Cabeçalho Futebol InternacionalHá uma cidade, no sudeste francês, em que a terra beija o Mediterrâneo e que é conhecida pelas suas propriedades terapêuticas. Não, não cura artistas (Cannes), casais em busca de novas experiências (Saint-Tropez) ou dinheiro sujo a precisar de ser lavado (Mónaco), mas, talvez por deter a maior parte dos melhores spas da Côte D’Azur, consegue rejuvenescer quem por lá passa e encontra a sua carreira meio “encravada” na mediocridade. Trata-se de Nice. Mais propriamente, trata-se do principal clube de futebol da cidade, o Olympique Gymanaste Club, onde, por exemplo, Ben Arfa conseguiu contrariar a trajectória descendente que a sua carreira ia conhecendo (tem, agora, contrato com o PSG, onde tem sido usado com alguma regularidade). Balotelli vai seguindo as pisadas da eterna promessa do futebol francês e, depois de três/quatro épocas muito abaixo daquilo que era esperado dele, eis que ressurge, com seis golos apontados em cinco jogos disputados.

Dada a sua personalidade e o respectivo mediatismo, será, com certeza, apontado como a figura maior da equipa-sensação da edição deste ano da Ligue 1. Porém, o Nice vai muito mais além de um “Super-Mario” renascido. Aliás, apesar de urgir a necessidade de um matador (Plea não o é, apesar dos três golos que já leva), o italiano terá beneficiado mais da entrada na equipa do que o inverso, integrando uma dinâmica que beneficia o seu estilo de jogo, focado na exploração das costas da defesa adversária e na qual, por inerência, a referência ofensiva da equipa será sempre a mais beneficiada. Daí a cadência de golos de Balotelli.

Lucien Favre vai reclamando, cada vez mais, a autoria do futebol praticado pelo Nice. O treinador suiço incute um futebol positivo nas equipas que orienta, deixando, normalmente, a sua marca nos clubes que orienta, conforme exemplifica o Borussia Monchengladbach de hoje, que, um ano depois da ruptura, tem sinais da sua passagem pelo clube, na tal busca pela profundidade no meio-campo contrário, e que já está no ADN do Nice, servindo de base a um processo ofensivo encantador para quem gosta de ver futebol “de peito aberto”. As vias de acesso à baliza contrária são, normalmente as alas, de onde partem dois laterais “made in Portgual” – Dalbert e Ricardo Pereira.

O brasileiro, “criado” para o futebol europeu em Guimarães, não hesita em galgar zonas adiantadas, criando desequilíbrios a partir do flanco esquerdo, muitas vezes patrocinados pelo seu poder de explosão e pela capacidade técnica, que lhe permite ser muito forte no 1×1, ofensiva e defensivamente, valências que também estão associadas ao português, igualmente  de “origem” vitoriana, embora a este acrescam uma notável capacidade de passe (já leva duas assistências) e, claro, uma noção táctica invulgar para um jogador que se habituou a jogar a extremo e que garante conforto posicional. Pode ser paradoxal, mas ao balancear-se, Ricardo … equilibra a sua equipa, já rotinada para as suas subidas e, claro, ciente da capacidade metamorfósica do jogador cedido pelo FC Porto, adaptável a todos os momentos do jogo.

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Para as subidas de Dalbert, há bom “backup” táctico. Quando o brasileiro, pontualmente, deixa a equipa descompensada (natural dado o tempo de casa), há a responsabilidade do meio-campo em compensar a subida do lateral, com Koziello, sobretudo, a dobrar o ala esquerdo, revelando uma capacidade posicional invulgar para a sua idade (20 anos) e que se estende para lá da acção de Dalbert, sendo mesmo um dos principais “equilibradores” da equipa, permitindo que o jogo do Nice também possa convergir das alas para o meio, onde outro nome associado ao futebol português se tem destacado – Jean Michael Seri. O internacional costa-marfinense, ex-Paços de Ferreira, tem-se destacado pela precisão no passe, invulgar para o jogo que lhe é exigido(é um elemento de apoio ao ataque), contabilizando já 3 assistências para golo em sete jogos, ainda que tenha ganho uma espécie de alergia à àrea contrária… algo que não assiste ao terceiro membro do meio-campo, Wylan Cyprien, que se integra bem nos terrenos pisados por Belhanda (segundo avançado que se transforma facilmente no jogador extra do meio-campo) e Balotelli.

Na hora de defender, a equipa tem três defesas-centrais a tomar conta das operações. Dois que se destacam no jogo aéreo – o experiente Dante e o líder Baysse (que grande início de temporada, já com dois golos e uma invulgar capacidade para ganhar bolas pelo ar)- e um no jogo corrido – o menino Sarr, de apenas 17 anos, que tem uma leitura de jogo bastante assinalável para júnior primeiro ano.

Uma defesa coesa, e auxiliada pela plena noção posicional dos homens que ocupam os espaços à sua frente. É invulgar existir esta sinergia com apenas uma dezena de jogos disputados, mas Favre conseguiu-o… ainda que conte com pupilos com boa escola táctica (a portuguesa, pois claro).

O Nice vai surpreendendo a Europa com a primeira posição da Ligue 1, detida sem derrotas e com quatro pontos de vantagem para a concorrência, composta pelo rival Mónaco (goleado por 4-0!) e pelo PSG, detentor da hegemonia do futebol francês. Dada a consistência da equipa, o emblema da Cote d’Azur pode ser muito mais que uma surpresa fugaz de início de temporada.

Foto de Capa: OGC Nice

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