cab ligue 1 liga francesa

A Ligue 1 tem-nos habituado nos últimos anos a uma grande incerteza em relação ao campeão. Depois dos sete títulos do Lyon, o Bordéus, o Lille, o Montpellier, o Marselha e o PSG conseguiram a proeza de acabar em primeiro numa liga pautada pelo equilíbrio. Para não variar, esta temporada também vai ser decidida nas últimas jornadas, com quatro candidatos que ainda sonham com o Championnat.

O Marselha teve um arranque auspicioso e apresentou desde logo a sua candidatura ao título. Ao Velódrome (o estádio mais bonito da Europa) chegou Marcelo Bielsa e isto só por si já deixava antever que o emblema do sul de França iria praticar um louco futebol de ataque. A vertigem ofensiva permitiu que craques como Thauvin (pé esquerdo fantástico), Payet (letal no último passe) e o goleador Gignac pudessem estar em evidência, mas também fez com que a equipa sentisse tremendas dificuldades na transição defensiva, aparecendo muitas vezes em inferioridade numérica, até porque os dois laterais (Mendy e Dja Djedjé) sobem bastante. Este desequilíbrio constante não foi, porém, impeditivo de que os marseillaises fossem somando vitórias, liderando grande parte da primeira volta.

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O Velódrome voltou a ter motivos para festejar  Fonte: Facebook do OM
O Velódrome voltou a ter motivos para festejar
Fonte: Facebook do OM

Com o avançar da temporada o conjunto de Bielsa foi perdendo regularidade, pecando sobremaneira na gestão de resultados (escandalosa a derrota com o Caen, em casa, depois de ter estado a vencer por 2-0). A quebra de forma de alguns jogadores, como Imbula (médio muito completo, com qualidade técnica e capacidade física) ou Gignac, também contribuiu para que o Marselha entregasse a liderança do campeonato. Agora a 2 pontos do primeiro lugar, o emblema do sul de França ainda está bem metido na luta pelo título e pode contar com a boa forma de elementos como Ayew, Ocampos e até Batshuayi. Seja qual for o desfecho, o objectivo inicial de voltar a colocar a equipa no topo foi conseguido, mas Bielsa, apontado como um “pé frio” no que toca à conquista de títulos, tem aqui uma excelente oportunidade para provar o contrário aos exigentes adeptos phocéens.

O Lyon é a grande surpresa da temporada. Longe dos tempos em que detinha a hegemonia no futebol francês, o clube tem claramente o plantel mais limitado dos quatro primeiros. No entanto, tem podido contar com uma dupla de sonho na frente: Nabil Fekir e Alexandre Lacazette, uma das melhores parcerias desta temporada. Ambos formados no clube, os dois jogadores emprestam mobilidade e qualidade técnica ao ataque e a sua presença em campo é sinónimo de golos e vitórias. Quando não estão, a equipa ressente-se; basta dizer que sem Lacazette o Lyon nunca ganhou. O avançado explodiu definitivamente nesta temporada, mostrando um killer instinct que ainda não se conhecia. É o melhor marcador do campeonato, com 23 golos, e perdeu algumas jornadas por lesão. Fekir, uma das maiores revelações da Ligue 1, tem sido um parceiro à altura. Dono de uma enorme criatividade e visão de jogo, o jovem de 21 anos junta às boas exibições um registo estatístico notável (11 golos e 7 assistências, principalmente com o pé esquerdo).

