À jornada 33 da Premier League, o Sunderland parecia completamente condenado à descida. A equipa dividia o último lugar com o Cardiff City, somando 29 pontos; apresentava um futebol completamente desprovido de agressividade; a última vitória do conjunto orientado pelo uruguaio Gustavo Poyet remontava a nove jornadas atrás; e o calendário prometia trazer mais nuvens negras no horizonte, visto que no espaço de uma semana a equipa teria de enfrentar três equipas do Top 5 da Premier League: uma delas a protagonizar um campeonato impressionantemente regular, estando a disputar a última vaga da Liga dos Campeões com o Arsenal – Everton; as outras duas, em duelo direto pela conquista da competição e as quais o Sunderland teria de visitar – City no Etihad (onde, até então, só havia perdido três pontos para o Chelsea) e Chelsea em Stamford Bridge (local de invencibilidade desde há 77 jogos até então para José Mourinho enquanto treinador dos blues).

Primeiro o Everton, no Stadium of Light. A equipa mostrou uma coesão defensiva que surpreendeu, entrando com uma personalidade e uma organização notáveis para uma formação que fora goleada por 5-1 na jornada anterior. Parecia ter rompido completamente com a identidade deixada nos jogos anteriores; o Sunderland da jornada 34 era outra equipa. Manteve o adversário no seu campo e, para além de evitar o primeiro golo dos tofees, ainda conseguiu criar mais oportunidades do que o adversário… até um pormenor fazer a diferença. O experiente Wes Brown comprometeu a equipa com um auto-golo a 15 minutos do final, parecendo fazer desmoronar toda a construção de um resultado positivo. Porém, a equipa não foi abaixo e no que restou do encontro só deu Sunderland. Isto foi suficiente para dar moral à equipa nos jogos que se avizinhavam, mesmo que estes tivessem dificuldade muito mais acrescida. O que mudou? Poyet não inventou, regressou ao 4x2x3x1 em posse e 4x5x1 sem ela, devolvendo experiência (O’Shea e Wes Brown) ao eixo central da defesa; dotou o meio-campo de um pensador de jogo (Collback) e apostou na exploração dos flancos, com a irreverência de Borini e Johnson, apoiados por Alonso e Bradsley. A partir deste jogo, as coisas mudaram e o reflexo disso mesmo está na forma como a equipa abordou as batalhas que tinha pela frente:

1) primeiro, no Etihad, soube conter a equipa do City no seu meio-campo, mantendo a organização defensiva mesmo depois de consentido o primeiro golo e, mais tarde, graças a uma substituição bastante feliz (Sebastian Larsson cedeu o lugar a Giacherinni, autor de duas assistências) e à inspiração de um miúdo que Poyet conseguiu potenciar com jogo psicológico (Wickham), o Sunderland conseguiu silenciar o estádio daquele que viria a ser o campeão de Inglaterra, dando a volta ao marcador em 10 minutos (dois golos de Wickham). Viria a consentir o 2-2, mas estava à vista a continuidade do trabalho tático iniciado no fim-de-semana anterior.

Borini marcou e consolidou o final da série de 11 jogos sem vencer do Sunderland na época em curso. Fonte: Daily Star
Borini marcou e consolidou o final da série de 11 jogos sem vencer do Sunderland na época em curso.
Fonte: Daily Star

2) Depois, em Stamford Bridge, num jogo em que a equipa do Sunderland parecia condenada a não vencer, dando continuidade a uma série de 11 jogos sem conhecer o sabor da vitória. Uma hipótese que pareceu ainda mais real quando Eto’o, aos 12 minutos, inaugurou o marcador… mas, mais uma vez, a solidariedade do eixo central defensivo, ajudado pelo operário Lee Cattermole, e a irreverência do menino Wickham deram frutos, logrando-se o empate passados seis minutos (da autoria do “míudo”), empate que foi mantido até ao minuto 82, altura em que o Sunderland beneficiou de uma grande penalidade. Borini marcou e consolidou o final de duas séries impressionantes: a da invencibilidade de Mourinho enquanto treinador do Chelsea a jogar em casa e a do Sunderland sem vencer na época em curso. Assim, num momento tão vulgar como a marcação de uma grande penalidade, o impensável acontecia, as odds alteravam-se drasticamente e dava-se início à melhor fase do Sunderland durante a temporada, já que, ao contrário do que já acontecera anteriormente na temporada, os Black Cats foram regulares e não ficaram por aqui, mantendo uma regularidade impressionante, evidenciada nas três vitórias consecutivas alicerçadas num desempenho defensivo notável: não sofreu qualquer golo ante Cardiff, Manchester United (sim, ganhou em Old Trafford!) e West Bromwich Albion.

Perante a proximidade do abismo em que se encontrava o Sunderland, com seis jornadas para disputar, muito poucos seriam os analistas (e até adeptos do clube) que vaticinariam um final como aquele que se verificou no Stadium of Light, quando foi garantida a permanência dos Black Cats (2-0 ao WBA, com um jogo por disputar).

Transportando esta realidade para Portugal e outros países latinos, é facilmente concebível um cenário em que a emoção tomasse conta das altas instâncias desportivas do clube em questão e que estas se apressassem na procura dos efeitos benéficos que uma chicotada psicológica pode trazer. Contudo, Poyet mudou o paradigma e, não ignorando o excelente trabalho psicológico que foi feito (especialmente com Connor Wickham), é justo reconhecer que a performance de sonho que o Sunderland exibiu no último suspiro do campeonato inglês (que deve ser exemplo para equipas e clubes em situação de descida espalhados pelo mundo) teve na sua base uma chicotada… tática.

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Enquanto a França se sagrava campeã do mundo de futebol em casa, o pequeno Pedro já devorava as letras dos jornais desportivos nacionais, começando a nascer dentro dele duas paixões, o futebol e a escrita, que ainda não cessaram de crescer.                                                                                                                                                 O Pedro não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.