Não existem relações perfeitas e a relação entre o Club Atlético Madrid e Diego Simeone são um exemplo disso. Em dezembro de 2011, Simeone voltava ao clube que já tinha representado como jogador, para substituir Gregorio Manzano. O impacto foi imediato: melhorou a classificação na La Liga, terminando em quinto lugar, e venceu a Liga Europa.

A partir da época 12-13, os resultados são absolutamente notáveis. O Atlético Madrid qualificou-se sempre para a Liga dos Campeões, ou seja, acabou sempre entre os quatro primeiros. Chegou a duas finais de “Champions”, venceu uma Supertaça Europeia, uma Copa do Rei, outra Liga Europa, uma Supertaça de Espanha e uma Liga Espanhola, em 2014. Quando se olham para estes números, é impossível beliscar sequer o legado de Simeone, que pegou numa boa equipa de Liga e Liga Europa e transformou-a num “monstro” que luta pela La Liga e que chega a finais de Ligas dos Campeões.

No entanto, como em muitas relações, há a fase da estagnação e uma incompatibilidade de objetivos. Por um lado, temos o Atlético Madrid que pretende fazer um upgrade ao seu jogo, contratando superestrelas, como João Félix ou Thomas Lemar, pagando bem e caro, face à concorrência de diversos “tubarões” da Europa que também os queriam. Por outro, temos Simeone, fiel ao seu estilo que, por mais que queira, não consegue mudar as diretrizes do seu modelo de jogo.

Na pré-época, sobretudo devido aos 7-3 sobre o rival Real Madrid CF e olhando para os jogadores do plantel, esperavam-se uns colchoneros arrebatadores. Simeone dava liberdade criativa aos seus atletas, partia o bloco algumas vezes (médios interiores, como Koke ou Lemar, que fazem muito essas posições, não tinham de acompanhar tanto os laterais, por exemplo) e jogava com as linhas mais subidas, dando algum espaço nas costas aos adversários, mas sufocando a partir do meio do meio-campo oponente.

João Félix continua em fase de adaptação, estando ainda longe do seu nível.
Fonte: Club Atlético Madrid

No entanto, começou a época e voltou o “velhinho” Atlético Madrid de Simeone. Pragmático, a jogar para a vitória e com uma eficácia defensiva e ofensiva, verdadeiramente incríveis. As vitórias são magras e sem brilho, os jogadores não se valorizam, pois estão “amarrados” na teia e exigência tática do argentino. É desconfortável acompanhar esta equipa, pois parece que existem duas identidades presas no mesmo corpo, que lutam inconscientemente entre si pela hegemonia e comando.

Uma das identidades é composta por jogadores com características para outro tipo de jogo, como Félix, Lemar, Correa, Herrera ou Trippier, entre outros, a outra identidade é a de Simeone. Apesar da direção do Atlético Madrid dotar a equipa de outros argumentos técnicos, dando a ideia que quer uma mudança de rumo no modelo de jogo, uma subida de nível, Simeone, como sempre, puxa a equipa para a sua zona de conforto, impedindo-a de crescer ao seu máximo potencial. A principal prova de que Simeone não consegue sair da zona de conforto, é a desvalorização “gritante” de vários jogadores que passaram pelas suas mãos, como por exemplo: Nico Gaitán, Jackson Martínez, Ferreira-Carrasco, Kevin Gameiro, Gelson Martins, Luciano Vietto, Alessio Cerci, entre tantos outros.

É um treinador que se mantém e continuará a manter reservado, pragmático e à procura da vitória. Assim sendo, existem duas possibilidades e das duas, uma: ou a direção do Atlético Madrid para de adquirir estrelas emergentes e de fazer compras elevadas de elementos tecnicamente fortes, mas que não se encaixam no estilo de Simeone (pois a desvalorização é inevitável); ou Simeone faz parte do ciclo de vida passado do clube, fê-lo crescer e igualar os melhores da Europa e do Mundo e precisa agora de revitalizar outro clube e seguir outro projeto semelhante (como por exemplo, pegar num AC Milan ou Arsenal FC).

Foto de Capa: Club Atlético Madrid

Artigo revisto por Joana Mendes

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