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Com o ano de 2014 prestes a terminar, o Bola na Rede faz uma viagem pelos últimos 365 dias. Numa série de artigos, destacar-se-ão os protagonistas que marcaram um ano repleto de momentos que permanecerão na memória de todos os amantes de Desporto.

GR: Julian Speroni (Crystal Palace)
É factual: um guarda-redes de equipa “pequena” tem sempre muito mais trabalho durante um jogo do que um de equipa grande, pelo que olhar para os golos sofridos de cada equipa da Premier League durante o ano poderá ser falacioso quanto à atribuição do prémio de melhor guarda-redes durante esse período. Porém, se atentarmos que uma dessas equipas conseguiu superar esse registo relativamente às equipas “grandes” (Liverpool e Tottenham, na circunstância) durante uma época inteira, podemos daí tirar conclusões. E o facto é que o Crystal Palace conseguiu ter menos golos sofridos, em toda a temporada 2013/2014, do que equipas como Liverpool (vice-campeão) ou Tottenham, algo que transportou para esta época (embora atravesse um momento menos feliz nesse particular), sendo comum às duas épocas as fantásticas exibições do seu guarda-redes, que impediu várias goleadas e garantiu vários pontos à formação do Crystal Palace, essenciais para assegurar a manutenção. A meu ver, Speroni consegue superar nomes como o de Petr Cech (excelente primeira metade do ano, mas inferior a segundo muito devido à aparição de Courtois), De Gea (o contrário de Cech) ou Mignolet, não só pelo facto de não estar numa equipa grande lidando, por isso, com caudais ofensivos muito mais intensos, mas também por ter sido tecnicamente superior a eles.
Begovic também seria um nome a considerar, mas não deixou patente a regularidade do guardião argentino.

DD:Pablo Zabaleta (Man City)
O lateral-direito do Manchester City destaca-se dos restantes pela sua raça e agressividade. Faz autênticas piscinas, sendo excelente defensiva e ofensivamente. Pela inteligência posicional, pela “ratice” que foi apurando ao longo dos anos que acumula de futebol e pela invulgar qualidade de passe que o argentino possui, merece, sem sombra de dúvida, o galardão de melhor defesa direito do ano, até porque, também, não tem grande concorrência de peso.
Seamus Coleman foi outro nome considerado mas o lateral do Everton, apesar de ser mais solicitado defensivamente e de, mesmo assim, conseguir ter tido um importante papel na ajuda dada ao ataque, não foi um jogador tão regular e tão eficaz como o argentino.

DC: Vincent Kompany (Man City)
O líder da defesa é aquele ao qual devem ser dados todos os méritos, que eventualmente distribuirá pelos seus parceiros. Kompany foi o líder da defesa do campeão, Manchester City, e foi muito por causa dele que a equipa logrou esse título e, aliar ao mesmo, um futebol de ataque espectacular eficaz pelo seu posicionamento, pela forma como berrou, gesticulou e ajustou posições de quem o rodeava e pelo facto de ser praticamente intrasponível pelo ar e pela relva, usando uma compleição física invejável aliada a uma velocidade que impressiona para alguém do seu tamanho. O defesa belga sabe todos os truques do jogo e formou com Demichelis primeiro, Mangala depois, e Demichelis, mais tarde, novamente, duplas de centrais extremamente eficientes, que permitiram ao City sair em ataque desenfreado sem preocupação com as “costas”. Por isso, merece estar na dupla de centrais do ano.

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DC: Branislav Ivanovic (Chelsea)
A escolha do sérvio para o centro da defesa acontece por uma questão de princípios do redactor. Achei injusto deixar de fora dos quatro melhores defesas da Premier League um jogador responsável pela excelente performance defensiva do Chelsea na época passada e que mantém uma regularidade exibicional impressionante. Para além disto, ter de fora o defesa mais completo (faz piscinas de um lado ao outro do campo se tal fôr necessário, ganha bolas de cabeça como ninguém, tanto na defesa como no ataque, tem noção de como saber usar agressividade para morder os calcanhares ao adversário e é dos que melhor desarme tem, sendo praticamente intransponível) seria estranho para mim. É certo que é normalmente (ou de forma quase exclusiva, pode dizer-se) utilizado como lateral-direito, mas também é capaz de desempenhar o papel de central com igual eficácia, pelo que não será, de todo, descabido inclui-lo no eixo, juntamente com Kompany.

