Tem sido, talvez, a janela de transferências mais absurda de sempre. Milhões são dados em troca de míudos e míudos são apresentados à frente de milhares. O mercado está louco, mas quem não gasta parece ainda mais louco. Assim, o caso do Sheffield United FC, que jogará em 2019/2020 a sua primeira época de Premier League, é um dos mais curiosos nesta temporada de futebol que se avizinha.

A relação da cidade de Sheffield com o futebol começa em 1857 (!). A criação do Sheffield Football Club deu origem ao primeiro clube de três clubes desta localização. 10 anos depois, surgiria o Sheffield Wednesday e, em 1889, o Sheffield United FC.   Dos três irmãos, o mais velho nunca teve grande sucesso, e atualmente joga a nível semiprofissional no sistema inglês. O irmão do meio, esse, teve outra projeção e, na última época do Campeonato Inglês (antes da renomeação para Premier League), acabaria em terceiro lugar, mas nos anos seguintes teria uma queda dura para os escalões inferiores do futebol britânico, onde ainda hoje se mantém. O mais novo dos três, esse, até já foi campeão… em 1898/1899. Mas hoje é, pela primeira vez na sua história, a única equipa de Sheffield na Premier League.

Os três irmãos de Sheffield                                                                                                            Fonte: Bola na Rede

Assim, chegou a vez de o mais novo mostrar o que vale, numa cidade cuja longa ligação ao desporto rei não é refletida pelo palmarés das suas três principais equipas. Ao contrário de equipas como Aston Villa FC e Wolverhampton Wanderers, cuja promoção veio no seguimento de um investimento grande por parte das direções, o Sheffield United teve um caminho mais tradicional e, por isso, mais moroso para chegar aqui.

No leme da equipa, está Chris Wilder. O ex-futebolista inglês passou a sua carreira como treinador nos clubes de escalões inferiores, e terá também a sua estreia na Premier League este ano. No Sheffield, aplicou uma tática caracterizada pela imprensa inglesa com a sua liberdade dada no ataque, com um sistema 3-5-2, raro na segunda divisão inglesa, a resultar numa época memorável, em que o United acabou no segundo lugar, garantido o acesso direto ao principal escalão. No centro das atenções, esteve o capitão Billy Sharp, com 23 golos marcados.

Aos 33 anos, Billy Sharp conseguiu finalmente levar o Sheffield United à Premier League
Fonte: Sheffield United FC

Mas, num mercado de transferências onde equipas como FC Barcelona conseguem gastar mais de mil milhões de euros ao longo de seis anos, o investimento parece necessário. Jogar bem, preparar a equipa e estabelecer uma tática coesa já não é tudo, pelo menos para quem vê de fora.  Olhando para o Aston Villa FC, outra equipa promovida, vemos um gasto superior a 60 milhões de euros (de acordo com o site Transfermarkt). Reforços vindos de todos os cantos do mundo e nomes que, embora não necessariamente de classe mundial, têm já uma certa projeção no panorama europeu.

Para os lados de Sheffield, porém, o recrutamento conta com um veterano do futebol inglês (Phil Jagielka), uma antiga jovem promessa que nunca singrou (Ravel Morrison), dois atacantes contratados a equipas da segunda divisão (Callum Robinson e Luke Freeman) e um ponta de lança francês vindo do AFC Bournemouth (Lys Mousset). Daqui, o nome mais sonante será talvez Ravel Morrison. Formado na academia do Manchester United, é dito por Rio Ferdinand (antigo capitão dos red devils) que Ravel possuía mais talento que jogadores como Paul Pogba e Jesse Lingard, mas a sua atitude e maus hábitos levaram-no numa carreira de carrossel, andando de um clube para o outro, sem nunca encontrar o sucesso para que parecia destinado.

No total, são menos de 25 milhões de euros gastos. Segundo o Transfermarkt, o valor de mercado da equipa do Sheffield United é inferior ao de metade das equipas do Championship, a segunda divisão inglesa. O que procurará a direção com estes negócios?

Será o United mais um dos clubes que tentaram resgatar a carreira deste problemático futebolista?    Fonte: Sheffield United FC

Talvez a presidência do Sheffield United esteja a ser dolorosamente pragmática. Ciente do marco histórico que já conseguiu no clube, não é difícil perceber que a equipa atual está vários furos abaixo de outros plantéis da Premier League. Até equipas de meio da tabela, como o AFC Bournemouth, são teoricamente muito superiores a este Sheffield United. Assim, a direção tinha duas opções: ir pela mesma rota que o FC Fulham no ano passado, e investir dezenas de milhões de euros, correndo o risco de ser despromovida e ficar com um buraco financeiro enorme (como aconteceu, de facto, com os cottagers) ou fazer um investimento controlado, que reforce a equipa mas que nunca arrisque a estabilidade financeira do clube em caso de despromoção.

E foi esta a escolha do Sheffield United. Os adeptos dos Blades estão ainda embriagados com a felicidade da sua primeira campanha na Premier League, e as contratações do clube não parecem ter tido efeito negativo na massa associativa. A renovação por mais três anos com Chris Wilder, confirmada no início deste mês, pretende reforçar a estabilidade interna, numa época que irá pôr a coesão entre treinador e jogadores à prova.

Enquanto as equipas à sua volta se reforçam com grandes nomes, o Sheffield United vai-se mantendo sóbrio no mercado. O mais novo de três irmãos leva uma cidade às costas, e talvez seja com isso que possa contar. Tal como uma certa equipa de Leicester há uns anos, não haverá nenhum craque conhecido globalmente a defender as cores do clube. Haverá onze jogadores e toda uma região atrás. Talvez sejam esses milhões que a direção espera que façam a diferença, naquela que é a liga mais competitiva do mundo.

Foto de Capa: Bola na Rede

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