Por que tem o Brasil as melhores torcidas?

- Advertisement -

brasileirao

Torcer (latim torqueo) – torcer, vergar, enrolar, arrastar, tornar, torturar, atormentar, brandir, sondar, investigar). Consulta no dicionário online Priberam.

Sim. É isto que quer dizer torcer. Fazer muita força. Um esforço demasiado, até. Por uma causa. E com este raciocínio podemos chegar à segunda definição desta palavra: dar apoio a ou esperar resultado positivo de alguém. Neste caso, de um clube.

No Brasil, é um fenómeno mais ou menos antigo. Surgiu ainda na primeira metade do século passado, pelas mãos, imagine-se, de um padre. O clube? O São Paulo e o nome do católico que fez prosperar o Grêmio São-Paulino – nome da claque – era Manoel Raymundo Paes de Almeida. Decorria o ano de 1939. Pouco a pouco, outros movimentos do género foram proliferando, integrando nos grupos elementos populares do samba, do carnaval e alguns motivos religiosos. Ah, e claro, também existe sempre uma mascote ligada à torcida e, consequentemente, à equipa.

É claro que há sempre muita polémica em relação às claques. Quem as financia? Serão legais? Porque têm bilhetes mais baratos, se há sócios que não fazem parte delas? Isso deveria caber às autoridades investigar. Até porque pode haver sempre negócios obscuros incluídos no pacote. A violência também faz parte do quotidiano. Ainda há pouco tempo, jovens da torcida do Santos esventraram até à morte um congénere do Palmeiras, depois de mais um duelo para o Brasileirão. Desde 1990, são já 200 mortes registadas por violência no futebol. Muitas delas, infelizmente, ligadas aos movimentos de torcidas. Uma coisa que deveria ser de festa é muitas vezes transformada para fins malévolos. Verifiquemos, por exemplo, a invenção da dinamite, por Alfred Nobel. Aconteceu o mesmo: deturpou-se a ideia original.

Claro que durante uma partida é normal que se digam palavrões e que se cantem palavras menos bonitas em relação ao rival. Mas xingar e brincar dentro do jogo é algo que faz parte. O problema é quando isso extravasa…

botafogo
Torcida uniformizada do Botafogo
Fonte: bandeirasbotafoguenses.blogspot.com

Voltemos ao ponto inicial, falando de coisas mais bonitas, agora que a parte pedagógica já foi referida. É conhecido o poderio das torcidas brasileiras. Enfim, os “gaviões da fiel”, do Corinthians; a “torcida jovem fla”, do Flamengo, fundada ainda na década de 1960; a “galoucura”, do Atlético Mineiro e muitas outras. Peço desculpa pelas muitas que não referi, mas era para dar um exemplo pequeno. Eu já estive em várias e posso garantir: é espetáculo pela certa. Baterias e blocos de samba não param um segundo. As coreografias são animadas. Há confettis e papéis pelo ar e até papel higiénico, embora este último já não seja tão usual no Brasil, mas sim na Argentina, o que dá um efeito festivo brilhante. O Estádio da Luz, nomeadamente nos anos 70 e 80 também aparecia muito com esta configuração de papel, por exemplo. Um facto que me chamou a atenção foi que nas torcidas, e no público em geral, se reclama pouco com a arbitragem. Há assobios, claro, e gritos do tipo “juiz, ladrão!” e outros epitáfios que agora não posso aqui reproduzir. Mas o jogo segue e a alegria volta. Nem sequer se sabe quem é o árbitro e de onde vem. Acho que esse continua a ser um fenómenos exclusivo português.

Os Gaviões da Fiel no Morumbi  Fonte: Wikipedia
Os Gaviões da Fiel no Morumbi
Fonte: Wikipedia

Para dar um exemplo de números, gostaria de vos contar que a torcida “urubuzada”, do Flamengo, cujo nome foi dado em honra à mascote do clube – o Urubu -, contava nas suas fileiras, no princípio dos anos 1990, com cerca de 50 mil adeptos presentes em todos os jogos. Numa altura em que o Maracanã albergava, sem problemas, cerca de 160 mil pessoas. Era, portanto, cerca de um terço do recinto. Lembro-me de o meu pai me contar que na época em que lá viveu – e estamos a falar dos anos 1980 – assistiu a um Fla-Flu no Maracanã, com 85 mil pessoas. Disse-me que o Estádio parecia estar vazio. Imaginem se não estivesse…

Daniel Melo
Daniel Melohttp://www.bolanarede.pt
O Daniel Melo é por vezes leitor, por vezes crítico. Armado em intelectual cinéfilo com laivos artísticos. Jornalista quando quer. O desporto é mais uma das muitas escapatórias para o submundo. A sua lápide terá escrita a seguinte frase: "Aqui jaz um rapaz que tinha jeito para tudo, mas que nunca fez nada".                                                                                                                                                 O Daniel escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

Subscreve!

Artigos Populares

Mercado de inverno fechado: Chat GPT escolhe a melhor transferência e opta pela Premier League

O mercado de transferências de inverno está encerrado na maioria dos países, com várias mudanças a realizarem-se nas últimas semanas.

Virgil Van Dijk critica comentadores: «Ás vezes, as críticas também se tornam em ‘clickbait’».

Virgil Van Dijk esteve à conversa com Gary Neville, deixando algumas críticas aos comentadores e referindo que ex-jogadores deviam ter responsabilidade.

Gabriel Veron procura ‘vingar’ FC Porto

Gabriel Veron encontra-se emprestado pelo FC Porto ao Nacional da Madeira. Os insulares vão enfrentar no domingo o Casa Pia.

José Mourinho atento aos jovens do Benfica: treinador assistiu a jogo no Seixal

José Mourinho marcou presença no Seixal durante este sábado, assistindo à partida entre o Benfica e o Braga, em juvenis.

PUB

Mais Artigos Populares

Insólito: Treinador do Rennes pede percentagem das transferências de Kader Meité e Jérémy Jaquet por ter ‘valorizado os jogadores’

O treinador do Rennes pode pedir a demissão nas próximas semanas e tem algumas exigências nunca antes vistas.

Análise ao mercado de Inverno do FC Porto

O FC Porto é um caso muito interessante, especialmente quando o clube está a colher os frutos da formidável janela de verão

Kenan Yildiz renova com a Juventus até 2030: extremo passa a ser um dos mais bem pagos da Serie A (mas segue atrás de...

A Juventus anunciou durante este sábado que Kenan Yildiz renovou o seu contrato com o emblema de Turim até ao verão de 2030.