DE: Leighton Baines (Everton)
Há muitos anos que Baines vai merecendo este prémio (superando, sim, Patrice Evra). É um daqueles jogadores que encata os adeptos das estatísticas no futebol. Por ser tão constante e por conseguir ter desempenhos tão regulares,  já foi inclusive usado como case study para o uso de tecnologia para traçar padrões de avaliação de jogadores, pois mantém constantes os valores apresentados nos índices a que é avaliado. De facto, basta olhar para dois jogos de Baines e verificar que não diferem muito um do outro, com ele a manter a sua habilidade no passe (cruzamentos, sobretudo), um poder de aceleração assinalável, a que alia excelente capacidade de drible e ainda a excelência na cobrança de bolas paradas. Arrisco mesmo a dizer: roça o modelo daquilo que é suposto ser um lateral-esquerdo do futebol moderno.

MC: Nemanja Matic (Chelsea)
A estreia pelo Chelsea foi “certinha” conforme apelidaram os media locais. Não foi extravagante porque a táctica não o permitiu, mas foi competente, uma característica que lhe foi transversal no resto da época, apesar das exibições soluçantes que teve a seguir. Com o tempo, ao longo da época 2013/2014, o Matic do Chelsea voltou a ser o Matic do Benfica e mostrou que a omnipresença que marcou os relvados portugueses era transferível para os britânicos, um feito que ganha enorme relevo tendo em conta as características físicas do futebol inglês. Foi esta omnipresença que valeu vários “Man of the Match” ao sérvio. Isso e a forma como sabe destruir jogo, controlá-lo e construí-lo, podendo perfeitamente ser um elo de ligação entre a defesa e o meio-campo ou actuar como o motor do ataque em certos períodos do encontro. A inteligência do ex-Benfica, acrescida a outros dons naturais, como a altura e a robustez, facilitaram a sua integração e tornaram-no num dos melhores médios do campeonato inglês em 2014.

MC: Steven Gerrard (Liverpool)
Foi uma época histórica para o Liverpool. No passado recente, nunca como na época transacta os reds estiveram tão perto de voltar a conquistar o título da Premier League, que lhes anda fugido desde 1990 (24 anos). O responsável-maior? O eterno capitão. Steven Gerrard. Não terá atingido, aos 33 anos de idade, o pico da carreira, mas certamente que foi uma das temporadas mais regulares que assinou e, muito provavelmente, aquela onde sentiu a camisola do Liverpool entranhar-se na pele. Viu-se na forma como chorou após a vitória ante o City, uma das imagens que marcou o ano, e o quão desolado ficou no duelo contra o Crystal Palace que ditou o fim do sonho da conquista da Premier League. O experiente médio, agora com 34 anos, entrou bem na época 2014/2015 e ainda assinou boas exibições no início da época, tendo vindo a cair depois. Porém, aquilo que fez na época transacta é suficiente para que figure entre os melhores da Premier League neste ano civil.

MC: Morgan Schneiderlin (Southampton)
Uma das equipas-sensação da Premier League da época passada foi o Southampton, que só ficou atrás de equipas com muito maiores responsabilidades financeiras e desportivas (United, City, Liverpool, Arsenal, Chelsea, Tottenham e Everton), e assinou uma segunda metade da temporada passada surpreendente, com resultados bastante positivos, somando apenas 6 derrotas, com a particularidade de 5 delas terem acontecido em circunstâncias “normais”, isto é, frente a equipas que terminaram acima dos Saints na tabela classificativa. Quando se pensava que a época anterior era difícil de superar, ainda para mais tendo em conta as atribulações da pré-temporada, eis que o início da Premier League 2014/2015 mostra um Southampton revigorado, ainda melhor do que o do ano passado, praticando um futebol sólido, de equipa grande, mesmo mudando muito do seu estilo de jogo e do seu onze base, o qual só manteve duas peças  – José Fonte e Schneiderlin. E se o português tem sido o líder espiritual da equipa dentro de campo (capitão), o francês têm sido o comandante táctico da equipa, possuindo uma inteligência táctica fora do vulgar (que lher permite ganhar muitíssimas bolas, seja pelo ar ou pelo chão), a que alia um poder de passe assinalável, que permite construir muito jogo desde trás – um aspecto essencial, sobretudo agora, através da mudança táctica operada por Ronald Koeman nos Saints, o que torna Schneiderlin numa peça cada vez mais importante desta equipa que vai surpreendendo cada vez mais, sendo a figura principal do incrível Southampton de 2014.

