la liga espanha

16 de Outubro de 2004. Dérbi catalão no Olímpico de Montjuic entre o Espanyol e o Barcelona. Os forasteiros estão a vencer por 1-0 e têm o jogo moderadamente controlado. Aos 83 minutos, o treinador Frank Rijkaard tenta dar alguma frescura ao ataque blaugrana, tirando Deco, recém-contratado ao Porto campeão europeu, e apostando num tal Lionel Messi, um canterano de 17 anos. Foi este o primeiro acto de uma carreira brilhante do atacante argentino ao serviço da equipa principal do Barcelona.

16 de Outubro de 2014. Lionel Messi não cresceu muito mais em termos físicos, mas tudo o resto se alterou radicalmente. Perdeu a guedelha que o caracterizava durante os primeiros anos, flectiu das alas para o meio e, sobretudo, tornou-se cada vez mais letal – tanto em frente à baliza como a servir os companheiros. Dez anos depois da estreia oficial, Messi contabiliza 405 golos entre Barcelona e selecção argentina, 6 Campeonatos Espanhóis, 2 Taças do Rei, 6 Supertaças Espanholas, 3 Ligas dos Campeões, 2 Supertaças Europeias e 2 Mundiais de Clubes. Isto para além das inúmeras assistências e jogadas geniais, que não são sequer contabilizáveis.

É difícil escrever sobre Lionel Messi, como aliás costuma ser com todos os craques; quando um jogador mau faz uma boa jogada, todos reparam; quando um jogador razoável está num bom momento, é elogiado; quando um bom jogador faz uma boa época, os adeptos não o esquecem; quando um grande jogador tem uma grande carreira, fica na História do futebol. Mas Messi foi ainda mais longe. Como Ronaldo, aliás. Dizer que são dois monstros do futebol não é novidade para ninguém, e talvez já nem sequer seja suficiente. A qualidade destes dois jogadores é tanta que o mundo não lhes perdoa se passam 90 minutos sem marcar um golo, mesmo que possam ser essenciais no jogo da equipa, como são sempre.

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Ao longo dos 16 ou 17 anos em que acompanho o futebol com regularidade, tive a sorte de já ter visto jogar alguns dos melhores futebolistas de sempre. Mas Messi e Ronaldo batem toda a concorrência e têm, além disso, uma capacidade tremenda para se manterem no topo. A rivalidade entre ambos – ainda que esta seja mais alimentada pelos media e pelos adeptos do que pelos próprios jogadores – foi, aliás, das melhores coisas que aconteceu ao futebol nos últimos anos. Por muito que não o admitam, tanto o argentino como o português querem superar-se mutuamente, numa luta sem precedentes para saber quem é melhor.

Gosto muito de Ronaldo e tenho um enorme orgulho que um dos melhores jogadores de sempre tenha saído do clube do meu coração. O seu empenho, a sua vontade de melhorar e de vencer e, claro, a sua qualidade (irrita-me quando se diz que Messi é talento e Ronaldo é trabalho porque, se o português não tivesse um talento estratosférico, podia treinar a vida inteira que não chegaria onde chegou) fizeram com que pulverizasse a concorrência tanto em Portugal como no estrangeiro. Vai ter – já tem – um lugar eterno no grupo restrito de melhores futebolistas da História. Mas Messi consegue estar ainda mais próximo da perfeição.

Confesso que não gosto muito destas categorizações excessivas. Não tem de haver um único melhor do mundo. Por que não juntar Ronaldo e Messi no pedestal do qual mais ninguém actualmente se consegue sequer aproximar? Para quê as “guerras” entre partidários de Pelé, Maradona, Messi e Ronaldo sobre quem é o melhor de sempre? Por que não os quatro, cada um no seu tempo e cada um da sua forma? Mas, da mesma forma que defendo isso, também não escondo que, se me apontassem uma arma à cabeça para escolher entre Messi ou Ronaldo, teria de optar pelo argentino.

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A diferença está no controlo da bola, com tudo o que isso implica. Ronaldo é excelente com a bola no pé, mas faz da explosão uma das suas grandes armas; Messi tem aquele toque malandro, com a bola colada ao membro inferior com o à-vontade de quem sabe que não a vai perder. Nos jogos, chateia-me que os defesas não parem Messi nem que seja em falta (torço e torcerei sempre por Ronaldo neste duelo particular) mas, vendo as coisas friamente, percebe-se que o argentino torna isso quase impossível.

O controlo de bola que elogio faz com que Messi não precise da explosão de Ronaldo, porque pode serpentear por entre os defesas com uma agilidade e um repentismo que o português não tem. Numa fracção de segundo, muda de velocidade e já deixou três adversários para trás num espaço curto. Ronaldo talvez seja mais completo, mas Messi finta num palmo de terreno, passa, arranca, pára, lê o jogo, remata, tudo com a mesma naturalidade e eficácia. Mourinho tem razão, é mais “fácil” ser Messi do que ser Ronaldo. Mas, indiferente a essas discussões, o argentino soma e segue. Se eu tivesse de apostar diria que, daqui a meia dúzia de anos, la Pulga recuará para a posição que até há pouco tempo foi de Xavi. E tem tudo para ser igualmente genial nessas novas funções.

Luís Figo disse há pouco tempo que “agora é Messi ou Cristiano Ronaldo, no meu tempo havia eu, Zidane, Figo, Rivaldo, Ronaldinho, Beckham…”. Sinceramente, não gosto de gente que não tem humildade para admitir que foi ultrapassada. Ninguém põe em causa que qualquer um desses jogadores fosse fantástico. E haveria mais nomes, até. Mas hoje em dia também há muitos. A questão é que Messi e Ronaldo se destacaram de tal forma que actualmente nem existe discussão possível: o melhor do mundo ou é um, ou é outro.

FC BARCELONA VS. MALAGA
Com quatro Bolas de Ouro conquistadas, Messi é o futebolista mais bem-sucedido de sempre
Fonte: blogdofutebol.com.br/

Ainda assim, apesar de tudo o que aqui disse, honra seja feita a Ronaldo: no último ano e meio o português tem sido melhor. A Bola de Ouro que provavelmente ganhará, a sua terceira, é mais do que justa. Mas isso talvez motive ainda mais Lionel Messi. E esperemos que sim, porque o futebol só tem a ganhar com esta rivalidade. Daqui a uns anos os nossos filhos perguntarão como era ver jogar Messi e Ronaldo. A melhor resposta que poderei dar nessa altura é que todos os anos se pensava que já não havia nada a melhorar nem nenhum recorde a bater, mas eles encarregavam-se de provar que estávamos errados. Felizmente, esse tempo ainda é presente. Desfrutemos, então, do génio destes dois astros – e em particular de Lionel Messi, que hoje cumpre uma década ao mais alto nível.

La Pulga é um dos grandes responsáveis por todas as vezes em que eu estava a ver um jogo e disse para mim próprio “só mais 5 minutos” antes de ir estudar ou de sair de casa – 5 minutos esses que, não é preciso dizê-lo, às vezes se transformavam em 90 mais descontos. E estou certo de não ter sido o único a quem isso aconteceu. Por isso, em meu nome e em nome de todos os adeptos de futebol, só me resta agradecer ao astro argentino por todos os momentos de magia, com a certeza de que eles irão continuar.

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