Houve disputa entre a França e a Argélia para garantir a preferência de Fekir, mas o craque acabou por escolher as cores gaulesas. Ao contrário de Anthony Lopes, que estava na mesma situação mas optou por representar Portugal. E deste modo Fernando Santos ganha um guarda-redes de topo para concorrer com Patrício. O guardião do Lyon, que na época passada já foi o melhor do campeonato, está novamente a realizar uma temporada incrível e é um dos principais responsáveis pelo facto de o clube estar a lutar pelo título. As exibições do outro mundo contra Marselha, Mónaco e PSG dão-lhe o estatuto de ídolo para os adeptos do OL. E há poucos, neste momento. O plantel é uma mescla entre jogadores experientes (Jallet, Malbranque e um Gourcuff que nunca mais foi o mesmo) e jovens da formação, como Umtiti, o patrão da defesa, Tolisso e os avançados Benzia e N’Jié. Não há, portanto, nomes sonantes na equipa de Fournier, que tem muito mérito na forma como tem aproveitado as potencialidades do conjunto que tem à disposição. Caso chegue ao título, é um feito fantástico e completamente inesperado.

Fekir no jogo com o Marselha Fonte: Facebook do OM
Fekir no jogo com o Marselha
Fonte: Facebook do OM

O Mónaco tem feito uma recuperação notável nesta segunda metade de temporada. Depois de um arranque tremido, em que Leonardo Jardim chegou a ter o lugar em risco, os monegascos têm aproveitado os deslizes dos adversários para se aproximarem da liderança. O técnico português conseguiu montar uma equipa muito forte do ponto de vista defensivo (os riscos que corre são nulos, o que facilita a tarefa) e eficaz a atacar, mantendo-se fiel ao pragmatismo que tem demonstrado na carreira. Sem uma grande referência, devido às saídas de Falcao e James e à ausência de investimento no início da temporada, Jardim tem, ainda assim, um plantel para terminar entre os três primeiros. À experiência de Carvalho, Toulalan ou Berbatov junta-se o talento e irreverência de jovens como Kondogbia, Ferreira-Carrasco, Bernardo Silva ou Martial, que têm evoluído bastante nesta temporada. João Moutinho também melhorou substancialmente o seu rendimento em relação à época passada, tornando-se um elemento muito influente numa equipa que, há poucos meses, tinha tudo para ter um ano muito negativo.

O PSG abordou o campeonato com alguma sobranceria, mas está na liderança e não deixa de ser o principal favorito à conquista do título. A equipa de Blanc apresentou um futebol cinzento (lento e previsível, apenas atenuado pela tremenda classe de Verratti) durante grande parte da temporada, motivando muitas críticas ao treinador. Pede-se mais, com o plantel que os parisienses têm, sobretudo porque a única mexida significativa foi a entrada de David Luiz, que, depois de alguns erros comprometedores, conseguiu melhorar com o decorrer da temporada. A dependência de Ibra voltou a revelar-se de forma clara no Parque dos Príncipes, até porque este Cavani continua sem ser o de Nápoles (não seria de admirar se o uruguaio saísse do clube no final da época). Não há ninguém no plantel com a capacidade de ser tão decisivo quanto o sueco. O génio de Pastore apareceu em muitos jogos e o argentino está a ter o melhor ano desde que chegou a Paris, mas fica a ideia de que ainda não atingiu o potencial máximo. Lucas é outro que está aquém das expectativas. Tem talento para muito mais. Lavezzi, apesar de ser extremamente útil, tem algumas dificuldades contra equipas que jogam com o bloco baixo. No final de contas, percebe-se que há um PSG com Ibra e outro sem o sueco. Mas, dadas as diferenças entre plantéis, até a meio gás a turma de Blanc pode chegar ao título.

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Ibra continua a ser a grande referência da equipa
Fonte: Facebook do PSG

Numa altura em que a Premier League, a Serie A e a Bundesliga estão praticamente decididas, a Ligue 1 promete ser o campeonato mais interessante de seguir neste final de época. Veremos que peso terá a Champions nas prestações de PSG e Mónaco, sendo certo que, estando na liderança, a equipa orientada por Laurent Blanc parte na frente. Contudo, tendo em conta que é o campeonato francês, isso quer dizer pouco. Não façam apostas.

Foto de Capa: Facebook de Anthony Lopes