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Assim que Benítez foi anunciado como treinador do Real Madrid, no verão passado, Ryan Babel lançou um polémico tweet: “Benítez a caminho do Real? Vai fazer do Ronaldo um grande defesa…”. A previsão de Babel era, propositadamente, exagerada, mas talvez tivesse algum sentido.

Para quem não se recorda, Babel era uma das grandes promessas da seleção holandesa que venceu o europeu de sub-21 em 2007, tendo, logo de seguida, sido contratado pelo Liverpool, de Benítez, com apenas 20 anos. O avançado holandês nunca conseguiu confirmar todo o seu potencial em Inglaterra e, hoje em dia, aos 28 anos, joga nos Emirados Árabes Unidos, o que significa que é mais incisivo no Twitter do que nos relvados. Talvez Babel culpe o agora treinador do Real Madrid pelo rumo que a sua carreira tomou, mas acho que não era a isso que se referia naquele tweet. Aquele comentário referia-se ao que Benítez fez com Dirk Kuyt, outro avançado holandês a passar pelo Liverpool naquela altura.

Kuyt também era avançado mas, ao contrário de Babel, não era apenas uma promessa, era já uma certeza do futebol holandês, fazendo até parte da seleção principal. Co Adriaanse era treinador do Porto e bem insistiu para que Pinto da Costa o trouxesse para Portugal, mas a qualidade de Kuyt já impunha voos mais altos, e foi o Liverpool que o contratou, em 2006. Infelizmente para o holandês, na época seguinte chegou Fernando Torres e, então, Benítez decidiu que Kuyt passaria a ser um ala direito. Um ala direito com muitas responsabilidades defensivas, como Benítez gosta. Jogador de equipa e trabalhador, Kuyt ajudava muito a defender mas, claro, ia-se perdendo enquanto ponta-de-lança. E, assim, na altura em que deveria ter-se afirmado como um dos grandes goleadores da Europa, Kuyt estava encostado a uma linha, a ver a oportunidade passar. Hoje, aos 35 anos, continua a fazer (muitos) golos na Holanda.

Benítez observa Ronaldo durante um treino.  Fonte: Facebook Oficial do Real Madrid
Benítez observa Ronaldo durante um treino.
Fonte: Facebook Oficial do Real Madrid

Que tem isto a ver com Ronaldo? É que Benítez está agora fazer o mesmo, mas pelo processo contrário. Kuyt rendia mais na frente e foi posto na linha. Ronaldo rende mais na linha e é posto na frente. Principalmente desde que Benzema está fora, Ronaldo parece muitas vezes uma ilha perdida na frente de ataque e os seus números nos últimos jogos refletem isso mesmo, ao ponto de parte dos adeptos madridistas já começarem a questionar o seu rendimento. Jogando como 9, Ronaldo recebe a bola menos vezes de frente para a baliza, tem menos espaço para embalar e aproveitar a sua velocidade, e tem menos oportunidades para utilizar o seu remate de longe. Poder-se-ia pensar que, ali, teria mais oportunidades para fazer golos de cabeça, por exemplo, mas nem isso é verdade. Partindo de uma das linhas, Ronaldo chegava à área embalado e, muitas vezes, disputava a bola com o lateral, ao segundo poste. Lembram-se da imagem de Ronaldo a cabecear lá em cima, no segundo andar, enquanto Evra olhava cá em baixo, no rés-do-chão? Imaginem como seria essa imagem se Ronaldo tivesse de saltar no meio de Vidic e Ferdinand… Mesmo nessa situação, sabemos que ele era capaz de marcar, mas não há dúvidas de que seria mais difícil.

Assim, não custa a crer que, naquele polémico segredo que Ronaldo contou ao ouvido de Laurent Blanc no final do Real – PSG, o português lhe tenha mesmo dito que gostaria de trabalhar com ele. Aliás, acho que Ronaldo gostaria de trabalhar com qualquer treinador. Todos, menos Benítez.

Foto de Capa: Facebook Oficial de Cristiano Ronaldo

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