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«No campo os jogadores nem falam uns com os outros. Apenas o suficiente em ações de bola parada e nada mais».

A frase pertence a um jogador do Levante. Disse-a ao jornal Sport, logo após o jogo diante do Barcelona, em dezembro de 2020. Acrescentou que, mesmo ganhando, não se ouviu uma única palavra de satisfação do lado contrário. A identidade do jogador, obviamente, não foi revelada.

Optei por escolher esta frase, que não minha, para iniciar este meu regresso ao Bola na Rede. Mais ainda por me recordar, quase seis anos depois, de uma das minhas últimas crónicas escritas para este órgão que tanto respeito. Foi no verão de 2015, quando analisei para o BnR a vitória do Barcelona diante da Juventus, na final da Liga dos Campeões, disputada em Berlim.

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Seis anos depois, tanto mudou. Já não sou mais um colaborador assíduo do Bola na Rede, já sou um jornalista profissional e, desportivamente falando, o Barcelona não é mais aquela equipa cujo trio MSN (Messi, Suárez e Neymar) havia ficado para a eternidade.

Fonte: André Maia / Bola na Rede

É certo que o Barcelona conseguiu conquistar alguns títulos internamente, mas na Liga dos Campeões, nem mais uma Liga Milionária para a amostra.

Enquanto jornalista, não posso nem devo mostrar as minhas preferências clubísticas. Mas permitam-me que abra uma exceção: sempre olhei para o Barcelona como um exemplo a seguir. Apaixonei-me pela cidade quando a visitei em 2006, poucos meses depois da conquista do título europeu em Paris, diante do Arsenal, numa final decidida por um tal de Juliano Belletti.

Lembro-me da animação nas ruas, da paixão pela cultura, da azáfama de uma cidade cosmopolita. Daquela semana, recordo-me bem da visita guiada que fiz a Camp Nou. Dei de caras com a grandiosidade da história de um clube, que nas palavras daqueles que o amam, é bem mais do que isso. É um modo de vida, uma afirmação cultural. Falar do Barça é falar de muito mais do que futebol, é falar da história da Catalunha e da Espanha, com todas as suas tragédias e glórias.

Tornei-me adepto do clube, mesmo à distância. Foram tardes e noites a ver um estilo de jogo tão próprio, que tantos títulos conquistou. Admito, sou nostálgico, gosto de recordar o passado: de recordar aqueles célebres jogos entre o Barcelona e o Real Madrid; entre Messi e Ronaldo, entre Guardiola e Mourinho. Gosto de recordar as intermináveis discussões sobre quem era melhor e de, no final de todas as palavras inflamadas, não chegar a conclusão alguma. O futebol é belo por isso.

Por tudo isto, hoje olho com tristeza para o momento do Barcelona. Um clube descaracterizado, envolvido numa falta de liderança diretiva. O poder saiu à rua e porventura nem as eleições, marcadas para 24 janeiro, vão trazer a paz que se exige. As fraturas são claras, o clube está dividido e a falta de resultados é apenas a gota de água que faz transbordar tudo o resto.

A pandemia obrigou a reajustes que não foram aceites pelo plantel. Cortes de salários trazidos a público e que expuseram o clube a um ridículo inimaginável. Dentro das quatro linhas, a equipa de futebol tornou-se fantasmagórica nos últimos anos, nos principais palcos europeus. Corei de vergonha nos pesadelos vividos em Roma, em Anfield ou na Luz, quando o Barcelona foi vergado a humilhante derrota perante o Bayern de Munique. E não, não me senti assim só pelos resultados: senti-me assim por não ver, nos rostos de quem enverga a camisola, a paixão que o símbolo exige.

Fonte: FC Barcelona

Talvez Luís Enrique tenha sido o último treinador que capaz de formar um sagrado balneário. A partir daí, acumularam-se os «erros de casting» no banco e na equipa. A gratidão é um dos valores que mais valorizo. Ora, tal não se tem visto na Catalunha e basta recordar a forma como figuras como Luis Suárez ou Rakitic saíram pela porta pequena. Custa-me olhar para um talento como Francisco Trincão e perceber que a oportunidade de uma vida, afinal, pode ser um presente envenenado. Custa-me olhar para Messi – um dos meus heróis da adolescência – e ver alguém que foi mais vezes notícia pelas birras que fez do que pelas exibições que protagonizou.

Este não é o «meu» Barcelona. Bem sei que, quando se tem jogadores de classe, tudo pode mudar de um momento para o outro. Mas a vitória momentânea apenas permitirá adiar a resolução do problema. A história de um clube precisa de mais do que bons plantéis. Os adeptos têm que olhar para dentro e perceber que há quem sinta o clube como eles. Talvez seja necessária uma revolução, a começar no presidente e a terminar na equipa de futebol. Como qualquer revolução, não será fácil. Mas também não me parece que seja impossível; talvez baste fazer uma visita ao museu, tal como eu fiz em 2006, para que alguém, dentro do clube, perceba o caminho certo. A Catalunha o exige e o futebol também.

Artigo de opinião de Pedro Marques Maia,
narrador da ELEVEN e jornalista d’A BOLA TV


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