MC: Yaya Touré (Man City)
Apelidar Yaya Touré de melhor médio do mundo seria uma banalidade na primeira metade do ano de 2014. O costa-marfinense, aos 30 anos, atingiu, muito provavelmente, o pico da carreira e carregou às suas costas o futebol do City. Foi (e continua a ser) importantíssimo na construção de jogo ofensivo, iniciando grande parte das devastadoras manobras ofensivas do futebol dos citizens, trazendo jogo desde trás, conseguindo gizar espaços onde estes pareciam não existir com uma visão de jogo incrível e um poder de passe não menos impressionante. Foi incansável durante toda a época, disputando todos os minutos dos 35 jogos que jogou de forma  intensa, sem que se registasse um aparente cansaço motivado pelo decorrer do tempo, como comprovam muitas arrancadas que fez nos minutos de finais dos encontros e os golos que marcou durante estes períodos, fazendo jus a uma característica que sempre lhe apontaram mas que ficou ainda mais evidente no ano passado – o poder de finalização, marcando a cada 1.3 remates que fez, o que resultou em… 20 golos! Um número impressionante para um médio.

Na primeira metade da época que corre não tem sido tão feliz como fora o ano passado, mas, mesmo assim, consegue ter muita influência no futebol praticado pelos citizens e mantém aquela passada larga, assumindo, sem problema, a responsabilidade de construir o jogo de uma equipa grande. Para além disso, adquiriu características que não tinha, como o jogo aéreo (ganha, agora, cerca de 1.4 lances por jogo no ar, ao invés 0.5 do ano passado).

AV: Luis Suárez (Liverpool)
Normalmente, seria difícil justificar uma escolha de um jogador que só jogou metade do ano para o onze desse período, mas Luís Suárez foi… Luís Suárez e aquilo que conseguiu ao serviço do Liverpool na segunda metade da época 2013/2014 foi qualquer coisa do outro mundo, consagrando-se como o melhor jogador da Premier League e o melhor marcador da competiçao, tornando-se, ao mesmo tempo, no co-Bota de Ouro, juntamente com o “alien” Cristiano Ronaldo Em 33 jogos marcou 31 golos, mas a sua influência na época fantástica do Liverpool vai muito além disso mesmo, porque não foram raras as vezes que veio dar uma mãozinha à defesa e iniciou muitos lances de contra-ataque. Quando tinha a bola em zona ofensiva era simplesmente demolidor, descobrindo trilhos quase invisíveis a olho nu que lhe permitiram construir muitos dos 101 golos dos reds na época passada. Foi considerado homem do jogo pela imprensa britânica de dois em dois jogos e manteve a regularidade durante a época toda, sendo a segunda metade de 2013/2014 igualmente demolidora.

AV: Eden Hazard (Chelsea)
O menino prodígio do Chelsea e uma das figuras da Premier League do ano civil de 2014 não podia de deixar de figurar neste onze ideal. Hazard conseguiu dar esperança aos blues, no ano passado, quando a equipa era lenta a construir ofensivamente e dependia das suas arrancadas para ter imaginação e criatividade. O belga desbloqueava situações mais complicadas e foi ele o principal instigador de sonhos dos adeptos que acreditavam que a equipa podia voltar a sagrar-se campeã de Inglaterra. O poder de drible, a velocidade, a inteligência e o poder de finalização são armas que qualquer extremo tem de ter. Porém, é difícil exigir que qualquer jogador possa ter essas qualidades ao nível das de Hazard, porque são estão ao nível de um predestinado, conforme ele foi vincando ao longo do ano de uma forma extremamente regular e crescente. Por isto, e por conseguir ser a figura do Chelsea (que, tem de se sublinhar, na segunda metade de 2014 dominou o futebol inglês), merece um lugar no onze ideal da Premier League 2014.

Jogador do ano: Eden Hazard (Chelsea)
Suárez foi incrível (e Sturridge o seu “sidekick”), Touré impressionante… mas só o foram durante meio ano. Suarez saiu a meio do ano de 2014 e Yaya Touré tem vindo a decair, atravessando uma estranhíssima crise de confiança. Hazard conseguiu ombrear com eles durante a época transacta, e esta época a concorrência que encontrou (Sergio Agüero, Di María e Fàbregas são os que, porventura, mais perto dele se aproximaram na primeira metade de 2014/2015) tem sido, do meu ponto de vista, superada, e parece-me que o belga está na linha da frente rumo ao galardão de melhor jogador da Premier League. Analisando o ano todo, Hazard foi aquele que mais magia espalhou pelos relvados. Conseguiu crescer de forma regular ao longo do ano, tornando-se numa das referências de uma equipa que tem vindo a dominar o futebol inglês este ano. Justifica, plenamente, o título de melhor jogador do ano da Premier League.

