Depois de 50 anos sem conquistar uma única Premier League, os adeptos do Chelsea deixaram de sonhar. Porque, conforme se lhes apresentava, o destino parecia ter algo contra eles, e a taça que certifica o seu detentor como o maior do reino de Inglaterra parecia não querer meter os pés na sala de trófeus de Stamford Bridge. Os blues já não conseguiam deixar-se levar pela ilusão, porque esta lhes parecia má conselheira e só lhes trouxe amargo de boca.

O dia 30 de Abril de 2005 não foi diferente. É certo que a mente de cada um dos adeptos blues fervilhava ao pensar que o jogo daquela tarde poderia resultar na matança de um borrego cheio de barbas e pêlos brancos (cinco décadas) e que uma vitória bastava para experimentarem a alegria que os seus antepassados tiveram. 11 pontos era a diferença para o 2º classificado (Arsenal) e 12 eram os pontos em disputa, mas o jogo era fora e o adversário tinha na defesa nomes conceituadíssimos como Fernando Hierro, Vincent Candela ou o experiente Jaaskelainen e na frente prodígios como Jay Jay Okocha e El Hadji Diouf…  Para além disso, parecia que aquele dia era uma partida que o destino quis pregar a quem já tanta ilusão criara mas que nada produzira senão lágrimas de desgosto.

O jogo começou, e a equipa parecia descaracterizada. Subitamente insegura de si, como que não merecendo a glória que se avizinhava. A agressividade desnecessária (uma amarelo logo aos cinco minutos) e as hesitações impensáveis de uma defesa que até então se revelara ser um porto seguro eram a prova maior desse desconforto que foi aumentando e se arrastou até ao final da primeira parte, encerrada com um teimoso 0-0. Esperava-se uma revolução à saída dos balneários, mas tal não aconteceu. Parecia não haver comunhão de ideias, uma desorganização ofensiva que impedia os blues de criarem perigo e que prolongou o pensamento de um sonho que nunca viria…

… até que, numa bola pontapeada pelo guarda-redes dos blues a partir da àrea do Chelsea, ganha a meio-campo pelo distintamente loiro da equipa e que caprichosamente sobrou para o número 8 após cabeceamento do ponta-de-lança, os sonhos começaram a parecer possíveis outra vez. Os adeptos levantaram-se das cadeiras impulsionados por um tomo de ilusão que, surpresa, ainda restava. Ele ganhou na raça a um dos mais conhecidos defesas do futebol mundial (Vincent Candela), tirou outro adversário do caminho e, carregando no seu pé direito a força do sacrifício de 50 anos de equipas diferentes, das lágrimas de crianças pelas derrotas da sua equipa, da frustração de todos os que muito viveram mas nada viram o seu querido clube conquistar, disparou para o fundo das redes contrárias. 1-0.

Lampard celebra o golo que marcou o início da era mais gloriosa do Chelsea Fonte: AP/Dailymail
Lampard celebra o golo que marcou o início da era mais gloriosa do Chelsea
Fonte: AP/Dailymail

O tempo passara devagar a partir daí e parecia que, a qualquer momento, o sonho que afinal voltara a existir na mente dos adeptos do Chelsea poderia desmoronar-se como tantas vezes acontecera no passado… Mas, 16 minutos volvidos, outra vez o número 8, vindo de trás com uma velocidade impulsionada por toda uma crença renovada de milhares de adeptos, isolado perante o guardião contrário, fintou-o e só teve de encostar para confirmar o fim e o ínicio. O fim do conformismo, da proibição de sonhar, da frustração, da tristeza, da desilusão, da derrota. O início da euforia, das conquistas, do sonho, da ilusão, da vitória.

Começou-se a sonhar em Stamford Bridge a partir daí. Esse fora o primeiro de muitos canecos que viriam a “calhar” na sala de troféus do estádio até hoje, volvidos 9 anos… e tudo graças ao pé direito do número 8. Frank Lampard. Um nome e um número que pertencem juntos, casados pelo Chelsea.

A história dos blues mudou naquela altura em que o futuro capitão visara as redes do Reebok Stadium. Começou uma nova era, a mais gloriosa do Chelsea, e Lampard, com toda uma disponibilidade e entrega que só foram limitadas pelo desgaste dos anos, foi a figura central.

No dia em que anuncia o fim de uma ligação tão bonita e histórica para o mundo do futebol como foi a dele com os blues, é justo recordar os dois golos apontados ao Bolton, que começaram a lenda da camisa azul com o número 8, cravada no coração de cada adepto de futebol.

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