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Caro José Mourinho,

Sigo a tua carreira com especial atenção desde que assumiste o comando técnico do Benfica em 2000; vi em ti a pessoa certa para voltar a “levantar” o clube, para o tirar de uma seca de títulos que se prolongava desde a conquista da Taça de Portugal de 1995. Infelizmente Manuel Vilarinho não acreditava que fosses essa pessoa e preferiu apostar em Toni, o último treinador campeão pelo Benfica à altura. O maior clube português perdeu assim o que se veio a tornar no melhor treinador português de todos os tempos.

Sempre soubeste que o Leiria seria apenas uma experiência passageira até outro grande voltar a chamar-te; quase aconteceu com o Sporting, mas acabou por ser o Porto o teu destino. Em cerca de dois anos e meio conquistaste tudo o que havia para conquistar: dois campeonatos, uma Taça de Portugal, uma Supertaça, uma Taça Uefa e uma Liga dos Campeões. Tornaste realidade algo que à altura só parecia ao alcance de clubes portugueses em videojogos, a conquista de uma grande prova internacional. Vale a pena referir que, dos onzes com que conquistaste a Taça Uefa e a Liga dos Campeões, nove dos titulares eram portugueses.

Fizeste-me torcer por um rival na Europa, algo que nunca fiz antes e não faço desde que saíste do Porto; mais que isso, fizeste-me vibrar com as tuas conquistas europeias ao serviço de um dos grandes rivais do meu clube. Acompanhei com toda a atenção o trajecto vitorioso do teu Porto nesses dois anos, desde a vitória sofrida em Sevilha ao “passeio” em Gelsenkirchen. Tudo isto enquanto pensava que este sucesso que estavas a ter podia ter acontecido no meu clube, no Benfica, se os dirigentes tivessem tido um bocadinho mais de visão e não procurassem apaziguar as massas com ídolos do passado. Directa ou indirectamente, o teu trabalho no Porto funcionou como catalisador para a fantástica campanha da selecção portuguesa no Euro 2004 e até no Mundial 2006. Jogadores como Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Maniche, Costinha ou Deco faziam parte da espinha dorsal de uma das melhores equipas que já vestiu a camisola da selecção das quinas.

Felizmente saíste do Porto em 2004, não antes de perderes a Taça de Portugal para o Benfica de Camacho – obrigado por essa, já agora! O teu destino foi o recém-comprado Chelsea do bilionário russo Roman Abramovich, onde construíste a melhor equipa que aquele clube alguma vez terá, onde implantaste uma cultura vencedora e um núcleo de jogadores que veio a ser instrumental em todas as conquistas do clube até ao teu regresso em 2013. Criaste a lenda do “Special One”, fizeste amizade com Sir Alex Ferguson e inimizades com Wenger e Benítez e em três anos “limpaste” e encantaste Inglaterra, tendo-te faltado apenas a Liga dos Campeões, o troféu que lá no fundo eu sei e tu sabes que sempre quiseste ganhar ao serviço do Chelsea. Ficou-me na memória o golo fantasma de Luis García naquela meia-final da competição no teu primeiro ano no clube. O que poderia ter sido…

Há males que vêm por bem, e o teu despedimento do Chelsea levou a que fosses contratado em 2008 pelo Inter de Milão, onde fizeste para mim o teu melhor trabalho até à data, onde construíste a equipa mais “à Mourinho” que eu já tive o distinto prazer de ver jogar. Se estava colado ao ecrã cada vez que jogava o teu Chelsea eu tornei-me (quase) obcecado pelo teu Inter. Chegavas finalmente à Serie A, a liga que mais me fascinou desde tenra idade; como se isso não bastasse, tinhas Zanetti, Figo e Ibrahimovic na tua equipa, três dos jogadores que eu mais admirava (e admiro): foi um casamento de sonho. No teu primeiro ano deste continuidade ao domínio interno do Inter, mas viste-te confrontado com a falta de “qualidade” da equipa a comparar com os outros grandes europeus, quando foste eliminado prematuramente da Liga dos Campeões nos oitavos de final diante do Manchester United de Ronaldo.

Chegamos então à época 2009/2010, a melhor época em termos futebolísticos para mim enquanto adepto. O Benfica voltou a ser campeão, desta vez com Jorge Jesus, e o teu Inter ganhou o treble. Destaco a “revolução” que fizeste no plantel de um ano para o outro: a chegada de Sneijder, Eto’o, Pandev, Motta, Muntari ou Milito revelou-se instrumental para o sucesso europeu de uma equipa que antes de tu chegares era Ibra-dependente. Trocaste então a maior e melhor individualidade do plantel por uma equipa, o que na minha modesta opinião deverias voltar a fazer, agora no Chelsea, com Hazard.

