Costuma utilizar-se a expressão “tocar os extremos” quando queremos passar a ideia de comunhão entre dois pontos que contrastam. Madrid é o ponto de encontro entre, não dois, mas um extremo e um avançado, cuja relação com as respetivas seleções encontra paralelismo na combinação entre o dia e a noite.

Karim Benzema e Gareth Bale são os protagonistas da mais recente série rodada em Espanha, França e País de Gales, que se fosse um filme seria candidata ao óscar de melhor argumento original, e cujos próximos capítulos aguardamos com expetativa.

Mas como ninguém gosta de apanhar uma temporada a meio, recuemos ao primeiro episódio.

“Sexo, Mentiras e Vídeo”

Fonte: Uefa
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Neste remake da comédia dramática de finais dos anos 80, Mathieu Valbuena, que à data representava o Olympique Lyonnais, estaria a ser chantageado por alguém que ameçava tornar público um vídeo íntimo do extremo.

O caso, que foi parar às mãos da polícia judiciária francesa, teve como desfecho um plot-twist digno dos melhores blockbusters: do grupo organizado pela chantagem sexual e respetiva extorsão, fariam parte os colegas e compatriotas Djibril Cissé e – imagine-se! – Karim Benzema.

Este último, acusado formalmente, deixou de fazer parte das contas de Didier Deschamps a partir deste caso. De lá para cá, a ida à final do último Campeonato da Europa e, sobretudo, o título de Campeão Mundial em 2018, vão legitimando a opção do selecionador francês em deixar de fora das convocatórias um dos melhores jogadores da atualidade na única posição onde escasseia talento na seleção gaulesa.

Dois pares de anos volvidos e o avançado do Real Madrid saiu da toca do Barnabéu para, como se se tratasse de um ardil, tentar matar dois celhos numa cajadada: ao mostrar interesse em representar o país de origem de seus pais, a Argélia, não só retomaria a carreira a nível de seleções, como aproveitava a polvorosa em que se encontra França no que respeita a conflitos étnicos e religiosos, vingando-se do país que o viu nascer.

No entanto, viu gorada essa possibilidade.

“Gales. Golfe. Madrid.”

Fonte: Real Madrid CF

Instantes após garantir o segundo apuramento consecutivo para o Campeonato da Europa de Futebol, depois do brilharete em França, o País de Gales festejou a vitória sobre a Hungria segurando uma bandeira do país com a inscrição que serve de título a este segundo episódio.

Cheios de intenção, Gareth Bale e companheiros resolveram prolongar o legado de uma história que se vem arrastando entre o Real Madrid e a principal figura da sua seleção, ao empunhar estas três palavras inscritas de ordem nada aleatória.

Já outubro ia dando lugar ao mês que lhe procede e Pedja Mijatovic, antigo jogador dos blancos, admitiu não conhecer pessoalmente o galês de pernas longas, mas que as informações que lhe iam chegando eram de que o foco do extremo de 30 anos estava mais perto de caddies que de bicicletas, como aquela que garantiu o triunfo sobre o Liverpool na final da Champions de 2018.

A esta perceção, partilhada pela estrutura diretiva do clube madrileno, juntou-se a indisponibilidade física para representar o clube que lhe paga o elevado ordenado para, dias depois, ser peça fundamental na performance da sua seleção, apresentando índices físicos altíssimos para um atleta que acabara de debelar uma lesão que o afastou dos relvados espanhóis.

Apontado desde sempre como um clube pouco tolerante, o Real Madrid contraria este epíteto ao acolher na sua constelação desertores e patriotas que vão sendo ofuscados pelo brilho da ganância.

Foto de Capa: Real Madrid

Artigo revisto por Inês Vieira Brandão

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