Mais uma época, mais uma janela de transferências. Quem diria, quando a primeira bola de futebol foi chutada, que este jogo acabaria a valer biliões de euros? Quem adivinharia este carnaval de rumores, intrigas, rescisões e contratações? Ninguém sabe muito bem como aqui chegámos, mas cá estamos. E, agora que o mercado de transferências fechou oficialmente (isto do oficialmente tem muito que se lhe diga, até porque entretanto mais umas dezenas de negócios foram finalizadas e já vamos no segundo dia de setembro), apresentamos uma retrospetiva dos melhores – e piores – compradores.

Comecemos pelos clubes que tiveram, segundo adeptos e jornalistas, o pior desempenho nestes últimos dois ou três meses. E para isso basta olhar para a segunda transferência mais cara do verão: Cristiano Ronaldo, do Real Madrid para a Juventus FC, a troco de 100 milhões de euros, segundo o site Transfermarkt. Ora, por tudo o que “CR7” representa, esta foi uma perda enorme para os blancos. Uma perda que o dinheiro recebido não compensa.

Mas, mesmo quando olhamos para esse reforço financeiro que Ronaldo valeu ao Real Madrid, percebemos que Florentino Peréz e Juan Lopetegui pouco o utilizaram. A contratação de Thibaut Courtois, a troco de 65 milhões de euros, não parecia a mais urgente, tendo em conta o desempenho de Keylor Navas; Vinícius Junior, que custou 45 milhões de euros, tem apenas 18 anos e é, na melhor das hipóteses, um investimento a (muito) longo prazo; Álvaro Odriozola, chegado dias antes da saída de Cristiano, já provou ser um lateral direito com grande margem de progressão, mas é, novamente, uma solução a longo prazo para o lugar indiscutível de Daniel Carvajal; finalmente, temos o novo número 7… Mariano Díaz. Com todo o respeito pelo avançado da República Dominicana, que na época passada apontou 21 golos ao serviço do Olympique Lyonnais, esta decisão parece precipitada e despropositada. Não é propriamente pela sua contratação: Mariano já passou pelo Real Madrid – entre 2012 e 2017 – e pagar 22 milhões de euros por um avançado que tem características diferentes e mais versáteis que as de Benzema, que já não caminha para novo, não é mal pensado.

Contudo, dar-lhe um número envergado por um jogador que quebrou praticamente todos os recordes ofensivos na história do clube, de La Liga e da Liga dos Campeões? É algo sintomático de uma direção desesperada por preencher um vazio para o qual não se soube preparar. Para já, as vitórias iniciais na liga frente ao Getafe (2-0), Girona (1-4) e Leganés (4-1) ainda não apagaram o dissabor deixado pela derrota de 4-2 frente ao rival Atlético de Madrid, na Supertaça Europeia. A apreensão continua, após umas compras muito pouco razoáveis.

O legado continua…?
Fonte: Real Madrid CF

O Real Madrid não foi, porém, o único clube a deixar os adeptos com os nervos em franja devido às suas ações no mercado de transferências. Aliás, se viajarmos para o novo estádio de White Hart Lane, na Inglaterra, vemos outro exemplo disto. Neste caso, até foi a inação do Tottenham que suscitou algumas questões. Isto porque os Spurs não contrataram absolutamente ninguém. A única nova cara na equipa de Mauricio Pochettino é Lucas Moura, cuja transferência já havia sido acertada com o PSG em janeiro. De resto, o clube gastou zero em novos jogadores, mas também não recebeu nada, vendo apenas saídas por empréstimos. Por um lado, o encargo financeiro da mudança de estádio pode ser uma explicação para este fenómeno. Por outro, também pode ter sido Pochettino que decidiu manter a base sólida e jovem do seu clube intacta, dando um ano ao plantel para se entrosar enquanto lança jogadores da academia na primeira equipa. De qualquer maneira, numa liga como a inglesa, onde os milhões não param de fluir, este é um caso raro.

No inverso da medalha, temos clubes que se mostraram particularmente ativos ao longo da época estival. Mantendo-nos em Terras de Nossa Majestade, podemos olhar para o Wolverhampton Wanderers. Dando continuidade a um longo investimento, que fez com que, no espaço de três anos, subissem da terceira divisão inglesa à Premier League, os Wolves fizeram questão de se afirmarem como uma força a ser reconhecida. Contraram grandes nomes, como Rui Patrício – a custo zero – e João Moutinho – por 5,6 milhões de euros -, e jovens promessas, como Adama Traoré ou Diogo Jota – cujo empréstimo do Atlético de Madrid se tornou permanente, a troco de 14 milhões de euros. Isto a juntar à qualidade já presente, com jogadores como Rúben Neves e Ivan Cavaleiro. A prova de que, quando bem utilizado e alocado, um reforço financeiro pode surtir efeitos positivos, especialmente a longo prazo. Veremos agora como é que este talento se irá sair no topo do futebol inglês.

Nuno Espírito Santo será certamente um homem feliz depois de todas estas contratações
Fonte: Wolverhampton Wanderers

Viajando agora para Itália, olhamos para o Internazionale Milano, que garantiu os serviços de Radja Naingolann ao rival AS Roma, a troco de 38 milhões de euros. Para além do dínamo belga, trouxe ainda para o Giuseppe Meazza jogadores como Lautaro Martínez, Simone Vrsaljko (finalista do Mundial), Stefan de Vrij, que chegou a custo zero da SS Lazio, Kwadwo Asamoah, Baldé Diao Keita, e muitos outros. Estas contratações, que vieram reforçar praticamente todas as áreas do plantela neroazzuri, deixaram os fãs empolgados e subiram as expectativas para esta época. No entanto, basta olhar para os seus coabitantes de estádio, o AC Milan, para perceber que gastar muito nem sempre significa gastar bem. Já na época passada os rossoneri deram uso a centenas de milhões de euros, numa tentativa de melhorar as prestações dentro de campo, para acabarem o campeonato num mísero sétimo lugar. Mas aqui estamos apenas a avaliar as contratações dos clubes e, em teoria, o Inter formou um plantel que o pode devolver ao seu estatuto de grande do futebol italiano e europeu.

O “Ninja” na sua apresentação pelo Internazionale
Fonte: Internazionale Milano

Não podemos deixar de realçar equipas como o Liverpool, que juntou às suas fileiras Fabinho (do AS Monaco) e Naby Keita (do RB Leipzig), ou o FC Barcelona, que contratou Malcom numa espécie de golpe de teatro, quando o extremo brasileiro já era dado como certo no AS Roma.

Numa janela de transferências que não bateu nenhum recorde absoluto no que toca à quantia paga por um jogador, vimos boas pechinchas – Arturo Vidal a chegar ao Barcelona por apenas 18 milhões; Emre Can a ir para a Juventus a custo zero – e valores que deixaram muitos boquiabertos – Richarlison no Everton por 40 milhões ou Kepa Arrizabalaga no Chelsea por 80, por exemplo -. A transferência mais cara acabou por ser a de Kylian Mbappé, mas, tendo já sido anunciada no ano passado, a quantia de 130 milhões que o PSG pagou ao AS Monaco não supreendeu ninguém.

Agora que os cheques já foram levantados e os contratos assinados, vamos lá ao que interessa, porque não é o dinheiro que vai entrar em campo. A euforia do festejo de um golo continua a ser grátis, felizmente. Quero dizer, há o preço do bilhete/da televisão, da cerveja, do courato… enfim, desde que os verdadeiros adeptos não se transfiram, estamos bem.

 

Foto de Capa: Juventus FC

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