Sempre que posso vou ao youtube rever os melhores momentos daquelas meias-finais da Liga dos Campeões contra o Barcelona de Guardiola, onde se viu todo o teu brilhantismo, primeiro com a vitória por 3-1 no San Siro e depois com a melhor prestação em termos defensivos que alguma vez tive o prazer de visionar com a derrota por 1-0 no Camp Nou. E que dizer da final? As pessoas prendem-se no fantástico trabalho que fizeste nas meias, mas o Bayern de Van Gaal era uma equipa fabulosa e no papel (talvez) superior ao teu Inter, e tu não deste qualquer hipótese. Desde o apito inicial que se sabia que o resultado só seria um e os dois golos de Milito vieram apenas confirmar essa inevitabilidade.

José Mourinho atravessa um momento complicado na carreira Fonte: cdnzoom.com
José Mourinho atravessa um momento complicado na carreira
Fonte: cdnzoom.com

Desde que trabalhaste ao lado de Robson e Van Gaal no Barcelona que sonhavas treinar o clube, mas a vida levou-te ao maior rival dos catalães, o Real Madrid, onde pela primeira vez na tua carreira encontraste um balneário onde os jogadores eram “maiores” que o treinador e isso eventualmente levou ao teu divórcio com o clube. Não antes de pegares num Real Madrid recheado de estrelas que andava a ser eliminado pelo Lyon nos oitavos de final da Liga dos Campeões e conseguires, nem que por um ano, destronar o Barcelona de Guardiola, uma das equipas, senão a melhor, que alguma vez agraciaram um campo de futebol. Aliás, levaste a que o eventual êxodo de Guardiola para a Alemanha acontecesse, e no processo criaste o melhor e mais devastador contra-ataque da história do futebol. A época do título, em que bateste o recorde de pontos e de golos no campeonato espanhol, foi absolutamente demolidora. Infelizmente em três anos em Madrid voltaste a “fracassar” a nível europeu, tendo ficado “apenas” pelas meias-finais da Liga dos Campeões.

Voltaste então a “casa”, ao Chelsea, em 2013, onde encontraste um resquício da grande equipa que tinhas construído dez anos antes. Precisaste apenas de duas épocas para levar a equipa de novo ao topo do futebol inglês e agora na tua terceira época enfrentas pela primeira vez um cenário a que não estás habituado, uma equipa desmotivada, desorganizada e sem vontade de jogar, que sofre golos infantis e não consegue concretizar e muitas vezes nem consegue criar oportunidades. Pela primeira vez na tua carreira os teus métodos estão a fracassar, e parece que vais ter de te adaptar e evoluir para voltares a reerguer este Chelsea.

Não vou tão longe como os muitos que afirmam que os teus métodos estão ultrapassados: parecendo que não ganhaste a liga mais difícil (pelo menos mais competitiva) do mundo há cerca de seis meses, e o futebol não me parece ter mudado radicalmente desde Maio, mas, de qualquer forma, tal como disseste há umas semanas, vais ter de te adaptar e evoluir para ultrapassares esta situação adversa, algo que até agora parece que te recusaste a fazer. Tens-te mantido firme nas tuas ideias na esperança de que eventualmente voltem a resultar, mas, não: esta equipa precisa de um valente abanão, de uma mudança radical, para voltar pelo menos a acreditar e encontrar o caminho do sucesso de novo, e eu não tenho qualquer dúvida de que és o homem certo para esse e para qualquer outro trabalho/desafio.

Falou-se no PSG, no Monaco e no Man Utd como possíveis destinos para ti caso o Chelsea optasse por terminar a vossa ligação; falou-se também de Simeone, Guardiola ou Ancelotti como candidatos ao lugar que ocupas. Muita especulação mas pelo que parece e principalmente depois do impressionante apoio e lealdade que os adeptos te têm demonstrado Abramovich decidiu mesmo que és o homem certo para tirar o Chelsea do buraco em que está. Ainda bem. Espero ansiosamente que proves a quem continua a duvidar de ti, a quem continua a questionar o teu talento, o quão errado está.

Quer fiques no Chelsea, assumas o comando de outro clube de topo ou acabes num clube de segunda ou terceira, continuarei sempre a acompanhar a tua carreira com a mesma atenção e excitação do costume, nos bons e nos maus momentos. Se mais ninguém reconhecer, mesmo quando todo o mundo achar que estás ultrapassado e que deves abandonar, sabe que terás em mim sempre um apoiante e admirador do teu génio, muitas vezes incompreendido. Espero ansiosamente pelos próximos passos da tua carreira, sabendo de antemão tudo o que já fizeste pelo futebol e as portas que abriste aos treinadores portugueses pelo mundo fora. O teu lugar na história já está reservado, resta saber quão alto podes (e vais) subir.

Na expectativa,

João Folgado

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