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Normalmente um caderno de notas é um objeto onde escrevemos os nossos mais remotos pensamentos. Reflexões, memórias, “tiras” impagáveis para a posteridade. Enfim, todo esse vasto leque. Mas as notas de que vos quero falar são outras. Ou melhor, de outro tipo: musicais.

No Brasil, todos os clubes têm um hino que entoam com orgulho. Seja clube grande, médio, ou pequeno – sim, porque os times são como as pizzas, também os há em tamanhos –, por mais ridículas que sejam a letra e/ou a melodia, tudo é cantado do início ao fim. Ser-me-ia impossível reproduzir todos os hinos aqui neste pequeno espaço. Contudo, podemos transcrever algumas partes.

As canções dos quatro grandes do Rio são lindas. Todas elas à sua maneira. Desde “Uma vez flamengo, Flamengo até morrer” ou “Sou tricolor do coração!”, até “No futebol és um traço que une ao Brasil, Portugal” ou “Na estrada dos louros, um facho de luz, tua estrela solitária te conduz!”.

Peço desculpa pela prepotência, mas no parágrafo anterior coloquei ao vosso dispor quatro trechos de quatro hinos dos quatro maiores clubes cariocas. Engraçada a história dos hinos da cidade maravilhosa. Todas estas músicas de exaltação foram escritas por um único autor: Lamartine Babo. E a pergunta que se impõe é a seguinte: mas afinal, por que clube torcia Babo? Resposta: nenhum dos quatro grandes! É verdade. Ele era adepto do simpático América, também do Rio. Um clube histórico, que hoje em dia tem perdido expressão. Costuma dizer-se que o hino mais bonito do Brasil pertence ao América do Rio. Em parte, sim. Talvez Lamartine Babo tenha deixado o melhor para o seu América. Se a letra do refrão, “trá lá lá!”, pouco nos diz, a melodia é simplesmente estupenda. Ouçam pelo sórdido mundo da web e digam o que acham!

Lamartine Babo, o génio dos hinos cariocas Fonte: mensagensvirtuais.xpg.uol.com.br
Lamartine Babo, o génio dos hinos cariocas
Fonte: mensagensvirtuais.xpg.uol.com.br

Fechando o Rio, ainda há um hino de que vale a pena transcrever a letra, de tão inusitada que é. O cântico do Bangu: “Em Bangu, se o time vence há na certa um feriado, comércio fechado! A torcida reunida até parece a do Fla-Flu, Bangu, Bangu, Bangu!”. E fechamos o Rio.

Enfim, passando por Minas Gerais, temos uma música do Cruzeiro que diz: “Nos gramados de Minas Gerais, temos tantas glórias imortais, Cruzeiro, Cruzeiro querido, tão combatido e jamais vencido!”. Ou uma do Atlético Mineiro que fala “Galo forte e vingador!”, em homenagem à sua eterna mascote querida. Até o hino do América Mineiro (não confundir com o América do Rio) fala numa “torcida feminina” que se destaca. Gostos.

Eu poderia falar dos hinos de São Paulo, onde “agora quem dá bola é o Santos!” ou de que o “Corinthians é o campeão dos campeões”. E até dos gaúchos Grêmio, cujos adeptos estarão “onde o Grêmio estiver” e do Internacional, caro em palavras: “Correm os anos, surge o amanhã, radioso de luz, varonil; segue a tua senda de vitórias,colorado das glórias, orgulho do Brasil!”. Mas é tudo muito massivo. Quero que fiquem curiosos e vão ouvir algumas destas músicas que são autênticos tratados musicais e exaltações constantes à língua portuguesa.

Por falar em glorificação da nossa língua-mãe, nada melhor do que o próprio hino do Brasil. O hino mais tocado em Mundiais. Um jogo para fechar. Tentem saber o significado de algumas das seguintes palavras sem consultar o dicionário:

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas
De um povo heróico o brado retumbante
E o sol da Liberdade, em raios fúlgidos
Brilhou no céu da Pátria nesse instante

Se o penhor dessa igualdade
Conseguimos conquistar com braço forte
Em teu seio, ó Liberdade,
Desafia o nosso peito a própria morte!

Ó Pátria amada,
Idolatrada.
Salve! Salve!

Brasil, um sonho intenso, um raio vívido
De amor e de esperança à terra desce.
Se em teu formoso céu, risonho e límpido,
A imagem do Cruzeiro resplandece

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, impávido colosso
E o teu futuro espelha essa grandeza

Terra adorada
Entre outras mil
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!

Dos filhos deste solo és mãe gentil
Pátria amada
Brasil!

E isto é só a primeira parte. Não se preocupem se não decoraram. Há quem cante uma vida toda e não saiba o que significa a música. Mas o certo é que a nossa vida também é feita de melodias. E para os apaixonados isto é mais do que música. É um grito de guerra!

Daniel Melo
Daniel Melohttp://www.bolanarede.pt
O Daniel Melo é por vezes leitor, por vezes crítico. Armado em intelectual cinéfilo com laivos artísticos. Jornalista quando quer. O desporto é mais uma das muitas escapatórias para o submundo. A sua lápide terá escrita a seguinte frase: "Aqui jaz um rapaz que tinha jeito para tudo, mas que nunca fez nada".                                                                                                                                                 O Daniel escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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