la liga espanha

Há um Real Madrid diferente em Espanha. O atual campeão europeu, que conquistou a sua décima Liga dos Campeões na última época em Lisboa, no Estádio da Luz, promete ser bastante distinto, no aspeto tático, daquilo que era na temporada passada. As saídas de Di María e de Xabi Alonso, juntando às contratações de Kroos e James Rodriguez, impõem uma nova ideologia de jogo. Se para melhor ou para pior só o avançar da temporada irá responder. Essa é, inclusive, sempre uma questão suscetível a várias interpretações. Jogar bem não significa vitória, ou vice-versa.

Interessa, isso sim, analisar que tipo de alterações Carlo Ancelotti tem aplicado ao anterior sistema tático e, não menos importante, tentar perceber de que forma essas mudanças afetam o rendimento da equipa em geral e de alguns jogadores específicos. O Real Madrid da temporada 2013-2014 baseou toda a sua identidade de jogo num 4-3-3 clássico, mas ainda assim híbrido o suficiente para se ajustar a qualquer adversário. Aliás, o 4-3-3 que ofereceu a la decima aos adeptos do Real Madrid era um sistema altamente influenciado pela grande estrela dos merengues: Cristiano Ronaldo. O português, atual Bola de Ouro, “obriga” a um sacrifício coletivo, que, no final de contas, é brutalmente recompensador. Os títulos falam por si.

Ronaldo conquistou a Bola de Ouro antes de vencer a Champions>/i>  Fonte: dnaindia.com
Ronaldo conquistou a Bola de Ouro antes de vencer a Champions
Fonte: dnaindia.com

Ainda sobre o 4-3-3 época transata, o treinador italiano utilizava no meio-campo, sempre que podia, um triângulo no meio-campo constituído por Xabi Alonso a trinco, Modric a box-to-box e, para muitos considerada a chave do sucesso, Di María a interior esquerdo. Na frente, o outro trio era composto pelos rapidíssimos Ronaldo (esquerda), Bale (direita) e Benzema (centro). Como todos sabemos, a mobilidade e velocidade dos três homens da frente foi uma das características marcantes do estilo de jogo do Real Madrid. Se Benzema procurava imenso o jogo exterior, obrigando a mobilizar os centrais adversários, Ronaldo e Bale faziam o movimento interior, criando desequilíbrios nas alas e permitindo a subida dos laterais ( Coentrão e/ou Carvajal).

No entanto, e tal como referi acima, a colocação de Di María a interior esquerdo foi, talvez, a maior etiqueta do jogo merengue na época passada. E, de tudo, o mais curioso é que a questão do jogador argentino não se prende com o processo ofensivo – ainda que também tenha sido fundamental no último terço do terreno. Surpreendentemente, Di María trouxe ao jogo madrileno um equilíbrio defensivo perfeito. O ex-jogador do Benfica era o suporte de Cristiano Ronaldo e conseguia facilmente efetuar as dobras necessárias ao meio-campo (muito pelo fato de o português raramente acompanhar o lateral adversário). Com Di María em campo, o Real Madrid tinha uma maior capacidade de contenção e agressividade sobre a linha intermédia e, sobretudo, não permitia uma elevada percentagem de transições aos adversários. Porém, Di María já não jogador do Real Madrid. Foi-se o jogador-chave para o equilíbrio do Real Madrid e Ancelotti teve de arquitetar uma nova forma de jogar.

A questão James Rodriguez e Kroos

Com James Rodriguez e Kroos no primeiro onze oficial da época, o Real Madrid venceu a Supertaça Europeia, frente ao Sevilha, por 2-0, e deu um enorme espetáculo futebolístico. A crítica foi unânime nos elogios ao conjunto madrileno. O estado de graça, porém, foi curtíssimo. Rapidamente surgiram problemas: derrotas, empates e exibições paupérrimas. O estado de alerta fez acordar tudo e todos. Ancelotti inclusive. O experiente treinador italiano não perdeu tempo e decidiu reajustar várias posições no conjunto de Madrid. Ajustou o sistema tático aos novos jogadores e, num curtíssimo espaço de tempo, tudo mudou. O 4-3-3 deixou de imperar. O Real Madrid deambula, atualmente, entre dois sistemas táticos bem diferentes.

