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Neymar Júnior, 23 anos, estilo gingão e ar bem-disposto, é, talvez pelo apelido que o pai lhe deu, um daqueles tipos que teimam em continuar a ser crianças. Há de se retirar e continuar a jogar como fazia lá na rua, onde a única preocupação era divertir-se e ser feliz. Todo ele é irreverência, desde o alto do seu penteado à moicano, que vai mudando de cor, até à ponta das botas, com que faz maldades aos adversários. Todo ele é irreverência, exceto quando lhe chegam um microfone à frente. Aí, a crista do cabelo baixa e ouvimo-lo, reverente, dizer algo como “O Messi é que é o melhor do mundo”.

Dentro de campo, enfrenta qualquer um, sem olhar a nomes ou estatutos. Pega na bola, parte para cima do adversário direto, e depois do outro, e depois do outro, faz um túnel ao primeiro, um cabrito ao segundo e um elástico ao terceiro, finta o guarda-redes e depois volta para trás para terminar a jogada com um remate de letra, que é mais bonito. E faz isto, quer esteja a perder ou a ganhar por goleada, altura em que os adversários o acusam de lhes faltar ao respeito e aproveitam para correr com ele a patadas, por cometer esse crime de se divertir e dar espetáculo. Neymar é um descarado que “sai do guião e comete o disparate de fintar toda a equipa adversária, o árbitro e o público nas bancadas, pelo puro gozo do corpo que se lança à proibida aventura da liberdade”, como diria Eduardo Galeano. Neymar é um descarado dentro de campo, mas, cá fora, se lhe põem um microfone à frente, joga à defesa e diz algo como “sinto-me muito honrado por jogar ao lado de Messi, o melhor jogador do mundo”.

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Neymar está em grande destaque no FC Barcelona Fonte: FC Barcelona
Neymar está em grande destaque no FC Barcelona
Fonte: FC Barcelona

Depois de marcar um golo, frequentemente dá largas à alegria através da dança. Sozinho ou acompanhado (normalmente por Dani Alves), com coreografia ensaiada ou de improviso, Neymar vira-se para a bancada, abana a anca, agita os braços e saltita de um lado para o outro ao som de uma música que só ele ouve, mas que é capaz de converter qualquer estádio num enorme sambódromo. Ainda assim, quando um qualquer jornalista o interpela, Neymar não arrisca um passo em falso: “Todos sabemos que Messi é o melhor”, dirá.

O corpo conta já 34 tatuagens. A última, na perna, mostra um menino com um chapéu do Brasil na cabeça e uma bola debaixo do braço, olhando a favela. O menino da tatuagem está de costas, mas aposto que a cara dele é a de quem planeia fintar todas as dificuldades que lhe apareçam pela frente na vida. E mais: fazê-lo com um sorriso nos lábios. É que, afinal de contas, “Life is a joke” lê-se no braço de Neymar e “Tudo passa”, diz-nos outra das suas tatuagens, não menos importante que aquela que diz, simplesmente, “Alegria”. No entanto, Neymar chega à flash-interview e diz algo como “Eu contento-me em concorrer para ser o segundo melhor”, enquanto, na sua perna esquerda, o menino da tatuagem baixa a cabeça e chora.

Não sei se Neymar já está em condições de destronar Messi ou não. O que sei é que não tem de prestar reverência ao argentino nem a ninguém. Entende-se que o tenha feito quando chegou, mas já vai sendo hora de se assumir como verdadeiro candidato a vencer a Bola de Ouro. Não faz sentido que seja o próprio Neymar a afastar-se da corrida e aceitar um papel secundário, como fez várias vezes esta época (no seu discurso, não dentro de campo). Neymar tem é de agarrar no microfone, dizer que é o melhor deste mundo e do outro e, a seguir, convidar a jornalista para ir tomar um copo. Neymar é um descarado dentro de campo e deveria sê-lo também fora. Veremos se o será em 2016.

Foto de Capa: Facebook Oficial de Neymar Jr.