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“Outside the family life, there is nothing better than winning the European Cups.”Brian Clough (vencedor de duas Taças dos Clubes Campeões Europeus ao serviço do Nottingham Forest)

As quatro grandes penalidades consecutivas defendidas pelo gigante romeno Helmuth Duckadam; uma equipa albanesa que, de forma a equilibrar uma eliminatória com o poderoso Ajax, faz com seja proibida a entrada no seu país de jogadores com cabelo comprido; um Peter Shilton que, descontente com o estado dos relvados dos campos de treino em Madrid, decide ir treinar para uma conhecida rotunda da cidade; uma nuvem de fumo que força à repetição integral de um jogo em Belgrado e salva o AC Milan de uma derrota certa; e uma grande penalidade falhada por John Terry que dá a vitória aos seus rivais do Manchester United no imponente Estádio Luzhniki, em Moscovo, são alguns dos muitos episódios que marcam a história dos 60 anos da mais importante competição de clubes a nível europeu, a UEFA Champions League.

As primeiras imagens que me vêm à memória são as da final de 1986-87, quando o FC Porto de Artur Jorge mediu forças com a super máquina alemã do Bayern Munique. Aos 6 anos de idade, não tinha obviamente a sensibilidade necessária para entender a essência do futebol e muito menos para perceber o que estava em causa naquele jogo disputado no mítico Prater de Viena. Para mim, aquilo que tornou aquele dia especial foi talvez o facto de jantar na sala de estar, onde estava a televisão, algo muito pouco habitual na casa dos meus pais, e o facto de o meu tio, confesso adepto do SL Benfica, ter corrido para minha casa munido de uma garrafa de champanhe pouco tempo depois de o pequeno Juary ter dado o golpe final no poderoso Panzer germânico. Os dias que se seguiram ao jogo serviram para a rapaziada com quem jogava à bola nas traseiras do meu prédio tentar imitar, alguns com bastante sucesso (eu não incluído), o majestoso golo de calcanhar apontado pelo diamante argelino do FC Porto, o grande Rabah Madjer. Para mim, aquela final serviu essencialmente para despertar a curiosidade de conhecer melhor os jogadores, saber o seu nome, a posição em que jogavam e por onde já tinham passado. Nomes como os de Lothar Matthäus, Dieter Hoeness ou Helmut Winklhofer constituíam uma barreira linguística quase intransponível para alguém que na altura tinha apenas 6 anos de idade, mas o facto de os repetir a todos, vezes sem conta, como se de uma rotina diária se tratasse, sempre que o meu pai me ligava do emprego, ajudou-me a ultrapassar a falta de destreza linguística inicial.

João Pinto e Lothar Matthäus antes do apito inicial da final de Viena Fonte: ESPN
João Pinto e Lothar Matthäus antes do apito inicial da final de Viena
Fonte: ESPN

Os anos foram passando, e a minha curiosidade pelo futebol e pela Liga dos Campeões (Taça dos Clubes Campeões Europeus) foi-se adensando, de tal forma que, naquela altura, tudo o que me permitisse saber mais sobre uma e outra coisa foi-se tornando os meus companheiros de brincadeira. Livros, revistas, cromos, o Domingo Desportivo da RTP1 e cassetes VHS, tudo servia para saber um pouco mais sobre o desporto rei. Lembro-me com alguma nitidez da final de 1989 entre o Steaua de Bucareste de Gica Hagi e o AC Milan de Marco Van Basten, que tinha entrado para a minha selecção de personas non gratas após ter marcado aquele golo memorável na final do Euro 88 a Rinat Dasaev, o meu ídolo de infância. O AC Milan, que não era considerado por muitos, jornalistas italianos incluídos, como favorito para final disputada em Camp Nou, venceu o jogo por uns contundentes 4-0 e inscreveu, pela segunda vez, o seu nome na lista de vencedores do tão ambicionado troféu após um longo jejum de 20 anos. À frente da esquadra rossoneri estava Arrigo Sacchi, o mestre do 4-4-2 à italiana, o líder de uma equipa que baseava grande parte do seu jogo em poderosos movimentos de contra-ataque que eram geralmente fatais para as formações adversárias.

Marco Van Basten cabeceia nas alturas perante o olhar incredulo de Dan Petrescu Fonte: Soccer Nostalgia
Marco Van Basten cabeceia nas alturas perante o olhar incredulo de Dan Petrescu
Fonte: Soccer Nostalgia

Antes do jogo, os jornais italianos esperavam um AC Milan a jogar à espera do erro do adversário, de forma a tentar surpreender uma equipa romena que confiava o seu jogo a movimentos de ataque organizado conduzidos pelo “Maradona dos Cárpatos”, Gica Hagi, e finalizados pelo lendários goleadores Marius Lacatus e Victor Piturca. Os jogadores do AC Milan, cientes dos riscos que corriam, adoptaram uma estratégia diferente e, no balneário, antes do apito inicial, Ruud Gullit deu o mote, dizendo aos seus colegas de equipa que era necessário atacar desde o primeiro minuto e não deixar o emblema romeno respirar nem por um segundo. Assim foi e, pela primeira vez, a diferença de golos numa final foi de quatro, algo que só o mesmo AC Milan viria a repetir alguns anos mais tarde, em Atenas, perante o poderoso Barcelona.

Este troféu, que agora comemora 60 anos de existência, acompanhou as mudanças políticas na Europa e não deixa de ser interessante o facto de 1991, ano em que o surpreendente FK Crvena Zvezda (Estrela Vermelha de Belgrado) se sagrou campeão europeu, ter sido também o ano em que a Jugoslávia foi desmantelada e em que se disse o último adeus à Taça dos Clubes Campeões, rebaptizada então como Liga dos Campeões. Essa marcante final de Bari entre o FK Crvena Zvezda e o Olympique Marseille foi apenas resolvida na marcação das grandes penalidades. O lendário lateral francês Manuel Amoros não esteve à altura das responsabilidades e permitiu à fantástica armada jugoslava, da qual faziam parte Prosinecki, Pancev, Savicevic, Jugovic e Mihajlovic, levantar o troféu, dando ao seu país uma última e gloriosa vitória antes do seu desaparecimento. O jogo em si ficou marcado por outro episódio curioso, protagonizado pelo maestro Dragan Stojkovic, que se havia mudado da equipa de Belgrado para o emblema francês um ano antes e que pediu ao seu treinador (Raymond Goethals) para não bater uma grande penalidade, já que não tinha coragem para tal.

A poderosa armada do FK Crvena zvezda que venceu o torneio em 1991 Fonte: historiadelfutbolenimagenes
A poderosa armada do FK Crvena zvezda que venceu o torneio em 1991
Fonte: historiadelfutbolenimagenes

Os 60 anos da Champions League são isto: história, emoção, surpresa, magia, momentos mais ou menos felizes, golos de levantar estádios e outros de fazer corar os melhores do mundo. A essência do desporto rei está a perder-se à medida em que mergulhamos, cada vez mais profundamente, numa era em que o poderio financeiro vence, ou sai quase sempre vencedor, desvirtuando o verdadeiro âmago do futebol e deixando que, da Liga dos Campeões, façam parte não só os verdadeiros campeões, mas também aqueles que, à conta de malabarismos financeiros, conseguem sempre ou quase sempre um lugar de destaque nos seus próprios campeonatos nacionais.

Foto de Capa: El Confidencial

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