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O que falta ao treinador brasileiro?

Daniel Melo · 3 min

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Ao longo de alguns artigos, que tive o prazer de digitar para esta casa, fui abordando o tema, que dá voz ao título, ao de leve. Porém, aprofundá-lo-ei. Pois que carece de ser desenvolvido. O técnico de futebol brasileiro dos dias azafamados de hoje ainda é visto como o modelo a ser seguido por (quase) todos os seus pares de outros países? Ou estará já ultrapassado? Se a resposta a esta última pergunta for sim – também é a minha opinião, de uma maneira geral, claro – temos de escrutinar as causas para isso acontecer. E o que é necessário, então, fazer, para que o técnico brasileiro volte à ribalta?

Bom, primeiro organizar melhor o calendário do Brasileirão. Parece uma medida pífia, à primeira vista. Mas não é. Sem tempo para preparar as equipes e com jogos em cima uns dos outros, o técnico do Brasileirão não terá a décalage necessária para implementar as ideias. As equipas ficam mais cansadas e perde o espetáculo. Falo em particular do Brasileirão porque, infelizmente, hoje em dia os técnicos brasileiros não estão presentes em nenhum grande campeonato do mundo, tirando o do seu próprio país. Assim, os campeonatos nacionais, qualquer um deles, tornam-se um cartão-de-visita para outros olhos, de outras nações. E se o cartão-de-visita é negativo, o cliente não volta. E não contrata.

Tite foi chamado a acordar o gigante adormecido. Fonte: Goal.com
Tite foi chamado a acordar o escrete, um gigante adormecido
Fonte: Goal.com

É difícil implementar isto. Tal como em Portugal. São países muito parecidos neste aspeto. Somos países de 8, ou 80. Mas que a mudança substancial de calendarização tem de ser feita no Brasil – tanto para proteger o jogador, como o treinador e o próprio torcedor – sobre isso não há dúvidas.

Segundo: mudanças táticas. Tite, como escrevi há dias, caro leitor, é, de facto, o único autóctone capaz de segurar o leme deste pesado barco. Pelo menos tenta atualizar-se. Vem à Europa tirar cursos. Está perto de outros pares competentes e procura saber. No fundo, procura saber. Era aquilo que o treinador brasileiro antes tinha, mas começou a dar como adquirido. Acontece a quem ganha muito: chama-se soberba.

O Brasil parou no tempo. No que aos aspetos táticos do jogo diz respeito. É inconcebível que ainda haja, no Brasil, gente de elite a pensar que hoje se pode jogar com um número 10. Não digo o número estampado na camisa. Digo em termos táticos. Isso já não existe. O próprio ritmo de jogo e a intensidade baixaram muitíssimo. Por exemplo, o Atlético Mineiro vai jogar uma semi-final de um Mundial de Clubes e perde com o Raja Casablanca de Marrocos! Com todo o respeito, mas o que é isto?! Uma equipa de um dos melhores campeonatos do mundo e de seleção a perder com os nossos vizinhos do norte de África. E Por 3-1! Nesse jogo nem quis acreditar. Era ver o Gaúcho à meia hora de jogo com os “bafos de fora”, seguido pelos companheiros também quase a desmaiar pelo ritmo de jogo dos marroquinos. Este foi um exemplo, que acabou por consubstanciar-se meses mais tarde no célebre 7-1 do Campeonato do Mundo de Seleções.

Se Tite é o homem certo para estar no comando da canarinha? Bom, pelo menos entre os treinadores brasileiros, neste momento, sem dúvida. Se isso será suficiente para melhorar? Em termos instantâneos tem sido.

Vitória nos Jogos Olímpicos pode ter marcado o início de um novo ciclo de vitórias Fonte: Reuters
Vitória nos Jogos Olímpicos pode ter marcado o início de um novo ciclo de vitórias
Fonte: Reuters

Porém, a verdadeira mudança é nas crianças. Elas têm de ser ensinadas a mudar. Têm de ser ensinadas a atacar e, sobretudo, a defender. Têm de perceber que o futebol é, mormente, aquilo que se faz quando não se tem a bola.

Tudo isto dependerá, também, da situação do país. Em termos culturais, políticos e, sobretudo, de identidade. Porque estes fatores não são alheios a este tema.

Enquanto o Brasil não se abrir a técnicos estrangeiros – uma solução mais radical -, terão de ser os nacionais a procurar aprender e mostrar que têm força para mudar. Se não, tudo ficará na mesma e o Brasil, outrora acostumado a subir ao palanque para levantar as taças, ficará no relvado a assistir os outros a comemorar.

Foto de capa: Goal.com

 

Daniel Melo

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