Foi confrangedor, penoso e podia ter sido ainda mais humilhante. A nova versão do Newcastle depois da saída do médio criativo Yohan Cabaye promete dar muitas dores de cabeça ao técnico Alan Pardew. Depois de ter empatado a zero com o Norwich, o Newcastle tinha em casa, frente ao seu rival de sempre, Sunderland, a possibilidade de demonstrar que tinha argumentos para reagir à saída do jogador francês para o Paris Saint-Germain. No entanto, em pleno St James’Park, os Magpies fizeram questão de comprovar que sem Cabaye a equipa corre sérios riscos de ter uma segunda volta do campeonato muito complicada. Os 3-0 encaixados em casa (resultado idêntico ao do ano passado neste mesmo Tyne–Wear derby) até foram lisonjeiros para os comandados de Alan Pardew, que raramente souberam apresentar capacidade para criar jogadas de real perigo para a baliza de Vito Mannone.

Olhando para o esquema tático do Newcastle, percebe-se desde já que sem Cabaye deverá ser completamente inútil manter o 4-3-3 que tem caracterizado Alan Pardew. Nunca fui grande fã deste técnico inglês a quem os dirigentes do Newcastle decidiram dar um contrato de 8 anos (!), mas atribuo-lhe crédito na forma como foi descobrindo alguns bons talentos para a sua equipa. É, no entanto, incrivelmente inábil a solidificar o crescimento sustentável dos seus jogadores. Cabaye conseguiu fugir à regra, mas sem ir muito longe. Pense-se no exemplo de Papiss Cissé. Um jogador que chegou à equipa dos Magpies na plenitude das suas capacidades, tendo inclusivamente marcado 13 golos em apenas 14 jogos e que agora se eclipsou completamente da equipa, estando, nesta altura, no lugar, o emblemático Shola Ameobi (sim, esse. Ainda joga).

Pardew tem de repensar a sua estratégia sem CabayeFonte: Talksport.com/
Pardew tem de repensar a sua estratégia sem Cabaye
Fonte: Talksport.com

Este caso de Cissé poderia ser apenas um mero erro de gestão de Pardew, mas se olharmos com atenção para o potencial individual desaproveitado pelo Newcastle, rapidamente vemos que há uma clara falta de gestão na rentabilização do talento dos seus jogadores. Observando este último encontro frente ao Sunderland, conseguimos ver, desde logo, como o técnico inglês consegue quebrar o rendimento dos seus jogadores através da posição que os faz ocupar em campo. Descontando o guarda-redes, Tim Krul, os dois laterais Debuchy e Santon e o trinco Tioté, vemos que quase todos os jogadores estão em quebra exibicional pelo lugar que ocupam no terreno de jogo. De resto, do meio-campo para a frente é urgente reorganizar toda a equipa. É incompreensível que Ben Arfa jogue no tridente do meio-campo, sendo ele um jogador que muito arrisca e que usa e abusa de jogadas individuais. Ter em 4-3-3 um médio que perde muitas bolas é um suicídio e essa situação ficou bem exposta no jogo com o Sunderland. Mais incompreensível ainda é ver que Moussa Sissoko (que é um médio-centro de raiz) está a jogar descaído numa das alas enquanto tudo isto acontece. Desperdiçar o talento de dois jogadores que até poderiam ser compatíveis com este esquema é revelador das enormes limitações de Alan Pardew, que tarda em perceber que, para que ambos funcionem, apenas bastaria trocar a posição de um com a do outro.

Para além destas limitações, ficou bem visível que, se a insistência de Pardew for para a frente e o 4-3-3 se mantiver, Anita não é jogador para substituir Cabaye. É um jogador muito inferior, com uma tremenda falta de capacidade para ajudar o outro médio a organizar e a definir jogadas e é excessivamente faltoso (tendo, inclusivamente, cometido uma grande penalidade no jogo).

Não sei o que passará pela cabeça dos dirigentes do Newcastle por esta altura, mas parece-me que sem Cabaye e com a insistência no 4-3-3 os resultados poderão ser catastróficos. E as opções, neste momento, são muito simples: ou o Newcastle abdica do teimoso Pardew ou Pardew repensa a situação e abdica do seu 4-3-3 predileto.

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