James e Kroos substituíram Di María e Xabi Alonso em Madrid  Fonte: Marca
James e Kroos substituíram Di María e Xabi Alonso em Madrid
Fonte: Marca

Nos últimos jogos, a equipa apresentou um modelo em 4-2-1-3, com Kroos e Modric a médios, James a médio-ofensivo, Ronaldo e Bale como alas e, por fim, Benzema a avançado. Este é um sistema tático ofensivo e, simultaneamente, uma boa forma de nunca perder apoio entre os setores. Para além disso, permite que Ronaldo e Bale troquem de posição com James Rodriguez, provocando vários desequilíbrios na retaguarda do adversário. Como é óbvio, tanta capacidade para trocas no setor ofensivo é sempre uma boa arma perante equipas pequenas, que defendem grande parte dos 90 minutos. O Real Madrid tem, com este novo esquema, uma maior (e melhor) circulação de bola. Cobrem com grande eficácia todos os espaços entre linhas, ganhando quase sempre as segundas bolas, e, simultaneamente, há uma grande disponibilidade para o passe curto, resultando assim numa maior capacidade no transporte de bola e eficácia no passe. Sem dúvida que as duas novas peças neste plano de Ancelotti fazem toda a diferença. Tanto Kroos como James são exímios no passe e dispõem de uma notável leitura do jogo. Principalmente com o alemão, que era figura central do Bayern de Munique, a equipa ganha imensa qualidade no centro de terreno.

O outro sistema que Ancelotti tem utilizado, essencialmente quando necessita de atacar com grande volume ofensivo, é o 4-2-4. Nesta formação, à imagem do anterior, Modric e Kroos são os médios mais posicionais. A médios interiores podemos ver James e Isco e, na frente, a dupla Bale e Ronaldo fazem de avançados. Com este sistema o Real Madrid perde alguma profundidade nas alas mas ganha bastante qualidade e intensidade no corredor central. Os laterais não sobem tanto e o volume de jogo ofensivo pelas ala é consideravelmente inferior. Na verdade, não existindo um trinco puro, o perigo de exporem em demasia a retaguarda faz com que os laterais tenham um maior cuidado e preocupação a nível defensivo. Isto é algo básico no futebol mas permite perceber que o afunilamento de jogo pelo centro do terreno é quase obrigatório e inato aos madrilenos.

Ancelotti dispôs a equipa assim no último jogo  Fonte: coiso
Ancelotti tem recorrido a este sistema quando precisa de maior volume ofensivo
Fonte: footyformation.com

Ainda assim, o mais importante destes dois modelos é o fato de permitir com grande facilidade que Ronaldo apareça na zona central. A ideia de Ancelotti é, sem dúvida, dar carta branca ao português para aparecer na zonas de finalização e evitar que seja obrigado a acompanhar as subidas do lateral contrário… evitando um grande desgaste físico. Sabendo que o internacional português tem está perto dos 30 anos e, naturalmente, acabará por perder o enorme fulgor físico de que dispõe, os responsáveis do Real Madrid, ao que tudo indica, pretendem que o internacional português concentre toda a sua energia no processo ofensivo. E isto, caro leitor, faz toda a diferença. Não é por acaso que o internacional português tem feito o melhor inicio de temporada de toda a carreira. Em dez jogos, Ronaldo leva catorze golos. Uma marca notável e verdadeiramente incrível.

Por fim, o “novo” Real Madrid é uma equipa mais disposta à circulação e controlo de bola, sem, no entanto, descurar as transições rápidas. Aliás, com Kroos, James e Modric, por muita largura que exista no posicionamento da equipa, o jogo vertical irá reinar em quase todos os momentos. E por falar em reinar, só o decorrer da época irá responder se o clube madrileno mudou para melhor ou para pior. Irrefutável é que o Real Madrid está diferente.

Comentários