A CRÓNICA

Depois da épica fase de grupos que os homens de Gasperini proporcionaram a quem gosta de futebol (única equipa com três derrotas nos três primeiros jogos a qualificar-se para os oitavos), a Atalanta recebia o Valência com pompa e circunstância, numa noite histórica para o clube e para a cidade. A ocasião foi tão grande que o Mayor da cidade, Giogio Gori, justificou a falta de um aluno «devido a um evento histórico cultural, ele vai assistir com o seu pai a um jogo histórico para Bergamo». Percebe-se, então, o impacto social destes Oitavos-de-Final para os italianos e a forma como preparam o seu jogo do ano.

No lado dos espanhóis, Celades não atravessa boa fase no comando ché, depois de três jogos sem ganhar e com a enfermaria cheia: Rodrigo, Paulista, Garay, Florenzi e Coquelin continuavam sem condições de ir a jogo. Não era expectável uma grande exibição espanhola em San Siro, a casa emprestada da Atalanta, que se vê obrigada a jogar a Champions a 50km de casa, mas tamanha derrocada era também de difícil aposta. O ambiente fervoroso, com 42 mil tiffosi, ajudou ao desfecho final.

O jogo decorreu como era expectável e a Atalanta entra a todo o gás, com a presença de Dómenech a impedir males maiores e a emendar o espaço concedido por Mangala e Diakhaby. A capacidade física dos homens de Gasperini obrigaram o Valencia a um jogo que não é seu, numa procura constante da profundidade e, por consequência, de Gonçalo Guedes. O português não esteve nos seus dias apesar do estilo abnegado.

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E, depois, Papu Gómez. O criativo e dono da equipa italiana, na qual dita ritmos a bel prazer, conduz pela esquerda e descobre Hateboer ao segundo poste. A influência do trequartista argentino é enorme e só equiparável ao peso de Ilicic nas manobras ofensivas. Os dois, de estilos distintos e objectivos diferentes, complementam-se como poucos por essa Europa fora e em dia sim, como hoje, tornar-se-á sempre difícil aguentar as movimentações italianas na procura do golo (melhor ataque da Serie A). O esloveno, já que se fala nele, marca de pé direito o segundo, à beira do intervalo, e confirma a supremacia dos comandados de Gasperini, apesar de se notar uma obsessão pelo golo e por margens mais confortáveis no resultado.

O que se confirmou na segunda metade. O golaço de Freuler, num remate em arco a obrigar Domenech a seguir com os olhos, abateu ainda mais o conjunto espanhol sem armas nem meio-campo para lutar: apesar dos esforços de Kondogbia na luta nuclear, Parejo é um romântico da bola e desinteressado pelos conflitos naquela zona. Não que a Atalanta defendesse melhor, que a ingenuidade foi perceptível a espaços, como no golo de Cheryshev: um mau passe na zona central sobra para o ucraniano que, ao primeiro toque na bola, fá-la entrar num remate rasteiro à esquerda de Gollini, já depois do bis de Hateboer; Aos 66’, o contador marcava 4-1 e as incursões de Gameiro e Cheryshev, em tentativas desesperadas de amenizar a vantagem, não puseram em causa o domínio dos homens de Gasperini; Aliás, o apaixonado e excêntrico treinador, decide aos 74’ trocar Caldara por Dúvan Zapata, deixado à mercê no banco de suplentes. Desce Freuler para central, Pasalic encaixou com De Roon e Papu passou a único ‘10’. A saudável loucura da mudança acentuou ainda mais as diferenças de qualidade nas equipas e foram várias as oportunidades para dilatar a vantagem.

A FIGURA

Fonte: Atalanta

Josip Iličić- Apesar do bis de Hateboer e da magia de Papu Gómez, Ilicic demonstrou mais uma vez as suas excepcionais qualidades em contexto de Champions. Lutou, segurou, marcou e confundiu marcações, no seu jeito desengonçado, mas incrivelmente técnico e letal. Craque que chegou ao estrelato demasiado tarde.

FORA-DE-JOGO

Fonte: UEFA

Parejo- Apesar das tentativas em pegar na batuta, não foi jogo para ele. Não por falta de espaço para progredir e organizar, de frente, como bem gosta; De Roon e Pasalic apertaram e taparam todos os caminhos e, assim, abateu-se o Valência. Para esquecer, ficando a promessa de uma segunda mão a alto nível num Mestalla que nunca perdoará este tipo de exibições.

ANÁLISE TÁTICA – ATALANTA BC

O 3-4-2-1 como base para todas as atuações. Tóloi e Caldara como bloqueadores, Palomino entre eles. Hateboer e Goosens como locomotivas a completar as alas, enquanto Freuler e De Roon dinamitaram as aspirações ché a êxitos. Pasalic fez as vezes de número ‘10’, jogando à frente do duplo pivot, mais como médio de ligação que ajudaria, em primeira fase, Papu Gómez, e os dois em conjunto prestavam auxílio a Ilicic. Gollini começou na baliza e demonstrou bons apontamentos, sobretudo na coragem para sair dos postes. O preenchimento da zona central e a inclusão dos alas em zonas de finalização foram ingredientes demasiado fortes para o apetite espanhol.

11 INICIAL E PONTUAÇÕES

Gollini (7)

Tóloi (4)

Palomino (5)

Caldara (5)

Hateboer (8)

De Roon (8)

Freuler (8)

Goosens (7)

Pasalic (6)

Papu Gómez (8)

Ilicic (9)

SUPLENTES UTILIZADOS

Dúvan Zapata (6)

Malinovsky (5)

Tameze (-)

ANÁLISE TÁTICA – VALENCIA CF

Com a equipa bem moldada ao 4-4-2 de Marcelino Toral, Celades não foi criativo na abordagem ao jogo, muito por culpa das lesões e castigos. Diakhaby e Mangala não foram uma dupla eficaz, com erros de posicionamento constantes. Wass e Gayá foram sempre laterais acessíveis, tanto a oferecer linhas de passe como a associar-se por zonas interiores, onde Gayá se destacou. Kondogbia foi bombeiro de serviço e mal acompanhado por Parejo e a dupla mesmo a 100% nunca seria capaz de ocupar convenientemente o espaço que Ferrán Torres e Soler deixavam, no ataque aos corredores. Os extremos espanhóis foram pouco voluntariosos na luta a meio-campo e preferiram sempre as zonas exteriores, onde Guedes também atacava. O português, que jogou no apoio a um desinspiradíssimo Maxi Gómez, lutou muito mas sem qualquer resultado prático.

11 ONZE INICIAL E PONTUAÇÕES

Domenech (7)

Wass (5)

Diakhaby (4)

Mangala (4)

Gayá (5)

Kondogbia (7)

Parejo (4)

Ferrán (6)

Soler (5)

Guedes (5)

Máxi Goméz (4)

SUPLENTES UTILIZADOS

Cheryshev (6)

Gameiro (5)

Foto de Capa: UEFA

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

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