tarde, mas também chegou ao mais alto nível há dez anos. Mas também há mérito nos níveis mais baixos. Também se trabalha e existe pressão nesses patamares. Não tanta, mas qualquer emprego depende de um desempenho, do serviço prestado.

‘Tá bem (v)Arão!: de reserva a titular com um posicionamento de excelência
Fonte: CR Flamengo

Por ser Jesus de nome, os brasileiros, no geral, pensaram logo em crucifixo, fora trocadilhos por associação. Num contexto, numa cultura onde o futebol também pesa muito, as pressões são constantes. A competitividade é imensa. Há muitas equipas candidatas ao título. As expetativas são altas, gerais e os despedimentos constantes.

A forma como desprezaram os méritos de Jorge Jesus foi maldosa. A maneira precipitada como avaliaram a chegada de um técnico experiente, cheio de conhecimento, cheio de vivacidade, dono de uma forma ímpar de desempenhar a sua função foi clara. Revelou-se pobre e desleal. Afinal, era um mero “portuga” … Alguém sem renome internacional. Para eles…

Perante o sucesso que ia obtendo, justificavam com a estrutura do Flamengo. Com os nomes que compunham o “time”. Com os laterais que trouxe. Com as contratações que efetuou. Foi difícil atribuir mérito. E agora, o que justifica este fim de semana passado? Libertadores, 38 anos depois; Brasileirão, dez anos após. E ainda com jornadas por disputar, já suprimiu o recorde de pontos do campeonato. Ainda restam argumentos?

Um treinador com um staff qualificado ao seu lado, a simbiose (João de) Deus e Jesus. Por muitos erros crassos que cometeu ao longo do seu trajeto, quer a nível de aposta formativa, quer a nível de discurso público, quer a nível de insistência desmedida numa dada ideia, a verdade é que tudo se tratou de um processo, que o trouxe até ao Brasil. Mais do que merecido. Deixou para trás várias frustrações decisivas. Vingou-se dos acréscimos de compensação. Desta vez os minutos finais trouxeram justiça para a sua equipa. Foi trabalho, apesar da sua idade supor decadência para os mais leigos. A idade é realmente um posto.

O português é patriota por natureza. Qualquer um se orgulha da história da pátria, que em séculos medievais, era olhada pela civilização europeia como o fim da terra, e o início do mar. Um povo que não resistia à ideia de se aventurar no desconhecido. Parafraseando o professor José Hermano Saraiva, “Os portugueses não têm raça. São uma anti raça.” São integradores e hospitaleiros, orgulham-se disso. Orgulham-se sobretudo do compatriota que eleva bem alto o nome da nação. Do compatriota que partilha dos mesmos valores e princípios. Do conterrâneo que vence assentando neles.

O oceano era tido como território nacional. O horizonte vislumbrado parecia tão perto e com fim à vista. Além da “sardinha de cada dia”, havia conquista possível além mar. E ao haver meios, evitemos rodeios.

Jesus, no século XXI, mergulhou de olhos abertos, e nadou até à terra prometida sem sequer pestanejar. Superou o adamastor em forma de xenofobia alheia sem rodeios. Com um caráter de fé, cultivou o seu olhar sobre o jogo que mais o apaixona. Já não lidou com Renato Gaúcho como fez com Rui Vitória, Tim Sherwood ou Lopetegui. Resistiu ao irresistível, e preferiu propagar a fé. Não a fé de Cristo, como era o intuito dos navegadores, mas a fé do joga bonito de Ronaldinho.

 

 

Foto de Capa: CONMEBOL

 

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