Revelação do ano: Mile Jedinak (Crystal Palace)
Um jogador revelação é aquele que surpreende, que revela ser algo superior àquilo que era esperado dele. Normalmente, este é um prémio associado a jogadores jovens, mas não tem de o ser necessariamente, porque a definição de revelação não remete para juventude em todos os casos, e no que toca a este ano, aquele que mais surpreendeu, aquele que revelou estar muito além das capacidades que lhe eram atribuídas, a meu ver, foi o trintão Mile Jedinak. O australiano levou o Crystal Palace às costas, e foi sempre o motor ofensivo e o tampão defensivo de que a equipa precisou para assegurar a manutenção na época 2013/2014, consagrando-se como a figura da equipa, juntamente com o inevitável super-guardião, Julian Speroni.

Morgan Schneiderlin também mereceria referência neste quadro, mas a sua prestação, tendo em conta o que já fora feito por ele em 2013, acabou por não surpreender. Phillipe Coutinho ou Raheem Sterling surpreenderam o mundo com a meia época assombrosa que fizeram… mas foi só isso, meia época. Jedinak foi regular e, para além de conseguir assinar uma época tremendamente regular, que manteve o Palace em lugares tranquilos na época passada, tem sido a salvação da equipa na época que corre, sendo um autêntico guerreiro a meio-campo, ganhando muitíssimas bolas pelo ar e pelo chão, fruto da sua mobilidade… que se tem alastrado a uma zona mais adiantada do terreno (pese embora o facto de ocupar a mesma posição – trinco – da época passada), algo que tem dado frutos, pois, em meia época, já fez o dobro das assistências da época passada e já quintuplicou o número de tentos apontados. Vindo do Championship, e nunca tendo actuado numa liga de topo (tinha passado antes por Gençlebirligi e Antalya, da Turquia, e Central Coast Mariners, da Austrália), pela sua regularidade exibicional e pela sua importância na equipa, foi o jogador que mais surpreendeu no ano de 2014.

Treinador do ano: Ronald Koeman (Southampton)
O galardão de treinador do ano, no meu ponto de vista, deverá ter mais em conta aquilo que se passou na época que corre do que propriamente na transacta. É que, na primeira metade do ano, as equipas já vêm com princípios de jogo assimilados do ano anterior e já estão entrosadas, pelo que o dedo do treinador não é tão visível como no início, onde as equipas melhor preparadas se destacam. É certo que pode haver uma linha de continuidade com a época passada, mas mesmo assim é preciso afinar estratégias e é impossível, no futebol moderno, manter um onze base de uma época para a outra.

Nesse sentido, Ronald Koeman destaca-se, a milhas, dos restantes. Pegou numa equipa refém das suas principais referências, perdendo 9 (!!!) titulares, e começou a pré-época com falta de reforços. Estes foram chegando a conta-gotas, mas, quem entende minimamente de futebol, sabe que demora algum tempo para a habituação de um jogador a uma nova realidade… a menos que o treinador o integre da melhor e mais rápida maneira possível e saiba ter a ginástica mental necessária para identificar problemas inesperados e potenciar novos recursos. Koeman tem conseguido fazer isso com o Southampton, assinando um dos melhores inícios de época de sempre da história do clube, tendo ocupado o segundo lugar durante muito tempo com uma equipa praticamente nova, quer em termos de equipa, quer em termos de Premier League, como são os casos das (agora) referências Mané, Tadic ou Pellé. Pela dificuldade do trabalho que teve ao seu dispor, Koeman merece este galardão muito mais que qualquer treinador de equipas de topo que mantiveram o seu “manager” (Brendan Rodgers espalhou-se esta temporada, Mourinho não esteve bem na anterior, e Pellegrini sempre teve estabilidade) e, a meu ver, do que nomes de treinadores que assinalaram excelentes campanhas, como Garry Monk (iniciou a carreira de treinador em Fevereiro deste ano, ao serviço do Swansea, e tem tido bons resultados, mas, perante os recursos disponíveis e o trabalho que vinha da época anterior, teria de fazer mais para superar Koeman), Tony Pullis (obreiro da grande época do Crystal Palace na época passda) ou Mark Hughes (um excelente plantel à disposição no Stoke, mas a equipa já se encontra entrosada).

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